Tiago Brandão - Um Testemunho...

Um testemunho...

Conheci José Francisco David-Ferreira era eu já um jovem investigador do Instituto de História Contemporânea, a terminar a minha dissertação de Mestrado (2008) e a pensar abraçar uma tese de Doutoramento, sobre a política científica em Portugal, em particular sobre a Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (agência de política científica criada nos idos de 1967). Foi, aliás, por causa de contactos que fiz para encontrar espólios de individualidades que me interessavam, para a minha 'empreitada', que acabei por conhecer o Prof. David-Ferreira, por intermédio da Luísa Irene Dias Amado.


Surpreendeu-me logo a sua disponibilidade, com que rapidamente nos encontrámos na Fundação Calouste Gulbenkian. Foi um daqueles encontros simpáticos, uma daquelas surpresas que a vida de investigação por vezes reserva. Logo descobrimos vários interesses comuns, que iam muito para além da mera agilização de contactos. Surpreendeu-me a afabilidade de carácter, sempre atento e interessado e uma enorme inclinação para o diálogo inter-geracional, sem formalismo excessivo, importando-lhe sobretudo que a conversa fluísse, chegando ao outro sem rodeios, sempre mostrando o seu lado humano.


Muito se interessou pelos meus projectos e ideias de investigação. Houve logo um fascínio mútuo pelo facto de ambos conhecermos várias personalidades da história da política científica portuguesa, eu indirectamente e ele, uma boa parte das vezes, tendo tido um contacto directo ou indirecto, mais ou menos pessoal, com muitas individualidades que marcaram a administração pública da ciência portuguesa. Havia sempre uma história, um episódio, em que eu por vezes conseguia acrescentar algo por via daquilo que a documentação me oferecia. Muitos episódios confirmei, outros revelaram-se-me assim, pontas soltas que logo procurei confirmar. Na altura que conheci David-Ferreira, aliás, já estivera eu de facto de volta do Arquivo do Instituto Camões, num projecto sobre a história da Junta de Educação Nacional e dos respectivos sucessores institucionais (Instituto de Alta Cultura, etc.). As conversas sobre Celestino da Costa, Simões Raposo, Francisco Gentil, Marck Athias rapidamente se tornaram tópico privilegiado de conversa. Era evidente a admiração dele pelo ofício dos historiadores.


Várias foram então as pequenas achegas e as importantes orientações, que me foi dando, a cada conversa. Mas, sobretudo, ficou a amizade que se foi sedimentando em sucessivos encontros, normalmente ao almoço – que duravam tranquilamente três horas ou mais –, já quase como um ritual, que fomos tendo ao longo de vários anos. Antes de, nos últimos tempos, se refugiar na missão de terminar os seus projectos – em particular a biografia de Celestino da Costa –, creio que nos primeiros anos nos encontrávamos pelo menos umas duas vezes por ano, sem contar alguns telefonemas mais prolongados, em ocasiões especiais em que o fazíamos como forma de saber um pouco dos respectivos projectos.


Recordo-me um dos primeiros encontros na Sociedade Hípica Portuguesa, onde almoçámos por lá conversando longamente, como era frequente, sobre a geração médica de 1910, e em particular sobre Augusto Celestino da Costa, uma admiração comum, embora por trilhos diferentes, ele o discípulo e eu o pesquisador, que tomou contacto com o 'Mestre Celestino' por via dos textos e da correspondência da altura da Junta de Educação Nacional (1929-1936). Nesse encontro, recordo-me bem que era um dia chuvoso, caminhamos a seguir ao almoço, pelo complexo do Jockey de Alvalade, rindo e imaginando uma conversa que Celestino da Costa teve com Oliveira Salazar, no contexto da interrupção das bolsas da Junta de Educação Nacional, em 1934, pelo ministro da Educação Nacional Manuel Rodrigues Júnior (1889-1946).


David-Ferreira era um homem de uma generosidade incrível, sempre partilhando referências novas, intuições e o seu conhecimento acumulado de uma vida dedicada à Ciência e ao Ensino Superior. Senti logo que era para mim um privilégio beneficiar do acesso à inestimável experiência de um homem que conviveu com personalidades e viveu períodos históricos que me interessavam. Aliás, devo dizê-lo que nas conversas com David-Ferreira sempre me senti de igual para igual, e ainda hoje tenho a convicção de que aqueles encontros aconteciam, antes de mais, por causa da empatia mútua que logo se estabeleceu.


