Os sonhos e pesadelos da razão – uma introdução (Artigo)

DAVID-FERREIRA, José Francisco, "Os sonhos e pesadelos da razão – uma introdução". In:  M. Valente Alves, Passagens – 100 peças para o museu de medicina, 2005, pp. 215-217.

 

Os Sonhos e os Pesadelos da Razão. Uma introdução

J. F. David-Ferreira


Os Museus são uma das criações mais notáveis da civilização ocidental. Das suas origens remotas, como templos destinados às musas, evoluíram e de lugares míticos ou reservados transformaram-se em instituições abertas e espaços de reflexão, de diálogo e até mesmo de criação artística.
A existência no Museu Nacional de Arte Antiga de uma área destinada a exposições temporárias é uma mais valia, que lhe confere capacidade para dinamizar o diálogo entre as obras-primas do seu património e outras de criação artística, ou ainda com manifestações culturais capazes de atrair um público mais alargado e diversificado sobre o qual exerce a sua influência e função cultural.

A exposição, em que se apresentam 100 peças do acervo histórico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, assinala a sua passagem à musealização. Um primeiro baptismo, é um pretexto para avaliar o seu valor estético e simbólico, e reflectir sobre museus de Arte e museus de Ciência, o que os separa e o que os aproxima.

No racional que orientou o guião desta exposição, há uma das "passagens" a que me encontro particularmente ligado, por ter origem na área disciplinar em que desenvolvi a minha actividade. Observar, descrever e avaliar padrões e os seus desvios são na anatomia microscópica os instrumentos mentais para descobrir a sua natureza e conhecer os mecanismos que servem de base à compreensão do normal e do patológico.

A forma é a imagem plástica da função e o aforisma que nos guia.

Ver o invisível é domínio em que as técnicas e instrumentos são indispensáveis para ultrapassar os limites da nossa visão, satisfazer a curiosidade e revelar os segredos do "microcosmos".
Muito do que conhecemos, dos mais diversos organismos, está relacionado com as técnicas da microscopia que permitiram observar detalhes muito para além da nossa visão com ampliações situadas habitualmente nas 1500x para o microscópio óptico e nas 200,000x para o microscópio electrónico. Novas formas, novas combinações, novos padrões e também emoções estéticas, que os critérios da escolha na obtenção e preparação dos documentos permitem transmitir.

Os padrões que observamos, que são para nós imagens plásticas das funções ou disfunções, têm também um conteúdo estético, a que nem a mais empedernida sensibilidade pode ficar alheia. A descoberta do pacto novo é neste processo acompanhada pela procura do facto cuja beleza o possa mais dignamente representar. Há arte nesta procura, neste exercício e por isso algumas representações de factos e dados científicos adquirem o estatuto de artísticas. Padrões cuja beleza oculta só as novas técnicas e instrumentos permitem revelar.
Também nos instrumentos que a Ciência utiliza são introduzidos nos seus componentes, pelos artistas que os fabricam, elementos de natureza estética que ultrapassam a mera preocupação funcional.

As revelações da ciência têm sido ao longo de séculos motivo de inspiração das artes e as representações anatómicas do corpo humano um dos temas que mais aproximaram artistas e cientistas a partir do século XV. Mesmo antes que a prática das dissecações anatómicas tivesse sido autorizada e introduzida nas Escolas Médicas, já os artistas naturalistas do século XV as vinham praticando clandestinamente, com o objectivo de conseguirem uma representação mais rigorosa do corpo humano nas suas diferentes posições e formas de expressão.
São célebres os numerosos estudos anatómicos de Leonardo Da Vinci, cujo génio artístico tão bem se combinou com a sua enorme curiosidade e talento cientifico. Também as ilustrações que acompanham a De Humani Corporis Fabrica de Andrea Vesálius, de que figura nesta exposição um exemplar, são um testemunho desse encontro entre a anatomia e a arte. Mais do que a ilustração fria de factos, as diferentes estruturas anatómicas são representadas como se tivessem sido criadas a partir de modelos vivos pousando para um artista.

