Jubilação - Discurso proferido pelo Professor Gerson Cotta-Pereira

Discurso proferido pelo Professor Gerson Cotta-Pereira na cerimónia de homenagem ao Professor Doutor José Francisco David Ferreira, na sua Jubilação, na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, no dia 1 de Julho de 1999.

 

 

 

Exmo. Sr. Presidente da República Portuguesa
Exmo. Sr. Secretário de Estado do Ensino Superior
Exmo. Sr. Reitor da Universidade de Lisboa
Exmo. Sr. Diretor da Faculdade de Medicina de Lisboa
Exmos. Srs. Presidentes dos Conselhos Científico, Pedagógico e da Assembleia
Geral da Faculdade de Medicina de Lisboa Exmos. Srs. Professores
Minhas Senhoras, Meus Senhores Meu Caro Professor David-Ferreira


É com subida honra e grande emoção que aqui me encontro para juntar-me a outros nesta mais do que merecida homenagem ao nosso Mestre, Professor Doutor José Francisco David-Ferreira, após haver atravessado o Atlântico com o único objetivo de participar deste magnífico evento.
Ao redigir esta saudação, rememorando os vinte anos de convívio, pensei, não somente em sua brilhante carreira de investigador e professor, em suas virtudes culturais, em sua inteligência invulgar e em seu magestoso curriculum vitae, que todos podem testemunhar. Pensei, todavia que, nesta solenidade em que o homenageamos, seria, também, importante exaltar a obra que deixou, com a marca indelével de sua personalidade e competência, nos inúmeros discípulos e seguidores brasileiros e latino-americanos.
Foi em 1971 que, já Docente Livre em Histologia e Embriologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, candidatara-me a uma bolsa, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal, para estagiar com o Professor David-Ferreira, que já conhecera por suas publicações, uma delas sobre o poder fagocitário das plaquetas sanguíneas. Dois meses depois, enquanto esperava o resultado, fui agradavelmente surpreendido no Departamento em que trabalhava, por um conferencista português, convidado ilustre das comemorações de aniversário do Instituto de Biofísica da minha Universidade, que ficava no mesmo prédio, a solicitar-me ajuda para utilizar seus diapositivos de grande tamanho. Era o Professor David-Ferreira "em carne e osso" e quem, naquela ocasião, eu mais gostaria de encontrar e perguntar: - Minha bolsa foi aprovada? Criterioso como sempre foi, tomou informações a meu respeito, no Instituto de Biofísica, e, depois, disse-me que sim.
Cheguei a Lisboa com Eliana, minha esposa, e Guilherme, o primeiro de meus três filhos, na época, com 1 ano de idade. Era manhã ventosa e ensolarada de maio, e meu orientador aguardava-nos no Aeroporto, levando-nos, a seguir para uma estalagem em Oeiras. Iniciava eu, assim, a minha estadia de 1 ano que resultaria numa intensa colaboração de duas décadas.
O seu Laboratório, naquele mês, recebia, de uma só vez, três brasileiros: o Professor Luiz Carlos Junqueira, um sénior histologista da Universidade de São Paulo, autor de livro e que vinha realizar o seu sabático; o Professor José Carlos Nogueira, jovem veterinário e histologista da Universidade Federal de Minas Gerais e eu, proveniente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também jovem como o Professor Nogueira.
Foi muito agradável conviver com a gente do Laboratório do Professor David-Ferreira, cada um me ensinou várias coisas. Aprendi as técnicas de microscopia eletrônica e passei a admirar a notável organização e a disciplina de trabalho impostas pelo Chefe. Isso haveria de me influenciar por toda a vida.
Rerum omnium magister usus ("a experiência é a mestre de todas as coisas", palavras de Júlio César)
A sua sensibilidade em colocar-me numa sala, dividindo-a com um outro estagiário que fazia sua Tese de Doutoramento em Dermatologia, também me marcaria, pois trata-se, hoje, do Professor Catedrático de Dermatologia desta Faculdade de Medicina, o Professor Doutor Fernando Guerra Rodrigo, com quem dividimos, eu, ele e o Prof. David-Ferreira, a primazia dos estudos que publicámos sobre o "sistema elástico de fibras da matriz extracelular", pioneiros no mundo e, até hoje, citados como referência.
