Instituições

Principais instituições científicas onde trabalhou:

 

Assistente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - 1954

Em Dezembro de 1954 foi proposto para 2º Assistente da Cadeira de Histologia pelo novo Director do Instituto, Professor M. J. Xavier Morato.

A partir dessa data dedicou-se exclusivamente ao ensino e à investigação científica. Não pode deixar de referir a influência benéfica que recebeu da experiência pedagógca e do espírito de organização do professor Xavier Morato a cuja iniciativa deveu o ter-se orientado no campo da investigação ultrastrutural. Assim, em Maio de 1955, sob proposta dos professores Xavier Morato e Celestino da Costa, foi-lhe concedida pelo Governo Francês uma bolsa de estudo para trabalhar em Paris no Institut de Recherches sur le Câncer (Villejuif), de que era Director o professor Charles Oberling.

 

Instituto do Cancro Gustave-Roussy, Villejuif (Paris) - 1955-1957

José Francisco David-Ferreira foi bolseiro do Governo francês no Instituto do Cancro Gustave-Roussy em Villejuif, arredores de Paris, entre 1955 e 1957. Durante este período, trabalhou na sua especialização em Microscopia Electrónica e na elaboração da sua tese de Doutoramento.

O Laboratório de Microscopia Electrónica de Villejuif era, sob a direcção de W. Bernhard, um dos laboratórios mais activos nas técnicas citológicas e histológicas da microscopia electrónica. Além de se praticarem com rigor essas técnicas, vivia-se um clima de trabalho e de intercâmbio internacional altamente estimulante. A W. Bernhard, além dos ensinamentos de uma técnica na época cheia de dificuldades, ficou a dever critérios de rigor na sua prática e muito da sua formação científica.
Depois de uma curta estadia em Portugal, de Novembro de 1955 a Janeiro de 1956, em que desempenhou funções de Assistente, na recentemente criada Cadeira de Biologia Médica, regressou a Paris para continuar a sua especialização agora como bolseiro do Instituto de Alta Cultura.
Durante o estágio em Villejuif, além da aprendizagem das técnicas de microscopia electrónica aplicadas ao estudo de células e tecidos, deu início aos seus primeiros trabalhos no domínio da investigação ultrastrutural.

 
Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina de Lisboa - 1960-62

Assistente do Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, primeiro a convite de Augusto P. Celestino da Costa e depois de Xavier Morato.

 

Laboratório de Microscopia Electrónica Calouste Gulbenkian - 1958

Fundou o Laboratório de Microscopia Electrónica Calouste Gulbenkian na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 1958

 

NIH - National Cancer Institute, Bethesda (EUA) - 1962-65

Após ter apresentado a demissão do Laboratório de Microscopia Electrónica do Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, por diferenças de estratégia com o Professor Xavier Morato, José Francisco David-Ferreira concorreu com sucesso a bolsas em 3 Laboratórios nos Estados Unidos, tendo tido respostas positivas de todas. Optou pelo National Institute of Health - National Câncer Institute em Bethesda, Estados Unidos. Permaneceu neste Instituto de 1962 até 1965, primeiro como Guest Worker e posteriormente como Visiting Research Scientist.

 

Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras - 1966-1993

Durante a sua permanência em Portugal, no Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, anterior à sua estadia nos Estados Unidos, David-Ferreira foi convidado pelo colega Fernando Peres Gomes, para fazer parte da equipa constituinte da criação pela Fundação Calouste Gulbenkian do Instituto de Gulbenkian de Ciência, a ser criado em Oeiras, nos terrenos dos Jardins do Palácio do Marquês de Pombal.

Este Instituto, durante a sua criação e construção teve um atraso, tendo sido inaugurado em 1967. David-Ferreira, apesar de convites para permanecer nos Estados Unidos, regressa a Portugal pressionado pelo seu colega Fernando Peres Gomes, que lhe omite o atraso no arranque do novo Instituto. Neste contexto, David-Ferreira no seu regresso fica impossibilitado de continuar os seus trabalhos de investigação durante cerca de 2 anos. Neste período trabalha com uma pequena equipa, num anexo ao Jardim Botânico da Faculdade de Ciências na Rua Politécnica.

