Luísa Irene Dias Amado

Entrevista com Luísa Irene Dias Amado

12 de Abril de 2013

Entrevistador: José Pedro Lindmark David Ferreira - JPDF
Entrevistado: Luísa Irene Dias Amado - LIDA


JPDF – A ideia ao fazer esta entrevista é fazer o seu percurso e da sua família e a ligação que tiveram com o meu pai José Francisco David-Ferreira.
No fundo eu queria que a Luísa me desse um bocadinho da ideia do seu percurso, onde nasceu, que cursos é que tirou? Quais eram os seus gostos? Qual a época em que vivia, no fundo para dar o contexto.

LIDA – Vamos começar quando nasci, nasci na Rua D. Estefânia em frente ao Hospital da Estefânia, o andar não sei, talvez segundo ou terceiro e aí vivi algum tempo, lembro-me que na casa havia baratas, naquela altura havia baratas em todos os prédios de Lisboa e eu era neta de um Sr. chamado (nunca conheci os meus avós, as avós morreram muito cedo, os avôs morreram em 1925, tanto um como o outro, agora como eu nasci em 1925, a minha esperança que eu tenho é que eles tenham olhado para mim mas como também não sei o mês nem o dia que eles faleceram não sei); o meu Avô, pai da minha mãe, chamava-se João Barata Dias, portanto eu se tivesse o apelido da minha mãe e do meu pai eu seria Barata Dias Amado, Dionísio também da minha mãe, ela chamava-se Irene Dioniso Barata Dias.

JPDF – Nasceu aí?

LIDA – A lembrança que eu tenho da casa de D. Estefânia é muito engraçada, porque me lembro muito bem de estar não sei porquê debaixo de uma tábua de engomar à espera do meu irmão, que havia de chegar nesse dia no Zeplim, não sei porquê, é porque depois as datas não coincidem muito bem...

JPDF – Mas quantos irmãos é que tinha?

LIDA – Só um... O Luís Osvaldo Dias Amado, tenho sempre que dizer Osvaldo para distinguir do meu pai que era Hernâni porque toda a nossa família é de "Luíses".

JPDF – É um hábito?

LIDA – Eu é que quebrei com os filhos, com os netos, o meu Pai teve pena mas quebrei porque era uma trapalhada Luís magro, Luís gordo, mais velho...

JPDF – Muito pouco pratico.

LIDA – Muito pouco pratico...

JPDF – E andou na escola onde?

LIDA – Vou contar as coisas de D. Estefânia porque de facto eu tinha um desgosto enorme porque me diziam "tu és barata; tu és barata", eu chorava imenso por ser Barata, eu não queria ser Barata mas eu no nome também não tinha o registo de Barata, eu era Luísa Irene Dias Amado, era a coisa mais simples que havia nem fui Dionísio nem nada, a certa altura não sei quando o meu irmão já tinha nascido e ele fazia 3 anos de diferença de mim, nasceu em 1928, no dia 1 de Agosto de 1928 e depois de ele nascer, não sei em que ano mudamos para a Rua Morais Soares.
Os amigos do meu pai, que eram muitos aliás, não gostavam muito e achavam que a Rua Morais Soares era um sítio um pouco triste, passavam muitos enterros para o Alto de S. João, mas isso não era um assunto que preocupasse o meu Pai, pois não estávamos à janela e portanto levou-nos para a Morais Soares e é aí na Morais Soares é que eu tenho a memória muito viva, porque foi onde eu vivi com a minha Mãe que morreu estávamos nós a viver na Rua Morais Soares, a minha Mãe morreu em 1936.

JPDF – Então ainda era nova?

LIDA – Sim.

JPDF – A Luísa?

LIDA – Eu tinha 10 anos e o meu irmão tinha 7, era novíssimo, mas não tinha consciência do que se ia passar, só sabia que a minha mãe estava muito doente, mas ainda hoje me lembro...

JPDF – Mas ela morreu de quê?

LIDA – Isso perguntou-me o Monteiro Vaz que é médico, mas eu só sei que foi de uma doença intestinal, hoje até penso que talvez fosse um cancro porque ela morreu, ela emagreceu tanto de Agosto até Maio quando morreu, ela morreu a 26 de Maio de 1936, e deixou-me a mim com 10 anos e o meu irmão com 7 e um macaco lá em casa.

JPDF – Tinham um macaco?

