João Ferreira

João António Augusto Ferreira (Professor Associado da Faculdade de Medicina de Lisboa. Coordenador do GAPIC)

In Memoriam de José Francisco DAVID-FERREIRA - O Fundador do GAPIC

No passado dia 7 de Fevereiro faleceu José Francisco David-Ferreira, Professor da Faculdade de Medicina e Fundador do GAPIC. Foi com grande emoção que recortei, para memória futura, a fotografia associada ao seu obituário, publicada em semanário de grande circulação.

É a imagem de um homem já idoso a que me desperta tanta saudade. É difícil envelhecer, é verdade, e é difícil saber envelhecer, é muito mais verdade. David-Ferreira soube-o. Provavelmente não precisava de ter feito nada para que assim sucedesse.

O que transmitiu, e fez, em devido tempo, bastaria para que a sua mensagem e exemplo lhe fizessem companhia tranquila nos seus últimos anos. Mas, já jubilado, voltou a impressionar bem, outras figuras, noutros contextos, trabalhando sempre para os mesmos - os seus estudantes, e a sua Universidade. Era um grande amigo dos estudantes.

O primeiro contacto.

O primeiro contacto com o Professor David-Ferreira ocorreu no meu primeiro ano nesta Faculdade, no curso de Biologia Celular. David-Ferreira dirigia então o muito prestigiado Laboratório de Biologia Celular do Instituto Gulbenkian, em Oeiras. Era, entre os estudantes daquela época, mais conhecido como um cientista famoso, com grande prestígio e vivência internacional, o que era raro no Portugal daqueles tempos (estávamos em 1977).

Não era, seguramente, figura que nos pudesse ser indiferente. Não era parecido, no modo e na atitude, com alguém que tivesse conhecido. Ensinava de um modo peculiar, não usava pedagogia morna e normalizada.

Ensinava pela descoberta. Qualquer aspecto da biologia celular era introduzido pela sua descoberta, numa recriação emocionada, personalizada, do contexto original.

Encarnava vivamente o descobridor, e quase se transfigurava nele. Com David-Ferreira aprendi que uma verdadeira descoberta é indissociável do seu autor, do seu estilo, do seu modo de interrogar a natureza.

Também nos surpreendia frequentemente pelo uso, calculado, da desproporção. Assim, ensinava como uma questão científica muito relevante podia ser muito simples, quase pueril. E como podia ser simples a resolução de um problema complexo.

Realçava o papel do engenho humano, admirava mesmo muito o génio humano. Era pela emoção que colocava na dissecção crítica de uma descoberta científica que nos envolvia, que nos cativava a atenção.

O conhecimento resultante de descoberta, hoje frequentemente dissimulado em "conteúdos pedagógicos", era então sintetizado de forma lapidar; não nos aborrecia com excessos de informação ou detalhe.

Eram aulas magistrais, a sério. Só mais tardiamente percebi porque tiveram tanto impacto. Era óbvio que enquanto nos ensinava biologia celular tentava despertar em nós a curiosidade pelas origens do conhecimento e pelo entendimento das suas forças e fragilidades, e também o interesse pela investigação científica - e que entendia ser essa uma Missão sua.

Foi certamente no âmbito dessa missão que decidiu fundar o GAPIC. Para dar uma oportunidade aos seus estudantes de formularem uma questão científica, de a testar, e de poderem partilhar a genuína emoção de uma descoberta – tal como ele a vivia.

Um Professor com um plano. José David-Ferreira tinha um carácter muito peculiar, como era peculiar o seu fino e inteligente sentido de humor. Era muito polifacetado. Era mesmo muito único. E, de quando em onde, algo contraditório.

Os que privavam mais com ele conheciam-lhe bem os tiques. Podia parecer irritado e não estar; apenas para enfatizar os seus pontos de vista. Outras vezes zangava-se mesmo, mas era por norma bem-humorado e afável.

Incomodava-o genuinamente tomar medidas que pudessem prejudicar alguém. E divertia-o o pitoresco do carácter humano, como é próprio de quem gosta de pessoas.