 

Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina de Lisboa - 1974-99

Director do Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina de Lisboa, entre 1974 e 1999, ano da sua Jubilação.

 

Instituto de Anatomia  da Faculdade de Medicina de Lisboa - 1996-1999

Mais recentemente, entre 1996 a 1999, coube a direcção do Instituto ao professor José Francisco David-Ferreira, direcção que exerceu em conjunto com a do Instituto de Histologia da Faculdade. Durante a sua direcção procurou desenvolver a integração entre os diferentes domínios da morfologia normal, pois era sua intenção criar na Faculdade um grande Departamento de Ciências Morfológicas.

Neste âmbito, promoveu o regresso à FML de numerosos cientistas portugueses por si iniciados, que se encontravam espalhados pelo estrangeiro, formando um corpo de investigação em Biologia Celular e Molecular, que se tornaria uma referência no País. Por sua orientação iniciou-se também a modernização do Instituto de Anatomia, revitalizou-se a velha biblioteca e fizeram-se novos laboratórios e salas de aula.

O professor David Ferreira foi ainda um dos impulsionadores da actual Reforma Curricular do Curso de Medicina na Faculdade de Medicina de Lisboa, tendo desempenhado um papel muito activo na sua preparação e na sua realização. Inclui-se aí a elaboração do novo programa curricular do curso de Medicina em vigor desde 1996, em que as disciplinas de Anatomia, por sugestão do actual regente, são representadas pela Anatomia Normal, anual, no 1º ano do curso, e a Neuroanatomia, semestral, no 2º ano.

 

GAPIC – Gabinete de Apoio à Investigação Científica, Tecnológica e Inovação - 1989-99

Fundador do GAPIC.

João A. A. Ferreira
, Unidade de Biologia da Cromatina (UBCR) | Instituto de Medicina Molecular (IMM) 
Faculdade de Medicina – Texto de 2010


"A ideia de promover e apoiar a investigação científica realizada por estudantes de pré-graduação, em unidades de investigação da nossa Faculdade, foi o resultado de uma antevisão magistral do Professor David-Ferreira, meu e nosso Mestre, em 1989. Dessa antevisão nasceu o GAPIC – Gabinete de Apoio à Investigação Científica, Tecnológica e Inovação.

O projecto do GAPIC é, ainda hoje, passado mais de duas décadas, considerado inovador, tanto a nível nacional como internacional. Resultou da presciência de que a investigação científica, em particular na sua vertente mais básica, desempenharia um papel crescente nos avanços da medicina moderna e de que os médicos deveriam ter não só uma formação profissional, mas também uma formação científica cada vez mais exigente, sob risco de verem a sua profissão rapidamente transformada num ofício. 

A relação entre o avanço científico e as suas consequências na medicina praticada é de análise difícil.

Há, contudo, consenso sobre a existência de um grande hiato entre a quantidade e sofisticação do conhecimento básico já existente nas áreas biológicas e biomédicas e a sua tradução em benefícios reais para os doentes. De uma forma simples, pode dizer-se que a maior parte do conhecimento fundamental mais fascinante é, ainda, clinicamente inútil. Muita da reflexão sobre o assunto foi, e é, promovida pelos National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos.

No âmbito dessa reflexão, várias directivas foram seguidas, ao longo do tempo, tendentes a encurtar aquele hiato. Foram promovidas alterações de foco de investimento, p. ex. do cancro para a diabetes, ou de tipo de investigação, i.e. mais básica/fundamental ou mais aplicada. Os resultados mantiveram-se aquém do esperado, sempre. A identificação do factor que é, actualmente, considerado como o mais relevante foi, assim, tardia; esse factor - o declínio do médico-cientista.