LIDA - Tínhamos um macaco, o Simão que era lá de casa, o meu Pai é que levou o macaco lá da Faculdade de Medicina, o meu irmão adorava, tinha uma loucura por macacos, e o macaco gostava muito de viver lá em casa, mas a mim, porque ouve uma noite que eu fiz muito barulho, porque era a passagem do ano, batia-se com os pratos, o macaco saiu de onde dormia que era no forno do fogão e o fogão era a lenha e por isso estava quentinho e era lá que ele dormia, saiu de lá e mordeu-me num braço e eu fiquei arreliada com o macaco. Evidentemente eu estava a fazer barulho e ele queria dormir e no outro dia soltou-se da gaiola e eu gostava imenso de comer umas sopinhas de pão numa agua com chocolate, não num leite com chocolate e um dia ele soltou-se e veio a correr, e a correr pôs-se no ombro e derrubou-me as papas... e portanto as minhas relações com o macaco não eram as ideais... mas o meu irmão adorava... O macaco teve de ser dado, com desgosto enorme do meu Irmão, o meu Pai não levou o macaco quando mudámos 2 meses depois da minha mãe morrer, porque o macaco ia chorar para a porta do quarto da minha Mãe, e isso fazia-nos muita impressão, muita impressão ao meu Pai e ao meu Irmão, eu nem dava por isso, talvez porque já ia à escola...

JPDF – Podemos agora avançar um bocadinho?

LIDA – Avançamos

JPDF – A escola?

LIDA – Bem mudamos assim que a minha Mãe morreu, mudámos para a Marquês de Tomar e essa casa é que foi notável, porque era Marquês de Tomar esquina com a Miguel Bombarda, e aí aconteceram muitas coisas. O meu Pai entretanto casou e quando nós mudámos da Marquês de Tomar esquina era um prédio de esquina, uma parte da frente dava para a Marquês de Tomar e a lateral dava para a Miguel Bombarda. Na outra esquina vivia a família Cunhal, portanto a família Cunhal vivia na casa da Miguel Bombarda que fazia esquina com a Marquês de Tomar, portanto era em frente, era uma diagonal por onde o Dr. José Maria Magalhães Godinho me disse uns anos mais tarde que naquela diagonal passava o "MUNAFRE"...

JPDF – Continuando... Queria que me contasse sobre a sua evolução na escola... o que queria fazer na vida?

LIDA  O que queria fazer. Eu queria escrever, primeiro eu andava sempre, para irritação do meu Irmão, que já tinha assim um espírito científico e inventava negócios imaginários que o padrinho destruía muito facilmente dizendo que ele fizesse contas e depois éramos realmente muito diferentes, porque ele tinha uma grande inclinação para as ciências exactas e não só e eu para as letras, eu adorava ler, a minha Mãe é que me ensinou a ler e a escrever e eu fui para a escola já, para a 3ª classe ...

JPDF – Directamente?

LIDA – Não, durante 1 mês fui para a 2ª classe e assim que cheguei à escola e verificaram que eu já sabia, passaram-me para a 3ª classe, na escola primária, numa rua que se chama António Pedro...

JPDF – E depois a seguir foi para o Liceu?

LIDA – Não, depois a seguir da morte da minha Mãe a vida modificou-se na nossa casa, passámos a ter madrasta, que nos odiava, a mim em especial e era muito nova talvez, ela própria para ter aquela situação, seja lá como for, nós hoje, não quando o meu Irmão estava vivo, recordando aquele período, nunca nos referíamos a ela pelo nome dela, era Açucena, nunca comprei açucenas, era a "Fera", foi um período muito difícil.....(não percebo o que disse) ...agora...

JPDF – Foi para o Liceu?

LIDA – Fui para a escola Valsassina, não 1º, fui para várias escolas à experiência, 1º fui para uma escola que havia na Rua... (hei-de me lembrar) depois fui para a escola onde fui colega da Dulce Rebelo e da Maria Eugénia Cunhal, e em que uma vez, mais tarde, me convidaram para ir a uma festa de confraternização dos antigos alunos dessa escola e que me disseram: - "lembraram-se de ti porque tu eras a menina mais triste que nos conhecíamos", e eu sou uma criatura alegre, mas naquela altura era muito infeliz.
E depois a seguir a essa escola fui para outra que era ali perto da Av. 5 de Outubro, e depois definitivamente até ao 3º ano fui para a Escola Valsassina, eu e o meu Irmão.

JPDF – E acabaram aí o Liceu?

LIDA – O meu Irmão, quando acabou a primária foi para o Liceu Camões, para o 1º ano.

JPDF – Foi aí que ele conheceu o meu Pai?

LIDA – Não, creio que não, ele conheceu o seu Pai já na Faculdade de Ciências porque para ir para a de medicina tinham que passar primeiro por 2 anos de físico-química. Foi para o liceu de Camões para o 1º ano.

JPDF – Isto foi mais ou menos quando?

LIDA – Eu tive de sair do Valsassina por causa do Decreto do Salazar, que não permitiam o ensino misto, coincidiu com o meu 3º ano, aí eu fiz exame de 3º ano no Maria Amália.

JPDF – Em 1940?

LIDA – Não, é antes, vamos lá a ver não é em 1940, quando é o Decreto de Salazar?

JPDF – Não me lembro. Mas posso saber.

