Ciência Hoje - Maria do Carmo Fonseca

Homenagem ao Prof. Doutor José Francisco David-Ferreira
Prof. Doutora Maria do Carmo Fonseca
Ciência Hoje 09/02/2012


Hoje, os jovens portugueses sabem que ser cientista é uma profissão tal como ser pintor, informático, jornalista ou controlador de trafego aéreo. Mas nem sempre foi assim. Hoje, a sociedade portuguesa orgulha-se dos seus jovens cientistas que recebem prémios internacionais. Mas o sucesso da ciência portuguesa no presente tem um passado que importa não ignorar.

Mentes brilhantes apaixonadas por desbravar a fronteira do desconhecido sempre existiram em Portugal. No entanto, o rumo seguido pelo nosso país na segunda metade do século XX foi escavando um fosso de isolamento que empurrou irreversivelmente muitos dos nossos melhores potenciais cientistas para o estrangeiro. Felizmente, nem todos. Um punhado de homens e mulheres dedicou a sua vida a manter acesa a chama da investigação científica em Portugal.

Foi a partir desse núcleo duro de resistentes que tomaram forma os actuais institutos de investigação, e foram os discípulos desses homens e mulheres os professores que atraíram para a investigação a geração presente de cientistas portugueses.

No dia de hoje, a ciência portuguesa está de luto. Perdemos um desses heróis silenciosos, tão pouco reconhecidos pela sociedade. Perdemos o professor David-Ferreira. Pessoalmente, eu perdi a pessoa que, logo a seguir aos meus pais, mais impacto teve em toda a minha vida. Foi pela mão do professor David-Ferreira que eu descobri o mundo da ciência.

Gosto de recordar o ano de 1977, quando eu ingressei na Universidade. Sentada na primeira fila de um anfiteatro inóspito e degradado, consumia avidamente as aulas de Biologia Celular dadas pelo professor David-Ferreira ao cair da tarde. Ele contava histórias de descobertas feitas por pessoas que passávamos a conhecer pelo nome. E eu sonhava, como será a sensação de fazer uma descoberta?

Terminados os exames, o Professor convidou-me a estagiar no seu laboratório de investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência. Até hoje, nunca mais abandonei o laboratório. Eu era uma jovem um pouco rebelde e o Professor nunca me disse o que eu devia ou não devia fazer. Mas observava-me constantemente e mostrava-me caminhos deixando-me pensar, fazer escolhas, experimentar diferentes opções.

Foi sem dúvida com o professor David-Ferreira que eu aprendi o valor da liberdade e do respeito na vida profissional. David-Ferreira ousou quebrar a tradição vigente de que o Mestre nunca pode ser posto em causa pelo discípulo. E aos jovens cientistas do presente, convido-vos a navegar no percurso de David-Ferreira e traçar paralelismos com a vossa própria carreira.

Destaco a decisão do então orientador de Doutoramento do jovem estudante David-Ferreira de o enviar para o laboratório de microscopia electrónica do Instituto do Cancro Gustave-Roussy, em Villejuif, considerado o melhor na Europa; a procura de uma Bolsa para financiar a viagem e estadia em França; a luta para angariar fundos para comprar o primeiro microscópio electrónico instalado em Portugal; a coragem de abandonar uma carreira segura na Faculdade de Medicina de Lisboa para concretizar o sonho de desenvolver os seus próprios projetos científicos; a aventura de ir trabalhar para um laboratório nos Estados Unidos levando a sua jovem família; e a motivação com que regressou a Portugal na década de 1960, determinado a ter o seu próprio grupo de investigação e orientar as novas gerações de cientistas.

* Directora do Instituto de Medicina Molecular da Universidde de Lisboa, vencedora do Prémio Pessoa em 2010. Prémio Seed of Science «Personalidade» 2011.

ND - David-Ferreira foi um dos directores do Instituto Gulbenkian de Ciência e também introdutor das técnicas de microscopia electrónica em Portugal

 

Comentários ao Artigo

Isaura Tavares
2012-02-09
12:53
Foi com tristeza que tomei conhecimento desta partida. Mas quem parte pode permanecer connosco pelos exemplos que deu em vida. Além das muitas facetas destacadas pela Professora Carmo Fonseca acima, destaco uma imensa e contagiosa simpatia com os mais novos que nos fazia sentir verdadeiramente bem. Foi assim que o Professor David Ferreira me fez na minha primeira comunicação na então Sociedade Portuguesa de Microscopia Electrónica. E não esqueço o seu sorriso caloroso enquanto defendia o meu Doutoramento aqui na Faculdade de Medicina do Porto. Já passaram muitos anos. As memórias perduram. Tal como acontecerá com a recordação do Professor David Ferreira.