Seria interessante meditarmos porque foi durante tanto tempo um factor que é intrinsecamente humano, uma figura – o médico-cientista - confundido com outros factores de natureza, essencialmente, contingente ou circunstancial (p.ex. financiamentos, tipo e foco de investigação)! Dada a natureza humana do factor principal também não surpreende, pois, que o mais importante factor contingente identificado seja o factor tempo, ou melhor, a falta deste. 

Uma análise sensível da história identificou a figura do médico-cientista como o grande promotor dos verdadeiros avanços da prática médica nas décadas passadas, com excepção da última.

Nessas décadas a boa investigação, puramente clínica, consolidava o conhecimento médico e delineava-lhe alcances e limites, e depurava-o do detalhe inútil. Este tipo de investigação persiste, e bem, e cada vez com mais profissionalismo. Como as boas tradições, vem de longe, está para durar e melhora com a idade. É essencial a uma boa prática médica, é imprescindível, necessária; mas é insuficiente.

Também nessas décadas, a boa investigação básica/fundamental desvendava então universos novos, insuspeitos, maravilhava-nos, provocava encantamentos e suscitava esperanças; e durante muito tempo não nos defraudou, a nós médicos. Havia para os novos sinais, que surgiam o tempo todo das ciências novas, e das antigas rejuvenescidas, um intérprete, que era médico e que praticava ciência que era fundamental ou muito próxima desta e que era cientificamente tão culto como os seus pares com outras formações académicas.

Mas, também possuía profundidade de campo, percebia bem o alcance médico que muitas das novas descobertas encerravam. E trazia-as para o domínio clínico, conhecia bem as questões pertinentes na área, pois ou era também médico praticante ou frequentava os circuitos clínicos. Falava com os seus pares de igual para igual, sem preconceito ou subserviência; entendia e fazia-se entender.

O médico-cientista ganhou reconhecimento público, conquistou prémios Nobel, encheu de orgulho as escolas médicas e, sobretudo, beneficiou muito os que sofriam. Hoje, porém, persiste de forma residual, como exemplar frequentemente meritório mas solitário.

O médico-cientista entrou em declínio, e por essa razão reduziu-se a capacidade de trazer para a clínica o que de melhor se descobria nas ciências mais básicas e também a capacidade de levar para o laboratório as melhores perguntas levantadas durante a actividade clínica. O médico-cientista quase se extinguiu, quase só porque não tinha tempo para praticar duas actividades que se tornaram, ambas, excessivamente competitivas, profissionalizadas e absorventes.

Foi vítima da maior insuficiência humana – a de podermos fabricar quase tudo, excepto tempo. 

Desde há mais de uma década que se tem vindo a promover uma mudança de estratégia, de modo a que os enormes sucessos e recursos experimentais da ciência fundamental moderna se traduzam, mais rapidamente e em maior escala, em benefícios directos para os doentes.

Neste âmbito, privilegia-se o enfoque mais directo da investigação experimental/laboratorial em problemas de grande relevância clínica, tomando como ponto de partida questões surgidas da prática clínica e, sempre que possível, também material clínico obtido directamente de pacientes. Este é um dos pilares fundamentais, mas não o único, da moderna medicina de translação.

Mas, se não se meditasse profundamente sobre as características do agente humano, i.e, qual a figura central capaz de conduzir esta estratégia com sucesso, cair-se-ia num erro já antigo. Felizmente, essa análise já foi iniciada. Emergiu, assim, a figura do médico cientificamente educado. Este médico acumulará com uma formação clínica de excelência uma formação científica, também esta de excelência. Desejavelmente, terá praticado investigação mais fundamental, mas durante um período restrito da sua formação científica, p.ex durante o trabalho doutoral. A sua formação científica será moderna e sólida do ponto de vista teórico. Será abrangente. Necessariamente mais abrangente que a do médico-cientista. Terá de ser adquirida de uma forma rápida, mas coerente e muito exigente. Permitir-lhe-á conhecer o meio científico local e internacional. Dar-lhe-á a capacidade de identificar competências e de dialogar com elas, sem subserviência oculta.

