João Antunes - Cerimónia de Jubilação

Tempo Medicina
Dr. João Antunes
Fax, Texto a publicar, 09/07/99

 
A paixão da Microscopia electrónica

«A sua carreira foi uma surpreendente consequência de passos certos, não faltou um compasso e não tropeçou em nenhum degrau. Enfim, o senhor saiu, entrou, saiu, entrou com uma extraordinária visão de oportunidade e um diagnóstico infalível que contou com o melhor uso a dar a essa oportunidade. É o final de uma carreira com a tranquilidade plena de quem cumpriu um dever e nunca agitando a sorte que afinal merecia», disse o Prof. Lobo Antunes, presidente do Conselho Científico da Faculdade de Medicina de Lisboa (FML), na cerimónia de homenagem ao Prof. David-Ferreira, que teve lugar no dia 1 deste mês, na Aula Magna da FML.

Com um longo percurso, o Prof. David-Ferreira iniciou a sua caminhada na Escola Politécnica e, como ele próprio diz, «era jovem, romântico, laico e republicano». Como projecto de vida ambicionava «ser útil, servir o meu pais e, se possível, a humanidade que sofre», confessou, afirmando, por outro lado, que estas aspirações eram alimentadas «pelos valores transmitidos por familiares e por leituras próprias da idade e da época».

As tertúlias de café, as leituras clandestinas, as pequenas conspirações e a revolta «latente» de uma geração também contribuíram para traçar o caminho do Prof. David-Ferreira, que concluiu a licenciatura em Medicina na Faculdade de Mediana de Lisboa aos 23 anos de idade. Foi, refira-se, nos primeiros anos da Faculdade que começou a interessar-se pela análise microscópica de células e tecidos.

Aliás, lembrou o Prof. David-Ferreira, as primeiras lições de microscopia e Histologia recebeu-as «quase clandestinamente» no laboratório do Prof. Dias Amado. A partir daqui, começou a sentir o prazer de ensinar através dos exercícios de exposição a que «o mestre nos submetia».

«A escolha estava feita»

Foi esta experiência e a amizade que estabeleceu com o «colega e amigo», o Prof. Luís Dias Amado, que lhe abriram as portas do Instituto de Histologia. Aí aprendeu o Prof. David-Ferreira os «artifícios e os artefactos da técnica» e reviu ao microscópico o que os livros lhe ensinavam.

No final do curso, recordou, «partilhei as tarefas da enfermaria do Hospital de Santa Marta com a aprendizagem das técnicas laboratoriais. Mas a escolha estava feita. A decisão íntima» saiu reforçada e começou a concretizar-se «quando, um dia, ao fim da tarde, o Prof. Celestino da Costa, um dos professores que mais admirava, me fez um convite simples e directo: precisamos de sangue novo no instituto».

No entender do Prof. David-Ferreira, era «a oportunidade sonhada, aliás, na época, pouco cobiçada pelos colegas que se preparavam e reservavam para uma carreira, sem dúvida, mais proveitosa e, eventualmente, mais útil, de clínicos e cirurgiões».

A escolha feita não foi bem aceite pelos familiares; foi interpretada mais como uma «originalidade de idade juvenil do que como um propósito de vida».

Assim, o Prof. David-Ferreira foi trabalhar com o Prof. Celestino da Costa, na altura Director do Instituto de Histologia e Embriologia da FML e desse convívio nasceu o fascínio pela investigação Histológica e a preocupação com a formação científica das novas gerações.

Em 1955, o Prof. David-Ferreira partiu para Paris, com uma bolsa do Governo francês, para trabalhar no Institut de Recherches sur te Câncer, onde, sob a orientação do Dr. W. Bernhard, iniciou os seus primeiros trabalhos de investigação na área da microscopia electrónica.

Dois anos depois, regressou à Faculdade de Medicina de Lisboa. Nessa altura, criou o primeiro laboratório português onde o microscópico electrónico era utilizado para o estudo de células e tecidos.

Ao introduzir, em Portugal, o microscópico electrónico, o Prof. David-Ferreira «garantiu a tradição da modernidade que o instituto que herdara do Prof. Celestino da Costa sempre tinha preservado», disse o Prof. Lobo Antunes. na cerimónia de homenagem.