Mário Sousa
2012-02-09
14:10
Lembro-me bem do Prof. David Ferreira, do seu nível de exigência, do seu elevado mérito e excelência, e do seu pioneirismo.
Obrigado Professor.
Sei que a sua alma fica em paz.

F. Guerra Rodrigo
2012-02-09
14:32
Recordo com profunda emoção o Prof. David-Ferreira de quem fui discípulo e sobretudo Amigo.

Claudina Rodrigues-Pousada (Estagiária IGC Farmacologia)
2012-02-09
14:46
É com muito afecto que recordo o Professor David-Ferreira. Quando entrei no centro de Biologia em 1968, que na década de 80 foi designado por Instituto Gulbenkian de Ciência conheci o Doutor David-Ferreira e o interesse que demonstrava pela ciência. Mais tarde quando vim de Paris do "Institut de Biologie Physico-Chimique" a Oeiras pedi-lhe que me fizesse umas fotografias de microscopia electrónica do ciliado Tetrahymena com que na altura trabalhava para que eu pudesse ilustrar na minha tese a estrutura intracelular daquele modelo biológico. Acedeu gentilmente e ajudou-me a interpretar as fotografias. Quando fiz as provas de agregação fui muitas vezes ao seu laboratório consultar os magníficos livros que tinha na sua biblioteca sobre o nascimento da Biologia Molecular. Só ele possuía aqueles livros que tão importantes foram para mim na preparação do meu relatório pedagógico e na Introdução que fiz sobre a Biologia Molecular. Sempre conversei bem com o Doutor David-Ferreira e partilho com a Professora Maria Carmo Fonseca algumas das ideias que expressa nesta homenagem. Foi de facto um trabalho árduo ter aberto os caminhos da ciência em Portugal. As novas gerações e a minha própria geração deve-lhe estar muito grato. Eu estou.

João Lavinha
2012-02-09
14:57
No dia em que se interrompe a possibilidade física de um encontro, evoco o meu entusiasmo em ir assistir aos seminários de biologia para jovens organizados por David-Ferreira no IGC, aos sábados de manhã, na década de 1960. Radico nesse estimulante convívio com a ciência tal qual se faz a minha necessidade de conhecer melhor as "coisas vivas" que, nestes quase 50 anos, tem motivado a minha vida, como tantas vezes lhe referi. Obrigado, David!

Elsa
2012-02-09
15:14
Do outro lado, como fornecedora de há muitos e muitos anos, desejo pessoalmente expressar o meu pesar por esta perda para a Ciência e para o País.
Relembro bem as minhas visitas à Sra. Professora Carmo Fonseca e o sorriso sempre amável e atencioso do Sr. Professor, o que, para mim, era o máximo, dentro do Instituto de Histologia e Embriologia da FML.
Que esteja em paz.

J. Martins e Silva (Prof. Faculdade de Medicina)
2012-02-09
19:19
Partiu um pioneiro da ciência médica Portuguesa, precursor da microscopia electrónica no Instituto Gulbenkian de Ciência e da medicina molecular na Faculdade de Medicina da Universidade Lisboa. Pela sua simpatia, inteligência e superior capacidade lectiva e de liderança soube congregar o entusiasmo pela descoberta e pela inovação junto de gerações seguidas de alunos, parte dos quais soube reunir junto de si, originando um talentoso grupo de colaboradores, hoje expoentes da investigação médica no nosso País.
Deixou Obra e continuadores, foi um exemplo. Deixa também saudade, embora a memória do que foi e fez continue entre nós.
Parta em Paz

Tomás Patrocínio
2012-02-09
22:58
O Professor David-Ferreira era uma grande pessoa.
Conheci-o e trabalhei com ele na Reitoria da Universidade de Lisboa. Guardarei sempre a memória da sua vasta cultura e da sua grande humanidade e do seu sentido cívico e de serviço público.

José Mariano Gago
2012-02-10
00:43
David, meu amigo

Uma emergência de saúde na família acabou por me impedir, à última hora, de partilhar a homenagem dos teus colegas e dos teus amigos ao fim de tarde, na Basílica da Estrela. Mas não estranhes não me ter visto: eu estava.
E não queria, ao menos por escrito, deixar de juntar a minha voz à tristeza de todos os teus amigos.
Combatemos juntos políticas retrógradas contra a ciência, em tempos que foram difíceis e quando ainda parecia que nunca havíamos de conseguir superar um atraso científico secular, manhoso, sinistro.
Batemo-nos juntos para que a ciência (todas as ciências!) passasse a fazer parte da educação, e da cultura do maior número, e das prioridades nacionais absolutas, e da nossa visão colectiva de progresso.
Hoje que sabemos quanto foi feito e onde finalmente chegámos, hoje que a Ciência é um valor colectivo que o País não deixará retroceder, é também quando mais temos de nos unir.
Tinhas essa modéstia subtil dos que, animados por uma convicção profunda, sabem suscitar vocações, ajudar os outros, unir.
Continuaremos, não duvides.
Obrigado por tudo.