Na época em que vivemos tanto a ciência, como o seu parente próximo, a tecnologia, estão a ser, não só motivo de inspiração como fonte para novos instrumentos de criação artística. A exposição recentemente realizada em Oeiras por Marta de Menezes é uma demonstração como os avanços da Biologia Molecular estão a inspirar uma nova geração de artistas plásticos. O texto explicativo 'Arte e Biologia', da sua autoria, é um referencial das várias correntes e artistas contemporâneos que exploram motivos biológicos como formas de expressão artística. Conforme Marta de Menezes comenta nesse texto "...tem sido comum na história da arte a incorporação de novas tecnologias para a criação artística; a biologia e a biotecnologia não parecem ser diferentes. Do mesmo modo que desenvolvimentos passados como a fotografia, o cinema ou a informática foram adaptados para a prática artística, também a biologia terá semelhante evolução. O maior obstáculo parece ser a menor acessibilidade de equipamento de biotecnologia em comparação com outras tecnologias", assim, "artistas que desejem explorar o uso da biologia como médium necessitam colaborar com cientistas e com as instituições onde estes trabalham".

São as artes e a ciência duas expressões distintas de uma cultura dividida? Ninguém melhor do que os que têm reflectido sobre o tema, nomeadamente sobre o tema da cultura nos poderá ajudar a reflectir. Mas a este propósito e sem pretender "meter a foice em seara alheia" permitam-me recordar um célebre e muito celebrado ensaio de Charles P. Snow que nos finais da década de 50 provocou artistas e cientistas com os seus comentários sobre as duas culturas, a das Artes e Humanidades e da Ciência. Uma divisão que considerava artificial. Com a sua autoridade de artista e cientista revelava nesse ensaio a hostilidade como as duas tribos de intelectuais se olhavam e ridicularizavam tendo essa rivalidade como consequência, pela falta de diálogo, o seu empobrecimento mútuo. De acordo com a sua análise essa separação era consequência da superespecialização que o próprio sistema educativo fomentava com a separação precoce do ensino das humanidades e da ciência. Também Bronowski, na mesma época, e também com a autoridade de escritor e de cientista, defendeu a tese da unicidade do processo cultural.
Artes e ciência são actividades com muito em comum no processo criativo em que a intuição e imaginação operam e nas formas de expressão em que também na ciência não são alheios motivos e emoções de ordem estética. Bem o disse o Poeta pela voz de Álvaro de Campos:

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Nilo. O que há é pouca gente para dar por isso...

Emoções estéticas são fontes de prazer que eminentes cientistas contaram ter sentido no momento da revelação de uma verdade nova.
O tema, melhor dizendo o mote, que nos foi proposto pelo Dr. Valente Alves, 'Sonhos e pesadelos da razão', teve seguramente interpretações diferentes pelos membros deste painel, o que se justifica pela diversidade de percursos, experiências e interesses.
O uso da razão é tido como o processo operativo da Ciência na sua procura do conhecimento, a que não exclui nem a intuição nem a imaginação que são, como nas artes, processos determinantes na descoberta científica. Sonhos e pesadelos da razão poderão ser pois sonhos e pesadelos da ciência. Sonhos a esperança no progresso do conhecimento, do encontro de uma verdade nova, uma experiência bem sucedida.
Pesadelos os medos do uso perverso de tecnologias inspiradas na ciência. A bondade da ciência pura e a eventual perversidade das suas utilizações.

Todas as actividades humanas, por muito nobres que sejam os seus propósitos, podem ter efeitos perversos.
Basta recordar a intolerância dos fundamentalismos religiosos ou a utilização das artes como motores de chauvinismos nacionalistas e racistas através de hinos ou criação de símbolos.
Também a ciência, base indiscutível de muito progresso, tem sido instrumento de perversões de valores consensualmente reconhecidos. Os progressos da química e da física inspiraram tecnologias extremamente cruéis de destruição, que aliás estão na génese de alguns movimentos anticiência contemporâneos.

