João Lobo Antunes

Prof. Doutor José Francisco David-Ferreira∗
Discurso de homenagem por João Lobo Antunes
∗ Proferido na cerimónia da sua jubilação, na qualidade de Presidente do Conselho Científico.

Raramente se celebra a despedida de alguém, a quem se quer bem, de forma tão jubilosa. A razão é decerto porque esta é a homenagem de uma Escola a um Professor feliz. Disse Escola e não Faculdade, para não apertar o seu magistério no acanhado espartilho deste edifício.

Para a sua festa vieram amigos, discípulos, companheiros de jornada, gente de terras a norte e a sul do Equador, em generosa romaria, porque este mestre viajou pelo mundo e pelo mundo fez amigos.

A mais nobre homenagem a um homem de Ciência presta-se falando de Ciência e, no seu caso, do seu ramo mais vivo, porque de vida trata, a Biologia. Usaram os seus amigos o idioma próprio da disciplina que cultivam e do saber que transmitem, para ilustrar a sua contribuição.

Eu usarei na minha linguagem apenas "a pura abundância de alma" de que falava Nemésio.

O seu nome ficará para sempre ligado à introdução entre nós de uma técnica de investigação, que se tornou um instrumento de tal modo poderoso e indispensável à investigação biológica e, particularmente, da sua unidade primordial, a célula, que à sua volta se juntaram os iniciados nos seus segredos criando uma sociedade, que sob aparência de idolatrar um instrumento - o microscópio electrónico -, se reuniam afinal para partilhar o encantamento de um novo mundo.

Aliás a importância de tomar visível a evidência tem sido central para o progresso da ciência desde o tempo do iluminismo. Por outro lado, aquele progresso dependeu sempre, e hoje cada vez mais, de uma indústria de tecnologias ao serviço da pesquisa - "craft industry" lhe chamou Dyson -, no fundo a fecunda expressão da parceria que terá nascido no "homo habilis", de um cérebro curioso e de mãos com cinco apêndices, que parecem ganharam inteligência autónoma. Hoje, li-o há dias, o destrançar do genoma humano está em vias de ser entregue às mãos cegas de robots, que assim finalmente estabelecerão a definitiva biblioteca do nosso código genético, reduzindo-o a uma sequência alfabética e dando assim razão ao Evangelista que assegurava, há quase dois mil anos, que ao princípio era o Verbo.

Ao introduzir o microscópio electrónico, David-Ferreira garantiu a tradição de modernidade que o Instituto que herdara de Athias, Chaves e Celestino da Costa, sempre preservara. E era a modernidade arejada, do convívio internacional, do livre comércio de ideias e de técnicas. Mas, ao mesmo tempo, soube conservar a excelência didáctica que lhe legara um homem que a revolução tratara com injustiça. Por isso recordo aqui hoje o pedagogo de excepção que foi Xavier Morato, para quem o acto de ensinar tinha sempre a dignidade de uma missa solene. Era a verdadeira aula magistral que marcava quem ouvia.

O tempo é outro, mas o seu grupo, aquele que é o mais fecundo na produção cientifica, é também dos melhor julgados pelos alunos desta Escola.

David-Ferreira recebeu pois duas heranças e entrega-as agora, a esta Faculdade, com juros.

É certo que a Biologia Médica que se ensinava é hoje Biologia Celular, a sua microscopia electrónica, tem agora filhos e netos, e a Embriologia, que nos intrigava no confuso plissado dos seus folhetos, é agora a Biologia do Desenvolvimento, que nos tem mostrado como mosca, pinto e homem, se originaram em ancestral tronco comum.
E o que tem tudo isto a ver com os actos milenários de diagnosticar, tratar e prevenir?

Provavelmente tudo. É que aquilo que os seus discípulos hoje ensinam está muito mais próximo da Medicina do que a ciência que abraçou quando, em inocente apostasia, pensou despedir-se da profissão para que se formara. E foi-se aproximando, paradoxalmente, porque David Ferreira persistiu na defesa, tantas vezes estridente, e não raramente colérica, da independência da ciência básica, face à supremacia soberba dos clínicos. E hoje será da Biologia Molecular, da Bioquímica, das Neurociências, que poderá partir o ressurgimento de Escola, e assim contrariar o declínio cultural de profissão .

A sua felicidade como Professor assumiu novo sorriso quando há pouco tempo partiu para servir na Reitoria da Universidade de Lisboa. A sua carreira foi uma surpreendente sequência de passos certos: não falhou uma nota, não tropeçou num degrau. Enfim, saiu, entrou, saiu, com uma extraordinária visão da oportunidade e um diagnóstico infalível, quanto ao melhor uso a dar a essa oportunidade.
Por isso chega ao fim legal de uma carreira no topo, com a tranquilidade plena de quem cumpriu um dever, nunca enjeitando a sorte, que afinal mereceu.

Perdoem-me finalmente o desabafo que é também uma embaraçada confissão. Vou ter saudades suas, saudades de o ver, na sala do Conselho, mesmo em frente à cadeira mais alta em que a Escola me senta, porque durante as nossas reuniões havia entre nós o ininterrupto fluxo de um entendimento silencioso, uma cumplicidade não medida e até, quantas vezes, um tráfico de malícia, que explodia na sua gargalhada aberta, ruidosa, franca. E nesta Universidade solene e sisuda, tantas vezes triste de si mesma, somos poucos os que nos rimos e nos fazemos rir.

Meu querido amigo:
Os heróis da antiguidade tinham poetas que os celebrassem e que assim lhes garantiam a eternidade. Os nossos épicos, Camões e Pessoa, souberam cantar os heróis domésticos, com a inspiração única do seu génio.

Eu sei como aprecia particularmente um poeta que foi também um grande educador da Ciência, Rómulo de Carvalho – António Gedeão ou Rómulo de Carvalho, conforme o sentido da reacção alquímica do seu talento. Por isso, fui averiguar se ele tinha pensado em si, navegador dos tempos de hoje, mergulhado na descoberta não do desconhecido longínquo, mas do invisível próximo.
Encontrei um prosaico poema, a que ele chama "Poema da Malta das Naus" e cujas últimas duas quadras rezam assim:

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e sabe-me a sal
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

Quem se homenageia hoje é um Português que chega, feliz, a bom porto.