Homenagem Basílica da Estrela - Prof. Doutor Vasconcelos Tavares

Cerimónia de Homenagem a José Francisco David-Ferreira, na Basílica da Estrela, em 9 de Fevereiro de 2012, discurso proferido pelo Prof. Doutor Vasconcelos Tavares, pela Reitoria da Universidade de Lisboa.

 

 

Homenagem na Basílica da Estela
Data: 9 de Fevereiro de 2012
Locutor: Prof. Doutor Vasconcelos Tavares

À Família, aos amigos, aos colegas, aos alunos todos, apresento as sinceras condolências em nome da equipa reitoral da Universidade de Lisboa.

Por generosa incumbência do magnifico reitor, ausente do país como já foi dito, é com grande emoção que dou publico testemunho do profundo respeito da admiração e do afecto que o Sr. Prof. David-Ferreira sempre inspirou a todos aos que o acompanharam. Sinto-me impulsionado por um conjunto de vários sentimentos que perpassam, pela imensa gratidão ao Professor, pela enorme admiração ao cientista e pela muita amizade ao longo da vida.

Como seu amigo e colega de equipa reitoral tive o privilégio de usufruir dos seus ensinamentos, um convívio humanamente rico, por vezes familiar e academicamente inspirador.

Em 1º lugar, um amigo, depois um professor e um mestre que sou, com sabedoria, construí com amor e verdade o caminho para a realização dos sonhos enfrentando as agruras da vida.

Dizia o Padre António Vieira, num dos seus famosos sermões "Exae Quit Seminat Seminaraum" se eu semear aquele que semeia "e no desenvolvimento do seu pensamento aquele se semeia lançou as sementes do trigo tendo umas caído nos espinhos e na água onde desapareceram, outras ficaram entre as pedras tendo aí secado por falta de humidade, outras caído no caminho tendo sido pisadas pelos homens ou comido pelas aves, finalmente uma parte dessas sementes caiu numa terra boa, aí nasceu cresceu, espigou e deu uma colheita em cada grão que se multiplicou por cem."

David-Ferreira foi aquele soube lançar as sementes e alterando a ideia transmitida no sermão, pode afirmar-se que praticamente todas elas caíram em terreno fértil, o que muito diz também sobre as qualidades do semeador.

Nas varias funções que exerceu, deixou sempre uma marca de incontestável competência: veio-me à memória um pensamento que Miguel Torga nos deixou num dos seus diários "e dou comigo em plena e vizia em actividade da sinceridade do autor dos génesis nenhum criador verdadeiro mesmo que seja Deus descansa ao 7º dia", foi assim que com o seu incansável e destacado desempenho na nobre missão de Vice-Reitor da Universidade de Lisboa e de membro do Conselho de Administração da Fundação da mesma Universidade, o mestre cuja maneira de estar era ser ele próprio, e ser ele próprio era modéstia, amizade, solidariedade, dedicação, perfeccionismo, bom senso, tolerância.

David-Ferreira era um homem muito culto, de grande honestidade, conservador nos valores, nos princípios que sempre lutou, pelos seus ideias de verdade, nacionalidade e experiência intelectual, saudavelmente determinado pelos muito méritos que possuía e que apenas estão ao alcance de uma dúzia de elite, de postura calma, voz tranquila, presença afável, olhar inteligente e perspicaz, reflectindo profundos afectos é assim com esta imagem que vou querer recordá-lo para sempre .

As atenções que me dedicou e o incentivo que sempre me soube transmitir, ficarão gravados na minha memória com sentimento de profunda gratidão.

Termino estas breves palavras com a mensagem do magnifico Reitor Prof. Doutor António Sampaio da Nóvoa: "Na Universidade como na vida há mesmo pessoas insubstituíveis, são raras é verdade, mas há. O Prof. David-Ferreira é uma dessas pessoas pela inteligência, pelo afecto, pela palavra amiga, pela dedicação pela capacidade de aproximar, utilizar, de despertar o melhor que existe em cada um e nas instituições, a sua presença é grande, é plena de passado e de futuro, a Universidade deve-lhe muito, mesmo muito, muitíssimo no ensino e na ciência.
Portugal também lhe deve, sabemos bem que pessoas desta envergadura não nascem todos os dias, a morte do Prof. David-Ferreira é uma perda imensa, mas temos o dever, a obrigação de tudo fazer para honrar o seu legado para continuar o seu trabalho. É o que procuramos fazer todos os dias, Professor. Hoje, mais do que nunca, as suas palavras, os seus gestos estão connosco, tudo faremos para estar a altura da sua visão, da sua grandeza de espírito, da sua estatura intelectual e humana. Só lhe pedimos, que fique connosco, que continue connosco."