Há o sonho da conquista da verdade e do progresso e o pesadelo das aplicações insensatas ou mal ponderadas. É certo o aforismo de Francis Bacon de que o saber é poder mas que o que está em causa é o uso que é feito dos poderes criados pelos novos saberes.
Depois da química e da física também a biologia perdeu a inocência de ciência pura, isto é, da procura do conhecimento pelo conhecimento e isto sem consequência das suas aplicações biomédicas nas áreas da reprodução, da genética e da biologia molecular.
A realização de muitos sonhos antigos de se compreenderem os mecanismos da hereditariedade ou os que regulam o processo reprodutivo são acompanhados pelo pesadelos da sombra de Frankenstein ou pelas metáforas do aprendiz de feiticeiro ou da caixa de Pandora.
Mais uma vez entram em cena os movimentos anticiência que não só põem em causa o uso indiscriminado ou aberrante de certas tecnologias mas os próprios fundamentos da prática da ciência.

A curiosidade que motiva a pesquisa científica e uso de novas tecnologias para benefício próprio são porém intrínsecas à natureza da espécie. Como escreveu Bronowski, "a ciência é o único método que encontrámos até agora para transformar o conhecimento humano em acção racional" e "lutar contra a tecnologia é lutar contra a natureza do homem, tal como seria lutar contra a sua postura vertical, a sua imaginação simbólica, a sua faculdade de fala ou os seus pouco usuais apetites e posições sexuais".
Os ataques ao progresso científico e a sua obstaculização são porém muito antigos, mitos e dogmas foram instrumentos utilizados para diabolizar o progresso e despertar medos atávicos. Travar a exploração do conhecimento, e até a aplicação de práticas médicas reconhecidamente benéficas, são práticas antigas.

Foram os mitos sobre a natureza sagrada do corpo que travaram durante séculos os conhecimentos anatómicos. A ciência anatómica iniciada na Escola de Alexandria no século III a.C. teve que esperar pelo Renascimento, isto é, mais de dez séculos para retomar o seu percurso na Escola de Bolonha nos séculos XV e XVI, quando as dissecções anatómicas de cadáveres saíram da clandestinidade por razões médico-legais e autorização dos papas Sistrus IV (1471-1484) e Clemente VII (1583-84).
As tentativas de bloquear a utilização de técnicas terapêuticas, que se veio a comprovar serem de grande utilidade para a saúde e redução do sofrimento humano, também não serão novidade. O papa Leão XIII que governou a Igreja de 1878 a 1903 condenou o uso de vacinação aos católicos porque segundo ele isso era opor-se à vontade de Deus criador da natureza e das epidemias.

Também, e ainda no século XIX a utilização dos anestésicos durante o parto foi severamente condenada por razões de ordem teológica. O mito de que o parto deve ser acompanhado de sofrimento foi porém precocemente ultrapassado porque um personagem real, a Rainha Vitória de Inglaterra, renunciou a esse sofrimento redentor, quando do nascimento em 1853 do príncipe Leopoldo e novamente em 1857 quando do nascimento da princesa Beatriz.
A transfusão de sangue, um dos pilares terapêuticos na solução de um vasto leque de situações médicas e cirúrgicas foi contestada e ainda é hoje proibida pelas Testemunhas de Jeová que continuam a atribuir ao sangue propriedades míticas há muito ultrapassadas e esquecidas.

Sonhos para uns, pesadelos para outros os avanços da biomedicina nas áreas da reprodução e da genética molecular são hoje motivo de acesos debates em que se confrontam medos e esperanças. Como no passado mitos e ideologias põem em causa a exploração de recentes inovações e a sua utilização na nossa espécie e propõem que se estabeleçam proibições ao seu uso e à liberdade de investigação nestas áreas.

Inicialmente foram muitas as objecções à utilização da fertilização in-vitro como método terapêutico para solução de problemas de infertilidade, mas hoje a designada reprodução medicamente assistida é prática corrente a nível mundial apesar da sua condenação por sociedades mais conservadoras. Depois da introdução e aceitação da fertilização in-vitro, as técnicas de reprodução artificial melhoraram progressivamente, nas suas diversas variantes, e são hoje largamente praticadas. Em 1998m quando foi comemorado o vigésimo aniversário de Louise Brown, o primeiro bebé proveta, já se contabilizavam 200.000 bebés nascidos em todo o mundo após fertilização in-vitro.

