Origens - Peregrinação ao Passado

Manuscrito para uma Autobiografia, por José Francisco David-Ferreira [20XX]

"Nasci numa terra (aldeia) do Alto Alentejo, que deu o nome no mapa porque um dia junto dela construíram uma barragem.

Sou descendente de uma família anónima (de uma) das muitas gerações que viveram nesta terra e que ao longo dos séculos fizeram dela uma pátria, um país. Benjamim de uma família numerosa, de sete irmãos não contando os dois que morreram ainda "anjinhos".

O ramo materno da minha Avó era já nascido ali (a dos Ferreiras). Mas o meu Avô materno viera de outras bandas, Salvaterra de Magos, e era mestre pedreiro que construiu no alto de uma colina, à volta da guarita que assinalava a sua altura (o marco geodésico) muitas das casas daquela aldeia.

O meu Pai, órfão de um Avô que não conheci, era descendente do ramo dos David, descendentes dos saboeiros das terras de Coruche. A alcunha porque eram conhecidos assinalava a profissão que os ocupava. O nome de família e a profissão eram marcas de uma descendência judaica que alguns traços fisionómicos também confirmavam.

Montargil situada nas margens do Rio Sor, rodeada de terras férteis, era o centro onde aos domingos se vinham abastecer e embebedar os camponeses que viviam e trabalhavam nos arredores.

O meu Pai, José Francisco David, que para ali viera trabalhar como aprendiz de mestre pedreiro do meu Avô materno casou com uma das suas filhas, elas eram três e estabeleceu-se como pequeno comerciante que durante algum tempo prosperou com uma padaria e negócios de cortiça. Construiu casa grande na rua do comércio até que no ano em que nasci, em 1929, foi atingido pela Grande Depressão que atingiu o mundo.

Não resistiu à vergonha, ao desgosto da falência, e morreu vítima de doença (ou de desgosto).

É a minha primeira memória quando ao colo de um dos meus irmãos mais velhos, o Manuel, o vi deitado no seu leito de morte rodeado pelos que o choravam na última despedida. Anos esquecidos, perdidos na memória até que um dia, teria eu talvez cinco anos, acompanhei a Mãe a Lisboa para ajudar a sua irmã Maria Rosa, cujo marido Luís Vieira tinha adoecido.

Quis o acaso que eu durante essa estadia, numa ida ao Barbeiro para cortar o cabelo, eu fosse contaminado com uma tinha. A minha Mãe regressou a Montargil e eu fiquei para tratamento, e fiquei para sempre com os meus Pais adoptivos e com eles começa a minha história..

Uma Tia sábia por natureza e um Tio desportivo, eis-"matafrades", comerciante por ofício, desportivo futebolista de mérito, no tempo em que o futebol era desporto e não espectáculo.

Naquela casa os livros eram poucos, mas eu devorava-os e eles alimentavam a minha ânsia (imensa) de aprender e conhecer o mundo.

Não fui o único a passar por aquela casa, a minha irmã Lubélia por ali passou, mas regressou à terra, o meu Irmão mais velho ali tirou o curso comercial e se empregou e iniciou num balcão do Vale do Rio uma carreira que depois de sucessivas promoções terminou como director comercial de uma..."