O novo médico será capaz de identificar questões relevantes na sua prática clínica, pois também saberá quais são as abordáveis experimentalmente. Este será ainda capaz de participar em equipas multidisciplinares, ou de as dirigir, será um elemento-chave, pois como clínico cientificamente informado será um grande integrador. Além disso, estará apto a interagir com a indústria, nomeadamente a farmacêutica, e a empresa, mais atento às necessidades da sociedade e da economia.

Fará da interrogação científica um elemento do seu quotidiano, enquanto clínico praticante. Pois, após o período formativo em ciência a sua actividade predominante, ou exclusiva, será a clínica. Não ficará absorvido pelo laboratório como o médico-cientista; essa será a tarefa daqueles com quem colabora ou que dirige. Assim, ao contrário do médico-cientista, não será vítima do factor tempo. Será mais útil aos seus doentes e dominará o factor tempo. 



A ideia de participar na formação científica de médicos atraiu-me desde logo. Essa formação científica ultrapassa, obviamente, as actividades de ensino-aprendizagem inerentes à pré-graduação. Acho, pessoalmente, que no contexto actual a figura do médico cientificamente educado é a mais adequada a estabelecer a continuidade entre a investigação de ponta, verdadeiramente inovadora, e a clínica. Entre nós surgiram recentemente iniciativas privadas, pioneiras e de grande mérito, no sentido de adequar a formação científica avançada de médicos à nova realidade. Destaco a iniciativa das Fundações Calouste Gulbenkian e Champalimaud, com apoio ministerial.

Para que iniciativas deste tipo tenham continuidade, de modo a gerar entre nós, em tempo útil, a massa crítica de médicos motivados para a actividade científica, será importante que o contacto com aquela se inicie durante o período da pré-graduação médica. De preferência pela prática da ciência em unidades de excelência, independentemente do seu pendor mais clínico ou mais básico/fundamental, pois o tipo de pesquisa médica que vai praticar será um contínuo entre aqueles dois estéreotipos.

De facto, deverá haver apenas um tipo de investigação, a de excelência. É desígnio do GAPIC a promoção desta investigação entre os estudantes de medicina. Contribuirá certamente para a formação do novo médico, que voltará a ter protagonismo no avanço das ciências médicas. O ambiente na nossa Faculdade é, agora, particularmente propício; é mesmo de um optimismo contagiante! São sinal disso a formação do Instituto de Medicina Molecular (IMM), o crescente envolvimento de clínicos do Hospital de Santa Maria (HSM) em projectos conjuntos com a FMUL-IMM, e a recente criação do Centro Académico de Medicina. 



Do exposto, a actual equipa do GAPIC tomará como linhas de acção: 



1) Manter a promoção da actividade científica praticada por estudantes em unidades de excelência, de modo a estimular, sem reducionismos, a percepção da influência da cultura científica na cultura médica; 



2) Integrar, sempre que possível e desejável, as acções promovidas pelo GAPIC com acções promovidas pelos próprios estudantes; 



3) Promover o contacto dos estudantes com forças vivas da nossa sociedade, provenientes de outras áreas do conhecimento e empresariais, de modo a que se sensibilizem para o contexto da sua acção futura. 



Posso garantir que actual equipa do GAPIC, integrada pelos Professores Ana Espada de Sousa, João Forjaz de Lacerda e João Eurico da Fonseca, para além de mim próprio, assessorada por Mestre Sónia Barroso, está particularmente empenhada no cumprimento destes objectivos. 

Não posso deixar de agradecer aos coordenadores do GAPIC que me precederam e com quem contactei mais de perto, nomeadamente, os Professores David Ferreira, Leonor Parreira e Ana Sebastião, o quanto lhes devo pelo seu legado cultural."