Raul Nobre
2012-02-10
02:28
Perdemos um Homem Superior.
A sua memória perdurará.
Que sirva como exemplo.

Roberto Salema (Prof. Universidade do Porto - Botânica)
2012-02-10
10:52
David Ferreira foi um Companheiro de Jornada e um Amigo.
Deixou uma Obra que o prestigia e engrandece, bem configurada no conjunto de discípulos que atingiram alto merecimento científico - e isso é o melhor a que um Professor e Cientista pode aspirar.
Até qualquer dia David.
Roberto Salema

Luísa Henriques
2012-02-10
11:14
Concordo o que foi dito sobre o Prof. David-Ferreira no texto da Carmo Fonseca e nos comentários.

A ele devo ter tido acesso a relatórios fundamentais para o conhecimento do processo de criação da política científica portuguesa elaborados pelo Prof. Celestino da Costa. Apreciei a sua visão lúcida sobre a controvérsia gerada a propósito do modelo a adoptar no Instituto Gulbenkian de Ciência no momento da sua criação nos anos sessenta do século passado e sobre a sua evolução.

Na minha opinião, o Prof. David-Ferreira faz merecidamente parte desse grupo de pioneiros que ajudaram a construir o sistema científico português. A ele e a muitos outros se deve o que somos hoje. A infra-estrutura científica e os cientistas dum país resultam desse longo processo quase geológico de acumulação de vontades, conhecimento e generosidade.

A minha sentida homenagem ao Prof. David-Ferreira. Gostaria de ter estado em Portugal para o seu último adeus.

Ramiro Mascarenhas
2012-02-10
13:50
É sempre difícil aceitar a partida de Grandes Nomes da Ciência como foi o Professor Doutor David-Ferreira. A sua memória perdurará através daqueles que beneficiaram dos seus ensinamentos e a Ciência se encarregará de a eternizar.
À Família enlutada envio sentidas condolências.

Alda Fidalgo (Clemente)
2012-02-11
19:15
Caro Professor,
descansa em paz.
Foste um grande mestre e um grande formador.

Manuel Neves-e-Castro (Endocrinologista)
2012-02-13
00:38
Conheci em Paris o meu Amigo David-Ferreira, quando ambos aí trabalhávamos como bolseiros. Visitei-o muitas vezes em VilleJuif e sempre me encantou a maravilha do que estudava e a simplicidade e humildade com que falava dos seus trabalhos. A sua brilhante carreira científica demonstrou as qualidades que já se lhe adivinhavam. Foi um Grande Senhor que perdemos mas que soube transmitir aos outros o que colheu, como bom Mestre que era, assim deixando os seus frutos a marcarem a semente que lhes deu origem. Bem hajas, meu Amigo David-Ferreira, e que outros te imitem.

José Cardoso Duarte
2012-02-13
11:19
O Professor David-Ferreira que conheci durante a minha passagem pelo IGC ficou-me para sempre na memória com um afecto especial pela amizade e carinho que punha no contacto com os jovens apaixonados pela investigação científica. Por isso não resisto a deixar aqui esta nota de saudade e amizade que nunca acaba.

Margarita Fernández García de Castro ("Margarita dos Pinhões" - IGC - LBC)
2012-10-23
18:53
Conocí al Prof. Ferreira durante un curso de microscopía en la Fundación Gulbenkian, allá por 1976, a donde acudimos muchos compañeros españoles y portugueses, teniendo personalmente la ocasión de volver allí varias veces a realizar trabajos específicos de investigación. Su atención, enseñanzas, simpatía, amabilidad y disposición permanente a ayudarnos en nuestro trabajo fue algo que siempre recuerdo de él. Me encontraba ahora mirando fotografías de aquella época y, dado que hacía mucho tiempo que no sabía nada de él, se me ocurrió buscar algo en la red encontrándome con la tristísima noticia de su pérdida. Aunque muy tarde, no puedo dejar de expresar aquí mi sentir y acordarme de su familia y de los colegas portugueses. A todos mi más sentido pésame.