Também, no Laboratório do Professor David-Ferreira, conheci pessoas do mais alto prestígio internacional no campo da ultra-estrutura celular e tecidual. Entre eles, os portugueses Pedro Pinto da Silva, António Coimbra e o casal Magalhães e, os não portugueses Arvid Maunsbach, Bjorn Afzelius, Edwald Weibel e Fritioff Sjostrand com quem tanto conversei e me aconselhei. Alunos monitores de então, hoje notórios pesquisadores, como Maria do Carmo Fonseca, Leonor Parreira, João Ferreira e António Cidadão, também tive o privilégio de com eles conviver quando, ainda, muito jovens.
De volta ao Brasil, por influência do Professor David-Ferreira, fui contratado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenador de Pós-Graduação em Histologia e Embriologia na Universidade Federal e montando um Laboratório na Universidade Estadual, passei a ter, aos poucos, a responsabilidade de receber jovens de todo o Brasil e de muitos países da América Latina que iam em busca de conhecimento e titulação em Histologia e Embriologia.
Com os conhecimentos adquiridos em Oeiras e a ajuda das Instituições de Fomento à Pesquisa do Governo Brasileiro, enquanto galgava as diferentes posições da carreira Universitária, desde Professor Catedrático até Sub-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, pude construir, na Universidade Estadual, um Laboratório de Microscopia Eletrônica, um Laboratório de Cultura de Tecidos, um Laboratório de Fotografia, um Laboratório de Histoquímica e Imuno-Histoquímica e um Laboratório de Técnica Histológica. Enfim, o celeiro que precisava para reproduzir a ciência que recebia do Professor David-Ferreira durante as oportunidades de aqui vir e permanecer por dois meses, quase que anualmente, atualizando-me e investigando.
Foram trinta e três teses de Mestrado e Doutorado, sem falar nas inúmeras Monografias de Especialização, que eu pessoalmente orientei nos Laboratórios que construí na Universidade Estadual. Entre os orientados, incluem-se jovens professores de Histologia e Embriologia de universidades de vários estados brasileiros, do Uruguai, do Chile, da Bolívia e da Colômbia. E o contato desses meus discípulos e orientandos com o Professor David-Ferreira se fazia presente nos Cursos que lá ia ministrar e nos Congressos de Biologia Celular ou de Microscopia Eletrônica que eu organizava com os meus amigos de São Paulo e Minas Gerais.
Parece-me, também, importante ressaltar as excelsas qualidades do homenageado com seu carisma e brilhante inteligência a transmitir conhecimentos para tantos jovens cientistas. Alguns vieram, depois de mim, como Maria Luisa e Alberto de São Paulo, António e Cortes do Rio de Janeiro, por períodos curtos ou longos e, outros, vieram para visitar o Professor. Todos têm a sua historia de gratidão para com o Mestre David-Ferreira, que poderá assim dizer:
Exegi monumentum aereperennius ("Executei um monumento mais perene do que o bronze", palavras de Horácio ao referir-se ao término de sua obra, as Odes)
Posso até mesmo afiançar-lhes que, naquele país imenso, não há Universidade em cujo Departamento de Histologia e Embriologia o nome do Professor David-Ferreira seja desconhecido.
Fiz colocar, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o retrato do Professor David-Ferreira como o Chefe da Escola, para que as gerações futuras se dêem conta da figura ímpar de um grande cientista que muito contribuiu para a criação do Laboratório. E, por minha indicação e seus méritos próprios, o Professor David-Ferreira recebeu, há uns anos atrás, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Nos últimos anos de nossa colaboração, fui homenageado pelo meu Professor David-Ferreira com o convite para ministrar lições no Curso de Embriologia desta Faculdade de Medicina. Honra maior, como seu discípulo, não poderia ter havido para mim.
No início da década de noventa, tive o privilégio de ter sido eleito Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, do Brasil, fundada em 1829 pelo jovem monarca Dom Pedro II, instituição que é muito ativa, que sempre congregou os expoentes máximos da medicina brasileira e que, há 170 anos se reúne todas as semanas.
Esta mesma Academia, Senhor Professor David-Ferreira, ao tomar conhecimento, na última quinta-feira, do motivo desta minha viagem a Lisboa e, reconhecendo os seus méritos na formação de cientistas médicos brasileiros, resolveu pela unanimidade do plenário, com 48 membros presentes, associar-se às homenagens que a Faculdade de Medicina de Lisboa ora lhe presta, enviando-lhe esta carta que a seguir lhe passo às mãos.
E, termino lembrando Camões:
"Quem há que por fama não conhece
As obras portuguesas singulares" (Lusíadas, II, III)