João Eurico Cabral da Fonseca

João Eurico Cabral da Fonseca (Director da Unidade de Investigação em Reumatologia do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Regente da Disciplina de Reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Reumatologista do Hospital Universitário de Santa Maria)
Estagiário IGC - LBC

In Memoriam de José Francisco DAVID‐FERREIRA
O Prof. José Francisco David‐Ferreira marcou várias gerações de médicos e de investigadores biomédicos. Leccionando Biologia Celular no primeiro ano da licenciatura em Medicina, o qual esteve dominado durante muitos anos por disciplinas tradicionais e pouco criativas, as suas aulas representavam literalmente uma luz ao fundo do túnel para os estudantes mais inconformados.

Estimulava a interacção nas suas aulas e espantava todos com os seus pequenos cartões onde se escondiam as preciosas informações que ia discorrendo nas suas aulas interactivas e cheias de interrogações, muitas delas nunca respondidas, nem pelos alunos, nem por ele.

Mas ficavam a fervilhar no pensamento dos alunos mais imaginativos. Surpreendia os seus alunos e assistentes com surtidas às aulas práticas, não para vigiar, mas para agitar o ar, para estimular as energias escondidas.

O Professor David‐Ferreira conseguia fazer coincidir o ponto alto do ensino da Biologia Celular com uma organização notável a que chamava o "Minicongresso".

Notável, porque envolvia emocionalmente os assistentes e alunos num esforço absolutamente inédito e revolucionário à data:
dissecar um artigo científico, produzir um resumo escrito do seu conteúdo, um poster com uma descrição detalhada e uma apresentação oral de 10 minutos, focando os pontos nucleares do artigo. O nível de empenho que obtinha dos alunos, e não menos importante dos assistentes, criava uma sã competição entre todas as turmas, motivadas para terem o melhor poster, o resumo mais claro e a apresentação com maior impacto.

Mas o Professor David‐Ferreira tinha ainda outro objectivo nesta iniciativa. Com a sua argúcia e atenção treinada pressentia nalguns alunos o espírito inquieto, o inconformismo e a persistência, necessárias para fazerem o tirocínio no ensino, como monitores, e na investigação, como estagiários no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Quando detectava estas qualidades num aluno, que ele tão bem conhecia por as possuir provavelmente de forma inata, mas também por as treinar activamente, fazia um convite directo para um estágio de Verão no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Esses estágios eram muito exigentes e contribuíam para separar o trigo do joio. Quem mostrava dedicação e capacidades teria seguramente novas oportunidades, sempre com seriedade e exigência.

O Professor David‐Ferreira foi também responsável pelo ensino da Histologia e Embriologia, uma disciplina muito mais descritiva e aparentemente com menor margem de manobra para aplicar uma lógica de criatividade, comparativamente à Biologia Celular.

Talvez, por isso, o seu cunho pessoal na organização desta disciplina tenha sido ainda mais notável, promovendo a presença de docentes nas aulas teóricas com estilos muito carismáticos que faziam esquecer o componente expositivo da disciplina. Viveram‐se momentos únicos em algumas aulas de Embriologia, em que os quadros de ardósia eram transformados em livros vivos da evolução dos tecidos humanos.

As aulas práticas, sempre baseadas em lâminas de histologia, normal, não patológica, constituíam, paradoxalmente, oportunidades extraordinárias para organizar o espírito clínico. Observar, catalogar os factos, interpretá‐los e identificar correctamente o tecido e órgão, tal como mais tarde os alunos de Medicina teriam que fazer para chegar ao diagnóstico certo.

O Instituto de Gulbenkian de Ciência, a cujo arranque esteve ligado, e em particular o Laboratório de Biologia Celular, que dirigiu, constituíam um farol no panorama científico e na investigação biomédica em Portugal. A atmosfera de qualidade, rigor e exigência não tiveram par a nível nacional durante muitos anos.

Várias gerações de jovens médicos, biólogos e veterinários tiveram no Laboratório de Biologia Celular do Instituto Gulbenkian de Ciência uma oportunidade de ouro para o seu desenvolvimento profissional. Atingiram aqui os objectivos básicos de uma carreira académica e científica, através de um microclima físico e intelectual, que lhes permitia publicar artigos em revistas científicas internacionais e alcançar as condições mínimas para defenderem teses de doutoramento.

Todos ficaram indelevelmente marcados por esta experiência e pela presença tutelar do Professor David‐Ferreira.

O Professor David‐Ferreira teve sempre uma vida muito preenchida, investindo o seu tempo no desenvolvimento dos grupos a que pertencia e nas instituições onde trabalhava. São disso exemplo o desenvolvimento da Sociedade Portuguesa de Microscopia Electrónica e Biologia Celular, o seu empenho em vários sectores da gestão da Faculdade de Medicina e mais tarde da própria Universidade, actuando sempre sem descurar as suas obras principais e o desenvolvimento dos seus colaboradores.

Curiosamente, o que mais perdura nas memórias de muitos que com ele privaram foram as coisas simples da vida que promoveu.

As boleias informais aos alunos para irem da Faculdade ao Instituto de Gulbenkian de Ciência, a cultura do almoço em grupo no Instituto Gulbenkian de Ciência, o passeio que se seguia nos jardins da instituição e o chá em grupo às 5 da tarde.

Conheci o Professor David‐Ferreira em 1986, no meu primeiro ano na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Ainda agora me surpreendo como foi crítico para a minha vida futura o seu convite para o primeiro estágio de Verão no Instituto Gulbenkian de Ciência, que depois se repetiram ao longo da licenciatura, e mais tarde para seu colaborador no ensino da Histologia.

Segui uma carreira clínica, opção que soube respeitar e incentivar. Apesar de algum natural distanciamento profissional recordo com muita emoção a sua alegria pueril por cada um dos meus pequenos sucessos profissionais.

Esta era a sua natureza. Incentivar e treinar os mais jovens, fornecer‐lhes as asas para mais tarde procurarem novas oportunidades de desenvolvimento e contribuírem para o edifício da Ciência em Portugal, para cujos pilares muito contribuiu o Professor David‐Ferreira. O seu exemplo perdurará nos actos dos que formou e na extraordinária performance da Medicina e Ciência Biomédica Portuguesa do século XXI.