Em 1997 o anúncio da clonagem da ovelha Dolly trouxe novamente para a ribalta a discussões dos métodos da reprodução artificial. O sucesso da clonagem da Dolly, embora mitigado pela sua fraca rentabilidade, teve um grande impacto e deu azo à conotação de cenários de terror caso se viesse a concretizar a sua utilização em humanos, nomeadamente para a "fabricação" de pessoas a partir de originais com características físicas ou dotes excepcionais ou simplesmente por puro narcisismo. Como se fosse possível clonar uma pessoa!

Mais perigosa do que a clonagem reprodutiva por técnicas biológicas, tem sido ao longo dos séculos a criação de multidões de fanáticos por clonagem psicológica, não por inserção de genes em corpos mas de 'memes' em cérebros, um método muito mais eficaz e sem hiatos geracionais. Como escreveu Axel Khan: "s'il n'existe surement pas de genes nazis ou staliniens la réalité de vírus ou de memes idéologiques, au pouvoir infectieux considérable, générateurs d'épidémies redoutables ne fait aucune doute". A clonagem de certas ideias e doutrinas pode ser bem mais perigosa do que a clonagem dos corpos.

Apesar de muitos debates e especulação associada, são muito limitadas as razões que justifiquem a clonagem com fins reprodutivos nos humanos. Há por isso um consenso quase universal quanto à interdição da sua prática. O mesmo não acontece com a clonagem terapêutica, com o objectivo limitado de obter células estaminais a partir de proto-embriões para serem utilizadas como enxertos na correcção de lesões ou disfunções celulares em doenças como a diabetes, enfarto do miocárdio, o Parkinson ou a doença de Alzheimer.
Os opositores a qualquer tipo de clonagem argumentam contudo que é um atentado à dignidade humana e eticamente condenável a criação de embriões com esse fim e vêem na clonagem terapêutica o perigo da sua prática poder derrapar para outros fins que não a obtenção de células estaminais.

Em contraponto aqueles que a defendem, com o objectivo de explorar as suas potencialidades terapêuticas argumentam que não é necessário promover a criação de embriões já que se poderão utilizar os embriões excedentários resultantes das práticas da reprodução medicamente assistida, que terão assim um fim bem mais digno do que a sua destruição quando já não existe um processo parental que justifique a sua implantação e seja autorizado esse novo destino pelos seus progenitores.

A prudência é um instrumento indispensável na análise e utilização dos novos poderes que as biotecnologias conferem pois a história também nos ensina como iniciativas e decisões baseadas em conhecimentos não devidamente aprofundados e consolidados tiveram consequências nefastas. A ponderação dos riscos não pode porém implicar um imobilismo que ponha em causa a exploração de novas vias para solução de problemas de saúde que ainda fustigam as nossas sociedades.

Os progressos da ciência e a introdução de novas técnicas terapêuticas sempre desencadearam sonhos e pesadelos. Sonhos para uns, pesadelos para outros.

Sonhos para aqueles que viam no progresso do conhecimento e da tecnologia a esperança de terminar com pesadelos ancestrais. Pesadelos para os que, fiéis a verdades antigas, presenciam o ruir dos mitos e crenças que alimentavam os seus sonhos.

Muitos sonhos se têm vindo a realizar, mas novos pesadelos não cessam de nascer. Na nossa época tanto nas artes, indústria cultural, como na ciência, biotecnologias, é já o Homo economicus que domina o Homo sapiens, este é o grande pesadelo.


Referências bibliográficas

De Meneses, Marta - "Arte e Biologia", Ginocar, Ind. Gráfica, 2005.

Bronowaki, J. - "Science and human values", Harper & Row, N. York, 1965.

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Kahn, A. – "Et l'homme dans tout ça?", Niled, Paris, 2000.

Suiger, C. - "A short History of Anatomy and Physiology from the Greeks to Harvey", Dover Publications, N. York, 1957.

Snow, C. P. - "The two cultures and a Second look", Mentor Books, N. York, 1964.

 

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