Visões de Política Científica

A Política Científica em Portugal

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"De facto, presos nas malhas de uma tradição cultural por natureza anti-científica, isolados pela distância e pela ignorância, dominados pela superstição e dogma, governados pela intolerância, os povos peninsulares haviam perdido o seu lugar no caminho do progresso.

A Ciência não floresce onde reina o dogma e a superstição e ainda hoje são nítidas na nossa sociedade os medos e tabus de traumatismos antigos.

A Ciência não é popular. Não é actividade de salão, não se presta ao estilo ameno. Exige rigor e supervisão. Não acompanha nem o amadorismo nem o improviso. Exige profissionalismo, não é uma actividade para ocupar tempos livres ou actividades psicomotoras e caritativas de meia idade.

É avessa ao sensacionalismo, pode estimular a vaidade, mas não se alimenta nela. E numa sociedade em que são mais apreciadas as cigarras que as formigas, não é apreciada."

José Francisco David-Ferreira

[José Francisco David-Ferreira, Augusto P. Celestino da Costa (1884-1956). Uma Época, Uma Vida, Uma Obra, Discurso proferido na Conferência Anual ‘A lição dos Mestres’, na Faculdade de Medecina da Universidade de Lisboa, em 5 de Janeiro de 2012].


"A investigação já não é uma aventura solitária, há cada vez menos solistas e mais maestros, menos artistas e mais figurantes, mais gestores e menos investigadores."

 José Francisco David-Ferreira


"Acontece sempre que no nosso País a ciência não tem uma tradição, não há tradição cultural da ciência; de forma que tudo quanto diga respeito a ciência, que não seja aplicada, tem grandes dificuldades."

  José Francisco David-Ferreira

[Programa Panorama, RTP, 1985]


"Apesar da manifesta descoordenação de algumas dessas acções e falta de continuidade de alguns programas promissores, o sistema científico nacional tem beneficiado nos últimos anos, sobretudo graças aos fundos estruturais europeus, de consideráveis investimentos. Começa a ser tempo de se avaliarem os resultados de algumas das acções empreendidas, oportuno alertar para algumas tendências perversas e tomar iniciativas que viabilizem os investimentos feitos."

 José Francisco David-Ferreira

[José Francisco David-Ferreira, “Bolseiros até quando?”, Revista Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa, V série, vol. 1, n.º 2, Out./ Nov. /Dez., 1994, pp. 3-4.]


"Os bolseiros representam hoje nas instituições em que trabalham 50 a 75% da mão-de-obra activa e a justificação de uma parcela importante dos financiamentos recebidos. Mas esses benefícios, legítimos para as instituições de acolhimento, podem ter efeitos perversos para as instituições e para os bolseiros. Ocultam carências reais em técnicos especializados e em pessoal científico permanente, fomentam a admissão de candidatos não devidamente seleccionados, prolongam indevida e desnecessariamente os períodos de formação.

Ser candidato a uma bolsa não pode ser um expediente para obter uma remuneração temporária assim como a sua admissão na instituição de acolhimento não pode ser um meio de adquirir mão-de-obra barata e financiamentos extras.

Se o objectivo da política de bolsas que está a ser seguido é promover o crescimento da comunidade cientifica e tecnológica o esforço na formação dos actuais bolseiros tem que ser acompanhado pelo descongelamento dos quadros e criação de mais emprego científico.

A situação de bolseiro de investigação é uma situação temporária com muitas obrigações e poucos direitos. O esforço exigido aos candidatos a uma formação científica avançada é grande. Os financiamentos necessários para promoverem a sua qualificação profissional também não são pequenos. Tanto investimento e esforço só se podem justificar socialmente se uma percentagem importante dos bolseiros vierem a ter oportunidade de desempenhar as funções para que estão a ser treinados."

José Francisco David-Ferreira

 

[José Francisco David-Ferreira, “Bolseiros até quando?”, Revista de Medicina da Faculdade de Medicina de Lisboa, V série, vol. 1, n.º 2, Out./ Nov. /Dez., 1994, pp. 3-4.]


«Para aqueles que não acreditam que os pequenos países tenham capacidade para desenvolver projectos e programas no campo da Ciência, recordo o que dizia há poucos anos o Prof. Sharon do Weizmann Institute: “O segredo do sucesso da Ciência em Israel é que temos consciência de que somos um país pequeno e pobre e que a maior riqueza que possuímos é a da inteligência dos nossos habitantes.”»

José Francisco David-Ferreira

[José Francisco David-Ferreira, “A contribuição da Fundação Calouste Gulbenkian para o desenvolvimento da investigação biomédica em Portugal”, Jornal da Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa, 60 (8), 1986, p. 400.]


"É aparente uma visão limitada e mercantilista da Ciência. Serão talvez sinais dos tempos em que tudo o que se faz é para dar lucro e em que se proclama, a propósito e a despropósito, a filosofia triunfalista do mercado e do privado como panaceia para resolver atrasos económicos, sociais e culturais. É uma verdadeira cruzada ‘mercantilista’ a que só falta proclamar como objectivo último a privatização do próprio Estado como forma mágica e expedita de resolver todas as carências e insuficiências públicas. Sobretudo não deixa de ser surpreendente o entusiasmo militante de alguns universitários, do mais elevado escalão, para acções empresariais no domínio da tecnologia em contraste flagrante com a sua inoperância científica e académica. A esse propósito bem se poderia escrever uma novela inspirada no ‘Banqueiro Anarquista’ de Fernando Pessoa. O título adequado seria o ‘Banqueiro Cientista’ e nos seus diálogos o nosso personagem-tipo explicaria de fonna logicamente irrefutável que não há nenhuma contradição pois ao fim e ao cabo a Ciência foi feita mesmo para dar lucro e é aí que está o seu valor civilizacional.

Há sem dúvida uma lamentável confusão entre o que é Ciência e o que é Tecnologia. As suas relações últimas são bem conhecidas e necessárias, mas o uso indiscriminado da expressão ‘Ciencia e Tecnologia’ está a gerar graves ambiguidades programáticas que podem prejudicar o desenvolvimento científico e o desenvolvimento tecnológico. Confude-se o prático com o académico, o formativo com o produtivo, o comercial com o cultural. Não há de facto nenhuma incorreção em desejar introduzir, fomentar e desenvolver novas tecnologias no País. O progresso tecnológico é não só possivel como desejável. Mas pretender programar o desenvolvimento da Ciência da mesma forma é ter uma ideia bastante limitada do que é Ciência e como é que o seu desenvolvimento se processou nos países mais avançados que há muito têm Ciência e Tecnologia."

José Francisco David-Ferreira

 [José Francisco David-Ferreira, “Quem ataca uma moda dominante fica de fora...”, Revista de Medicina, IV série, vol. 1, n.º 6, Out./ Nov. /Dez. e Jan. / Fev. / Mar., 1990 e 1991, pp. 1-2.]