Breve Regresso ao Passado. Homenagem ao Professor Carlos Ribeiro (Texto não publicado - s/ data)

(Texto feito tendo em vista homenagem a Carlos Ribeiro pela Faculdade de Medicina de Lisboa, tendo David-Ferreira feito parte da comissão de honra então constituída)
 
Breve regresso ao Passado
Homenagem ao Professor Carlos Ribeiro

J. F. David Ferreira

O cenário de fundo desta intervenção é o coração. Coração como símbolo de amizade e estima, pela colega e companheiro de geração e pelo Presidente do Conselho Cientifico que foi.

Coração também como órgão alvo de estudo do Investigador e Professor a quem é devida uma admiração que não se esconde.

O mito do coração, como sede de emoções e sentimentos, celebrado até a exaustão por poetas e escritores, e sempre presente na linguagem corrente, é muito antigo.

A sua origem é tema de muitas especulações mas sabe-se que já os egípcios o consideravam "consciência" e "arquivo das boas e más acções" e que os seus deuses o utilizavam como testemunha no momento do julgamento final. Também se desconhece qual a origem do logótipo que o representa e que é usado universalmente como símbolo do amor e da misericórdia.

Como órgão foi ignorado por Hipócrates e Galeno que atribuíram ao cérebro, ou aos ventrículos cerebrais, as mais elevadas funções, uma opinião compartilhada pelos anatómicos da escola de Alexandria. Já Aristóteles, iludido pela aparente inércia e insensibilidade do cérebro e pelo pulsar do coração que anuncia a vida no embrião e é sinal de morte quando pára, atribuiu ao coração o estatuto de órgão central da vida.

O debate sobre o qual o órgão que anima os corpos é sede das paixões e sentimentos atravessou séculos. O "erro" de Aristóteles foi corrigido mas o mito antigo nunca foi esquecido.

Depois de um longo período de estagnação, em que o pensamento médico foi dominado pela teoria dos humores avalizada por Hipócrates, Galeno e Aristóteles, as obras maiores vão marcar a partir do século XVI um novo rumo à exploração do corpo humano. O "De Corporis Humani fabrica libri septum", em 1543, de André Vesálio e o [falta 1 linha].

Publicado por William Harvey em 1628, o Tratado de Vesálio assinala o início da consolidação da ciência anatómica a que a histologia dará continuidade a partir do século XVIII. A Obra de Harvey corresponde a uma mudança paradigmática que determinará a evolução do conhecimento sobre o significado funcional do coração. Foi ele, no dizer de Tubiana "O homem da passagem da anatomia, ciência da forma, à fisiologia, ciência da função".

 

Da anatomia à anatomia animate

De facto, e embora não se possam ignorar os numerosos e continuados contributos da morfologia, foram as técnicas fisiológicas e o método experimental que permitiram descobrir os mecanismos do funcionamento do aparelho circulatório e posteriormente explicar as suas anomalias. Mas será no século XIX que, com o método anátomo-clínico de investigação de doença e a inovação de técnicas de exploração "in vivo", se revelará a importância das doenças cardíacas na patologia humana. As doenças de um órgão que durante séculos se considerou imune à doença!

Desde então os progressos foram constantes, marcados pela introdução de técnicas cada vez mais sofisticadas de monitorização e visualização "in Vivo", que justificaram a criação da cardiologia como especialidade médica. A geração a que pertenço, e que iniciou a sua formação na década de 40, acompanhou e viveu o seu desenvolvimento.

Da recordação desses tempos de estudante e de saudade, em que conheci Carlos Ribeiro, emergem memórias de dificuldades e de revolta. Os doutores da Faculdade e do Hospital eram lugares de encontro e de convívio entre estudantes de diferentes cursos e em que além da matéria médica se frequentava a disciplina extracurricular da clandestinidade política.

As enfermarias, consultas e banco do então hospital escolar, eram lúgubres e deprimentes e muito más as condições que ofereciam à prática e assistência médica, mas paradoxalmente eram estimulantes as oportunidades que davam aos que desejavam treinar-se em práticas médicas e cirúrgicas.

A cadeira de propedêutica Médica era em grande parte ocupada pela semiologia do aparelho circulatório e não havia tolerância para quem não dominasse a arte de auscultação e não soubesse interpretar um electrocardiograma (falta 1 linha).