O ensino

O Prof. David-Ferreira obteve, em 1960, o doutoramento em Medicina e, de seguida, partiu para os Estados Unidos da América como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, o que lhe permitiu trabalhar no National Câncer Institute.

Ainda na década de 60 (1963-65), foi visiting research scientist do National Institute of Health. Por esta altura, já era autor de mais de 25 artigos científicos, um especialista internacionalmente reconhecido em ultra-estrutura de células infectadas por vírus e de plaquetas sanguíneas.

Foi no domínio da microscopia electrónica que o Prof. David-Ferreira fez a sua preparação pós-graduada e veio a desenvolver a actividade profissional no ensino e na investigação.

Em 1965, colaborou na organização e montagem do Centro de Biologia da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi director deste centro entre 1966 e 1974, e ocupou o mesmo cargo no Laboratório de Biologia Celular do mesmo centro até 1993.

Este período ficou marcado, a par das contribuições cientificas publicadas em revistas internacionais, por um enorme investimento na formação de jovens que viriam a ocupar posições de destaque em universidades portuguesas, brasileiras e espanholas. De referir que mais de 60 bolseiros e estagiários, nacionais e estrangeiros, beneficiaram do ensino tutorial que se praticava no laboratório do Prof. David-Ferreira.

No ano da revolução dos cravos, o homenageado foi convidado a integrar a FML, onde reorganizou o ensino teórico e prático da disciplina de Biologia Médica, que passou a ter a designação de Biologia Celular. Dois anos depois, recebeu convite para coordenar o ensino de Histologia e Embriologia.

Em 1979 foi nomeado professor catedrático. A sua presença na FML traduziu-se num enorme impulso dinamizador da investigação científica na área da Biologia Celular e Molecular, que culminou com a criação do Centro de Biologia e Patologia Molecular, que começou a dirigir em 1993.

«Autor de alguns sucessos que tivemos»

Há ainda que destacar a sua participação na Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Conselho Nacional de Educação, Conselho Científico do Instituto Nacional de Investigação Científica, FEPASC, Fundação da Universidade de Lisboa e Centro Português das Fundações.

No ano passado, foi nomeado vice-reitor da Universidade de Lisboa, o que significa, na opinião do Prof. Lobo Antunes, que «a sua felicidade como professor assumiu um novo sorriso».

Como prova da sua dedicação ao ensino e à divulgação da cultura cientifica, o Prof. David-Ferreira recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Este ano, foi novamente homenageado tendo recebido das mãos do Ministro da Educação, Prof. Marçal Grilo, o Grande Oficialato da Ordem da Instrução Pública.

O Prof. David-Ferreira reconheceu ter orgulho por ter sido um «mensageiro fiel de valores que me foram transmitidos pelos meus mestres», em ter sido «cúmplice de colegas a quem me associei no propósito de renovar e modernizar as instituições que servi» e, ainda, em ter sido «co-autor de alguns dos sucessos que tivemos».

Na cerimónia, o reitor da Universidade de Lisboa, Prof. Barata Moura, afirmou que esta iniciativa é o reconhecimento pela universidade de um «daqueles que contribuíram para a sua identidade, construção o projecção». Lembrou que as universidades, «no seu bem e no seu mal», são «fruto e resultado do trabalho de todos aqueles que nelas vivem e, desejavelmente, mais convivem».

O Prof. David-Ferreira é um «emergente construtor» e, por isso, enquanto instituição, temos de «lhe estar gratos», garantiu o Prof. Barata Moura.

Helena Nogueira
Legenda: «Sinto-me orgulhoso por ter sido um mensageiro fiel de valores que me foram transmitidos pelos meus mestres», disse o Prof. David-Ferreira

Esta homenagem é o reconhecimento pela universidade de um «daqueles que contribuíram para a sua identidade, construção e projecção», afirmou o Prof. Barata Moura

O Prof. David-Ferreira: Como projecto de vida ambicionava «ser útil, servir o meu país e, se possível, a Humanidade que sofre»

«A sua carreira foi uma surpreendente consequência de passos certos, não faltou um compasso e não tropeçou em nenhum degrau», sublinhou o Prof. Lobo Antunes