Não só o interesse dele nas minhas pesquisas era genuíno, sempre procurando absorver mais do processo de investigação e reflexão dos historiadores, como dando por diversas vezes incentivos e conselhos que ainda hoje me orientam. Recordo-me de um conselho e de um aforismo em particular, que me impressionaram e ainda marcam a minha prática científica. Quando por diversas vezes conversávamos sobre a dinâmica do trabalho intelectual e científico, sobre metodologias de investigação, sobre o papel da criatividade e do método na prática científica, David-Ferreira me relembrava sempre o essencial. Uma das vezes, inclusive, dera-me o conselho precioso, com duplo sentido, vigilante das angustias de investigação bem como do bom ritmo de qualquer projecto: o senso de avançar um pouco todos os dias, nem que fosse apenas uma hora de concentração plena, dando-se por satisfeito se, frustração após frustração, numa jornada de trabalho conseguisse uma boa ideia, uma boa resolução, cumprir uma tarefa que seja. A isto acrescentava um aforismo que lhe inspirara o mestre Celestino da Costa: «Point n'est besoin d'espérer pour entreprendre ni de réussir pour persévérer» (Guilherme, o Taciturno); ou segundo A. Celestino da Costa, «Um homem não precisa de esperança para empreender nem de êxito para prosseguir». Mais do que uma vez divagamos sobre o significado da máxima...


Um local habitual de conversa era a Marina de Oeiras, sobretudo quando Lisboa nos proporcionava dias solarengos, onde nos sentávamos na esplanada. Habitualmente eu trazia umas notas, com questões acumuladas nas últimas semanas de investigação e leiturasm e ele trazia os seus conhecidos caderninhos rabiscados com uma letra invejável, normalmente numa caneta azul de ponta grossa. Um dia trouxe-me, a propósito de uma conversa que já tivéramos, um livro difícil de encontrar em Portugal, de Charles Percy Snow – Science and Government, que me recomendara como leitura complementar ao clássico The Two Cultures! Várias vezes trocámos não só referências mas também material, livros, fotocópias e até documentação. Caso por exemplo, de umas pastas com correspondência de Celestino da Costa, da altura que esteve na Junta de Educação Nacional, e que assim, devido à dedicação e sensibilidade de David-Ferreira à cultura histórica, tive oportunidade não só de trabalhar como, mais importante até, tomar medidas para que a documentação fosse devidamente preservada.


Foi aliás num encontro com David-Ferreira no seu gabinete na Faculdade de Medicina de Lisboa (FML), em Santa Maria, que tive oportunidade de observar a admiração que funcionários e colegas demonstravam. Foi com devoção que me mostrou a biblioteca do Instituto de Anatomia Henrique Vilhena, bem como a biblioteca central da FML, seus funcionários e um ou outro colega que por ali passavam e logo lhe cumprimentavam. A mesma visita fizemos à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, na Avenida da República, e a mesma dedicação daqueles que lhe conheciam.


David-Ferreira, dentre as inúmeras conversas que tive já ao longo do meu trajecto de historiador e investigador, posso dizê-lo sem exagero, foi das individualidades que mais me marcou, antes de mais pela sua dimensão humana, pela sua capacidade de se interessar pelos mais variados temas e pela sua simplicidade e sensibilidade. Além de possuir uma cultura histórica assinalável, era um homem voluntarista, entusiasmando-se com os mais variados projectos e sempre procurando alargar as suas leituras e conhecimentos, muito para além dos domínios específicos de sua formação científica profissional. Durante anos mantivemos mesmo um contacto regular, nem que fosse por via telefónica, para acompanharmos o último projecto que nos ia nutrindo intelectualmente, desde a história da universidade às suas reflexões sobre a cultura judaica, passando pelo seu projecto de longo curso, a biografia sobre Augusto P. Celestino da Costa.

Tiago Brandão,
Setembro de 2014