Maria do Carmo Fonseca

CarmoFonsecaMaria do Carmo Fonseca, Professora Catedrática da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e Directora do Instituto de Medicina Molecular.

Dia 7 de Fevereiro de 2012.

A mensagem que eu, desde há uns dias, temia receber chegou. O professor David-Ferreira tinha falecido. A Ciência portuguesa ficou de luto. José Francisco David-Ferreira nasceu em 1929, e guiou toda a sua vida pelos princípios do romantismo patriótico. Tinha por ambição ser útil aos seus compatriotas e tomou a Ciência como via para ajudar a desenvolver o seu país. Ao concluir a Licenciatura em Medicina, em 1952, optou por seguir uma carreira de investigação na Faculdade.

Com uma Bolsa do Governo Francês, em 1955, estagiou no "Institut de Reserches sur le Cancer", em Villejuif. Durante 3 anos foi parte de uma equipa reconhecida mundialmente como pioneira no uso do microscópio electrónico para estudar a biologia das células cancerosas.

Regressado a Lisboa, lutou por angariar fundos para a instalação do primeiro microscópio electrónico em Portugal, o que se concretizou graças ao patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 1960 prestou provas de Doutoramento na Faculdade de Medicina de Lisboa com um estudo inédito de microscopia electrónica que lhe valeu a classificação máxima de 20 valores.

Logo a seguir teve a coragem de abandonar uma carreira segura na Faculdade de Medicina de Lisboa para concretizar o sonho de desenvolver os seus próprios projectos científicos. Não temeu a aventura de ir trabalhar nos Estados Unidos levando a sua jovem família.

Entre 1962 e 1965 foi Investigador Visitante no "National Cancer Institute" em Bethesda. O seu projecto consistia em procurar vírus em biópsias de tumores do fígado e dele resultaram importantes descobertas sobre a interacção dos vírus com as células hospedeiras.

Voltou a Lisboa com a mesma motivação patriótica da sua juventude: estava determinado a ter o seu próprio grupo de investigação e orientar as novas gerações de cientistas.

Montou e dirigiu o Laboratório de Biologia Celular do Centro de Biologia da Fundação Calouste Gulbenkian que rapidamente se tornou uma referência nacional.

Neste Laboratório foram treinadas gerações sucessivas de jovens que viriam a ser Professores de Biologia Celular e Histologia em todas as Universidades Portuguesas.

Em 1974 foi convidado a reintegrar a Faculdade de Medicina de Lisboa, e nomeado Professor Catedrático em 1979.

Foi Vice-Reitor da Universidade de Lisboa de 1997 a 2001. Na Faculdade, David-Ferreira lançou o Gabinete de Apoio à Investigação Científica com o Programa "Educação pela Ciência", e criou o Centro de Biologia e Patologia Molecular que viria a ser, em 2001, o precursor do Instituto de Medicina Molecular.

Hoje, a sociedade portuguesa orgulha-se dos seus jovens cientistas que recebem prémios internacionais. Mas o sucesso da ciência portuguesa no presente foi construído sobre um passado que importa não ignorar.

Nas décadas de 1960 e 1970, um punhado de mulheres e homens como David-Ferreira, apaixonados por desbravar a fronteira do desconhecido, abdicaram de carreiras brilhantes no estrangeiro para dedicarem a sua vida a manter acesa a chama da investigação científica em Portugal.

Foi a partir desse núcleo duro de resistentes que tomaram forma os actuais institutos de investigação, e foram os discípulos desses homens e mulheres os professores que atraíram para a investigação a geração presente de cientistas portugueses.

Foi pela mão de David-Ferreira que eu descobri o mundo da ciência. Recordo o ano de 1977, quando eu ingressei na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Sentada na primeira fila de um anfiteatro inóspito e degradado, consumia avidamente as aulas de Biologia Celular dadas pelo professor David-Ferreira ao cair da tarde.

Ele contava histórias de descobertas feitas por pessoas que passávamos a conhecer pelo nome. E eu sonhava, como será a sensação de fazer uma descoberta? Terminados os exames, o Professor convidou-me a estagiar no seu laboratório de investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência.

Até hoje, nunca mais abandonei o laboratório. Com ele aprendi o valor da liberdade e do respeito na vida profissional. Acima de tudo, David Ferreira inspirou-me a ousar quebrar tradições, a abdicar da pretensa segurança do quotidiano previsível e a aventurar-me na busca de concretizar os meus sonhos.