Mas o bálsamo para a sua alma eram as questões e as ideias, por vezes ingénuas, e as propostas de estágio avançadas pelos seus estudantes. E a sua coroa de louros o despertar de uma vocação científica - mesmo que uma só, dizia com ironia e graça.

Certo dia, no antigo Instituto de Histologia e Embriologia localizado no edifício do Hospital de Santa Maria, quando se discutiam os atributos das vocações de Professor e Investigador, nas suas múltiplas facetas, perguntei-lhe, directo no olhar, como se achava ele próprio.

Respondeu-me, sem tergiversação, que era bem mais um Professor que um investigador. Pasmei. Sempre o tinha compreendido como um cientista. Tinha sido essa a minha primeira impressão, e não tinha mudado até aquele momento.

David-Ferreira contribuíra com observações pioneiras, repito, pioneiras, em múltiplas áreas da biologia celular. Tinha reconhecimento internacional. Por isso pasmei. Mas a afirmação valeu para o futuro.

Com o passar do tempo todos fomos percebendo que o Professor tinha um plano que seguia com firmeza, praticamente sem desvio.

Feria-o, bem fundo na alma, o facto de os portugueses terem contribuído ainda pouco para o avanço da ciência. E queria, no alcance da sua actuação, participar na mudança dessa situação.

Queria melhorar o nível de cultura científica na sua Faculdade, começando pelos seus estudantes. É no contexto desse plano que se enquadra o seu acto criador do GAPIC. A pensar nos seus estudantes.

A marca do Mestre. Os mestres não se impõem, escolhem-se. David-Ferreira sabia-o bem. Ouvi-o repetir esta afirmação várias vezes, especialmente quando se comentava a devoção que nutria pelo seu antigo mestre, o Professor Augusto Celestino da Costa. E, por isso, a Liberdade, na sua plenitude de sentido, era um valor máximo para o Professor David.

Mas os verdadeiros mestres não se escolhem pela admiração que nos despertam. E o Professor David-Ferreira prefigurava características notáveis, bem dignas da máxima admiração. Mas, como salienta G. Steiner no seu ensaio "As Lições dos Mestres", o verdadeiro mestre distingue-se por deixar um vinco, um traço, uma marca distintiva e perdurável nos seus discípulos; a marca do Mestre.

O Professor David-Ferreira deixou várias marcas nos seus muitos discípulos. Não comento a sua maioria neste momento, por risco de auto-elogio ou presunção. Mas seleccionei uma das marcas indeléveis do nosso Mestre – um modo de ler a Natureza.

Costumo dizer aos meus alunos que a Natureza fala connosco, que nos desperta para a descoberta das suas leis através de sinais. Por vezes vemo-los, mas não pensamos neles; ou até pensamos, mas não alcançamos o que dizem.

Conto-lhes a história exemplar da gravidade. Conto como todos tinham constatado que os objectos caíam, mas só Sir Isaac pensou que isso correspondia a uma força de atracção. E como tal deveria ter uma lei física associada. E como, ainda hoje, a atracção gravítica é uma força misteriosa! Talvez haja mais sinais à nossa espera!

Os discípulos do Professor sabem todos, sem excepção que conheça, interpretar muito bem os sinais encriptados na estrutura das células. Tomam a célula como ponto de partida, e como plataforma privilegiada de análise das suas hipóteses de trabalho. Mesmo quando esse trabalho é maioritariamente constituído pela dissecção de um mecanismo, ou de um fenómeno, a nível molecular.

David-Ferreira era um microscopista fabuloso, de uma intuição extraordinária para a interpretação da imagem. Só com maturidade compreendemos como é difícil transmitir esse tipo, muito complexo, de competência. Ele conseguiu-o. Ensinou a analisar funções pela leitura dos sinais inscritos na estrutura celular; como ninguém.

Jorge Luís Borges dizia, com tristeza, que tudo tende para o esquecimento. Terá muita razão. A boa parte da mensagem de Borges é que só depende de nós.

No dia 7 de Fevereiro do ano de 2012, José Francisco David-Ferreira, Homem distinto e bom, Amigo do próximo, Cidadão exemplar, Professor notável, Cientista de rasgo, Mestre saudoso, apartou-se do nosso convívio físico. Mas, só desse.