Homenagem Basílica da Estrela - Prof. Doutora Maria do Carmo Fonseca

Cerimónia de Homenagem ao Prof. Doutor José Francisco David-Ferreira, na Basílica da Estrela, em 9 de Fevereiro de 2012, discurso proferido pela Prof. Doutora Maria do Carmo Fonseca, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

 

 

Homenagem na Basílica da Estrela
Data: 9 de Fevereiro de 2012
Locutor: Prof. Doutora Maria do Carmo Fonseca

Eu queria continuar a falar e a pensar nos jovens e no impacto e no legado que o Prof. David-Ferreira deixa para os jovens e de facto, hoje, todos os jovens portugueses consideram que ser cientista é uma profissão como outra qualquer, mas de facto nem sempre foi assim. Hoje a sociedade portuguesa orgulha-se dos seus jovens cientistas, que recebem prémios internacionais, mas o sucesso da ciência portuguesa no presente tem um passado que eu acho que é extremamente importante nós não esquecermos, sobretudo não ignorarmos.

Houve sempre mentes brilhantes apaixonadas por desbravar a fronteira do desconhecido em Portugal, no entanto o rumo que o nosso país seguiu na metade do século passado, foi escavando um fosso de isolamento, que empurrou muitas vezes irreversivelmente, muito dos nossos melhores potenciais cientistas para o estrangeiro.

Felizmente isso não aconteceu com todos, houve um punhado de homens e mulheres, que dedicaram toda a sua vida a manter acesa a chama da investigação científica em Portugal, e foi a partir desse núcleo duro de resistentes, que tomaram forma os actuais institutos de investigação e foram também os discípulos desses homens e mulheres, entre os quais eu me encontro, que se tornaram os Professores, que atraíram para a investigação a actual geração dos cientistas portugueses e que hoje estamos a homenagear, é um desses heróis silenciosos o Prof. David-Ferreira, que importa que a sociedade não ignore no papel que teve.

Eu gostava de recordar aqui o jovem David-Ferreira, jovem estudante de doutoramento na Faculdade de Medicina, que um dia foi seduzido pelo seu orientador a ir estudar para França, para aprender uma técnica inteligente que era a microscopia electrónica. Estávamos nos anos de 1960, foi preciso lutar para encontrar uma bolsa de estudos, para o jovem fazer a viagem de comboio para França, ele podia viver em França e depois quando regressou, foi a luta por angariar fundos para poder comprar o primeiro microscópio electrónico que foi instalado no país.

Mas o jovem não ficou por aí, porque não bastava ter um microscópio electrónico, ele queria, ele tinha as suas ideias muito concretas, muito definidas, do que queria fazer e como essas ideias por vezes entravam em conflito com o status existente, ele não teve qualquer dúvida em bater com a porta, em abandonar uma carreira segura na Faculdade de Medicina e concretizar o sonho de desenvolver a sua própria investigação. Levou a sua jovem família para os Estados Unidos, para a aventura, trabalhou, teve sucesso e sobretudo teve a coragem de voltar a Portugal, na década de 1960 para ter o seu próprio grupo de investigação e dedicar o resto da sua vida a orientar novos investigadores, que muitos se encontram aqui hoje.

Hoje a ciência portuguesa está de luto e pessoalmente quero dizer que perdi uma pessoa, que logo a seguir aos meus pais, que estão aqui presentes, mais determinou a minha vida.

Foi pela mão do Prof. David-Ferreira que eu descobri o mundo da ciência, mas foi com ele que eu aprendi o valor da liberdade, da liberdade de acção, da liberdade de pensamento.

E foi ele, acima de tudo, que me inspirou a ousar quebrar tradições, a abdicar de uma pretença segurança do quotidiano previsível nos dá e a aventurar-me na busca de concretizar os meus sonhos.
E assim termino a minha homenagem ao Doutor David-Ferreira.