Foi no hospital de Santa Marta, onde as condições eram tão precárias, que floresceu uma das escolas mais notáveis da medicina clínica portuguesa, liderada por Pulido Valente e Fernando da Fonseca, e que foi infelizmente decapitado na década de 40 pelos saneamentos políticos que atingiram a Universidade de Lisboa.

 

Uma das páginas mais negras do regime de Salazar.

A recuperação não foi fácil, mas foi desse húmus de excelência que continuaram a formar-se e a destacar-se as diferentes especialidades de medicina interna.

A faculdade foi particularmente fecunda com a cardiologia, pois deu origem não a uma mas a duas escolas de reconhecido mérito.

Foi na escola de cardiologia de Arsénio Cordeiro que Carlos Ribeiro se integrou.

Não fui aluno de Arsénio Cordeiro mas tive oportunidade de o ouvir e escutar, quando ainda aluno frequentava a enfermaria do hospital de Santa Marta então adstrita ao ensino de Patologia Médica.

Alto, robusto, tisnado pelo sol das pescarias, de passada determinada e olhar firme, a sua presença não passava despercebida quando acompanhava o inesquecível e irrequieto Morais David na noite aos doentes internados.

Os longos comentários, que a sua voz forte realçava, revelavam uma erudição enciclopédica, médica e não só, que a sua memória excepcional armazenava e que o estudante permanente que era actualizava. O artigo que Carlos Ribeiro lhe dedicava, no volume recentemente publicado pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia, é exemplar na forma como retracta a sua personalidade multifacetada e fundamenta o fascínio que exercia sobre os seus colaboradores. "Líder de escola, educador de homens e formador de profissionais competentes", foi assim que o definiu Juvenal Esteves, outro grande mestre seu contemporâneo.

Carlos Ribeiro associou-se à equipa de Arsénio Cordeiro, logo que terminou o curso, e acompanhou a sua instalação no recentemente inaugurado Hospital de Santa Maria. Foi aí que completou a sua formação e iniciou a sua carreira académica que desenvolveu com sucesso, do doutoramento (1969) até ao concurso para Professor Catedrático (1979). O seu grande mérito foi dar continuidade à escola em que se formou, e para cujo êxito contribuiu fiel à matriz profissional e ética do seu fundador.

Na senda do seu mestre e mentor consolidou e prestigiou a UTIC, uma unidade de excelência no tratamento das cardiopatias isquémicas onde a assistência e investigação clínica se completam na formação pós-graduada de especialistas e doentes.

Também, e sem descurar as suas funções como clínico e docente empenhado, foi Presidente da Comissão Coordenadora do Conselho Cientifico (1991-1996), uma actividade que tive oportunidade de acompanhar e em que fez jus às qualidades humanas que lhe são reconhecidas na modernização do ensino e actualização do currículo médico, o seu mandato neste órgão de debate, aceso e de confronto, ficou marcado pela sua personalidade de homem de diálogo, que é arte de pensar em conjunto e de ouvir antes de decidir, um saber com que amenizou conflitos e gerou compromissos.

Foram estas mesmas características que assinalaram o seu mandato como Bastonário da Ordem dos Médicos, como testemunha então a ministra da Saúde, Maria de Belém Roseira. Como médico não praticante e portanto não inscrito na Ordem, não acompanhei esse seu percurso, mas não esqueço as sessões culturais que patrocinou com entusiasmo do programa Impulso Alegórico, organizado por Manuel Valente Alves.

É por tudo isto, e não só, que o Professor Carlos Ribeiro merece no dia do seu octogésimo aniversário esta homenagem. Ele foi como o seu mestre "Líder de escola, educador de homens e formador de profissionais competentes".

 

Referencias Bibliográficas

Tubiana, M. - História de Medicina e do pensamento Medico, Teorema, Editorial Lda., Lisboa, 2000.

Singer, C. - A short history of anatomy and Physiology from the greets to Harvey, Dover Public. Inc., New York, 1957.

Esteves, J. - Anamnesis memória e História, Bertrand Editora, Venda Nova, 1991.

Perdigão, C. e Valente Alves, M. (eds.), - Olhares – Fragmentos para uma história de Cardiologia Portuguesa, Sociedade Portuguesa de Cardiologia, Lisboa, 2006.

 

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