Homenagem Basílica da Estrela - Dr. Sérgio Gulbenkian

Cerimónia de Homenagem a José Francisco David-Ferreira, na Basílica da Estrela, em 9 de Fevereiro de 2012, discurso proferido pelo Dr. Sérgio Gulbenkian, pela Fundação Calouste Gulbenkian

 

 


Homenagem na Basílica da Estrela
Data: 9 de Fevereiro de 2012
Locutor: Dr. Sérgio Gulbenkian

Venho dar os meus sentidos pesamos à família e cumprimentar todos os amigos do Prof. David-Ferreira, aqui presentes.

É com grande pesar e tristeza, que me associo em nome da Fundação Calouste Gulbenkian e em meu nome a esta cerimónia civil em homenagem ao Prof. David-Ferreira.

Posso dizer que conheci o Prof. David-Ferreira, quase desde sempre, isto é quando entrei, em 1975, como jovem estudante do 1º ano de Biologia, no seu Laboratório de Biologia Celular no Instituto Gulbenkian de Ciência, o seu carisma, a sua dedicação ao ensino, o seu envolvimento na investigação e o seu entusiasmo na promoção da ciência, moldaram de modo profundo o meu percurso académico e científico, bem como o de toda uma geração de biólogos celulares em Portugal.

O treino que adquiriu no laboratório de microscópica electrónica no Instituto Gustave Roussy em Villejuif, um dos melhores na Europa na época, permitiu-lhe que no seu regresso a Portugal, em 1962, organizasse e dirigisse no Instituto Gulbenkian de Ciência, de forma rigorosa e exigente, sem esquecer a fundamental e inestimável ajuda da Karin, um dos primeiros laboratórios de microscópica electrónica do País.

Neste contexto, não tenho duvidas em afirmar, que ele foi em Portugal um dos pais da microscópica electrónica e da investigação e ensino da moderna biologia celular.

Na minha opinião o Prof. David-Ferreira, além de ter sido uma pessoa fundamental na edificação, consolidação e prestígio nacional e internacional no Instituto Gulbenkian de Ciência, que na época, estamos a falar dos anos 60, era um projecto ambicioso, com a finalidade de promover actividades científicas de um modo profissional em Portugal, uma das suas maiores contribuições foi a de treinar uma nova geração de cientistas que se tornaram mais tarde  professores e ou investigadores de renome em universidades e instituições científicas.

Do convívio diário com David-Ferreira, era notório que gostava de organizar a actividade científica do laboratório, contudo a supervisão de estudantes era de longe a tarefa que lhe dava maior satisfação, gostava de dizer que a supervisão ou 'mentorship' era o um dialogo criativo que o preenchia intelectualmente.


É interessante notar que tendo deixado o Instituto Gulbenkian Ciência em 1993, para se dedicar ao ensino na Faculdade de Medicina de Lisboa e à Reitoria da Universidade de Lisboa, David-Ferreira não ficou afastado por muito tempo e voltou uns anos mais tarde ao Instituto Gulbenkian de Ciência, a convite do Prof. António Coutinho como Professor Visitante. Lembro-me de David-Ferreira apreciar a companhia dos cientistas, aproveitando todas as oportunidades para conhecer e interagir com uma população de jovens investigadores. Recusou sempre a ser um mero observador passivo. É interessante notar que numa entrevista recente onde foi questionado sobre o seu regresso ao Instituto Gulbenkian Ciência como Professor visitante, afirmava que estava em completo desacordo com o ditado popular "de que nunca se deve voltar a um sitio onde se foi feliz".

Em nome da Fundação Calouste Gulbenkian, quero manifestar o maior reconhecimento pelo trabalho pioneiro de David-Ferreira no desenvolvimento e ensino da Biologia Celular, em particular da microscópica electrónica em Portugal.

O seu legado há-de ser lembrado para sempre, pela comunidade cientifica, que ao longo da sua vida David-Ferreira muito marcou.

Pessoalmente gostaria de dizer que foi para mim uma honra e privilégio ter colaborado e privado de um modo muito próximo, com o Prof. David Ferreira, e o mais importante de tudo ter merecido a sua amizade.