Homenagem Basílica da Estrela - Prof. Doutor José Barata Moura

Cerimónia de Homenagem a José Francisco David-Ferreira, na Basílica da Estrela, em 9 de Fevereiro de 2012, discurso proferido pelo Prof. Doutor José Barata Moura.

 

Homenagem na Basílica da Estrela
Data: 9 de Fevereiro de 2012
Locutor: Prof. Doutor José Barata Moura

Estamos aqui reunidos hoje ...porque a muitos e a diversificados títulos, somos todos amigos de Jose Francisco David-Ferreira e talvez que se fora apenas questão, agora fazer um elogio e imediatamente eu me devesse calar, dizia o Demócrito, que não é por acaso que eu me lembrei deste fragmento do Democrito ,..."que aquele que não é capaz de construir amizades não merece viver".

Toda a vida do David-Ferreira foi, a cada passo, em cada dificuldade, em cada curva mais apertada ou em momento de mais espraiada gratificação, de uma forma paciente, calorosa, humana, de construir essas pontes para a amizade. Talvez isso seja seguramente e envolvente todos estes aspectos que aqui já foram lembrados, um dos grandes méritos que nos faz sentir a sua partida.

Nós falamos muitas vezes dos maiores, são os mais velhos, são os mais antigos, são os que nos precederam e associamos a isso, quantas vezes, uma espécie de aura que adviria apenas da veterania.

David-Ferreira é de facto um dos nossos maiores, mas não por esta razão, mas pela razão da grandeza, do ele ser efectivamente um dos maiores, entre os nossos maiores.

E aquilo que nós aqui ouvimos nestes vários testemunhos hoje, foram vectores dessa grandeza que passou pela sua entrega, não apenas a uma instituição como a Universidade de Lisboa, mas as várias instituições pelas quais ele passou e em que efectivamente deixou marca, deixou cunho, deixou rasto, deixou legado, e coisa muito importante deixou também muitos que ao terem aprendido com ele, seguramente prolongarão provavelmente por linhas diversificadas, mas prolongaram o fundamental do que representa o seu empenhamento da sua vida.

Há um aspecto que eu não queria esquecer (estou a ver ali o Mário Ruivo) e que tem haver com o sentido cívico que o José Francisco colocava, punha, pôs ao longo da sua vida e em momentos complicados: não vale a pena invocar o MUD Juvenil, mas que ele sempre soube colocar e interpretar, sem se por em bicos dos pés, sem sacar de carnés que lhe pudessem trazer alguma notoriedade, mas interpretando rigorosamente essa dimensão cívica, naquilo que correspondia ao tabuleiro, à tarefa, à questão que em cima da mesa estivesse e sobre a qual ele tivesse que se pronunciar.

Neste aspecto também o David-Ferreira representa para todos nós e eventualmente para aqueles que mais perto estiverem da sua orientação, relativamente a essa actividade cívica, um exemplo, um exemplo a não esquecer, um exemplo a manter, a guardar vivo.

Diz-se que a Universidade é uma instituição muito antiga, e efectivamente é, mas o segredo da persistência de uma universidade, não é apenas a longevidade, não é apenas o triunfo sobre o Cronos, não é apenas a possibilidade de se arrastar no tempo mesmo, virando ou saltando por cima de obsolescencias várias que a assaltam em diversos momentos da sua historia.

Uma organização como a Universidade, persiste, sobrevive e continua a viver exactamente porque de dentro dela foi capaz de gerar estas figuras que a estruturam, estas figuras que lhe dão sentido, estas figuras que a prolongam.

Creio que o melhor testemunho que nós poderemos dar relativamente à maneira como o David encarava a morte, tivemos algumas conversas filosóficas sobre isso ao longo do tempo e sobretudo a maneira como o David encarava a vida, é sermos capazes de agarrar no testemunho dele e fazê-lo fortificar.
Muito obrigada a todos pela presença e creio que contraímos aqui mais do que uma dívida de gratidão, um penhor de responsabilidade por honrar o David-Ferreira na modéstia da nossa actividade que prossegue.