LIDA – O Decreto em que proibiu o ensino misto. No 3º ano eu vou fazer exame. Os alunos... O Valsassina porque a Valsassina não é onde é hoje, era na António Augusto de Aguiar e nós para pertencer ao Ensino oficial tínhamos de fazer exame de 3º ano. No Maria Amália, portanto, fui fazer exame no Maria Amália, quando acaba esse ano sai o decreto de Salazar e o meu Pai tem de procurar uma alternativa, o meu Pai só quer ensino misto, não quer ensino de meninas em Lisboa, e só uma escola que dá ensino misto que é o Liceu Normal de Lisboa Pedro Nunes, sendo o meu Pai antigo aluno do Pedro Nunes fez toda a sua educação liceal no Pedro Nunes, foi falar com o Reitor que felizmente era o mesmo, o Padre Sá, para pedir-lhe para me receber porque eu morava na Marquês de Tomar e não era da área do município e o meu Pai não me queria em liceu que não fosse misto e o meu irmão saia do Camões e era também aluno no Pedro Nunes e era transferido.
Bem fomos à abertura do ano do Pedro Nunes e o Reitor chamou-me à reitoria e disse: - "então diz que queres vir para cá? E eu disse sim, "eu queria vir para cá"... não sabia para onde ia porque o Valsassina estava transformada em escola masculina, porque também havia os alunos que os pais estavam em África e tinha internato... mas masculina.
E portanto nessa altura eu estou na escola, o Reitor disse-me: - "queres vir para cá?"; eu respondi - "quero, o meu pai gostava que eu viesse para cá" e ele diss "vens, porque tens os olhinhos do teu pai"; isto é uma razão fortíssima e a ir para uma área que não lhe pertence porque eu morava na Marquês de Tomar... e o caminho que nós tínhamos que fazer para o Pedro Nunes, todos os dias...

JPDF – E qual foi o curso que seguiu?

LIDA – Depois tive uma grande hesitação, fiz o liceu muito bem, fiz o 7º ano, no 7º ano tinha que escolher, no 6º ano tínhamos que escolher ciências ou letras e eu escolhi letras, fui para Letras e preparava-me para ir para românicas... Havia em nossa casa uma regra, digamos, que estabelecia que o meu Irmão no dia 1 de Agosto, dia em que fazia anos e para celebrar o aniversario só queria uma pessoa para além da família, era o Padrinho Caraça, com quem havia uma ligação fortíssima..

JPDF – Estamos a falar de Bento Jesus Caraça?

LIDA – Bento Jesus Caraça, que tinha vivido como meu Pai desde os 17 anos os dois, na Rua do Sol ao Rato.

JPDF – Mas porque é que viviam juntos?

LIDA – Olhe porque o meu Pai tinha um Tio em Lisboa em casa, com quem vivia e naquela altura pediu ao Tio para sair, para ter mesada e o Caraça, porque era de uma terra pobre do Alentejo, tinha sido aluno de um liceu em Santarém e tinha sido transferido para o Pedro Nunes e eles eram como irmãos e o meu Pai, o Caraça e o Carlos Botelho não tinham Pai, qualquer deles, não, o Caraça tinha, mas o Pai era um trabalhador rural e portanto ele já estava noutro nível e eram amigos muitíssimo ligados e tinham um professor comum de matemática, o Professor Sena que foi sogro do Caraça... Agora o que acontece é que eles decidiram ir viver como estudantes, alugaram em conjunto um quarto na Rua do Sol ao Rato e iam viver desde os 17 anos até casar... ele na nossa casa era, basta dizer que no dia em que a minha Mãe morreu, não em casa, a minha mãe morreu na casa de saúde das Amoreiras no pós-operatório, o tal que deve ter sido um cancro intestinal, não sei ...e nós ficámos em casa e soubemos porque o meu Pai telefonou para casa a dizer que a minha Mãe tinha morrido e aguardávamos ansiosamente a chegada do meu Pai a casa, como deve imaginar, quando ouvimos a porta, o ruído da porta a abrir-se, fomos a correr e vimos entrar o meu Pai e o Bento Caraça, portanto passaram a ser os nossos pais e dali para diante não ouve nada na nossa vida que não...

JPDF – Mas o Bento morreu cedo?

LIDA – Sim morreu cedo, ele tinha uma doença congénita no coração, desde os 18 anos que tinha tido um reumatismo que afectou o coração e naquela altura não se faziam transfusões, nem substituições...

JPDF – Como hoje em dia...

LIDA – Sim... hoje ter-se-ia salvo...

JPDF – Mas qual é o curso que tirou?

LIDA – Mas eu estou a falar nisso, porque o Caraça teve imensa influência ...no dia 1 de Agosto, já eu tinha o curso completo e tinha de me inscrever em Setembro na faculdade, que eu decidi que seria a faculdade de letras porque a minha inclinação sempre foi letras, e para a leitura e o meu sonho era ser escritora, aliás que nunca cheguei a exercer e depois o que me aconteceu foi que naquele dia eu estava a preparar-me para românicas e o meu padrinho Caraça, que era meu padrinho, perguntou-me: - "o que é que tu vais fazer?" e eu disse-lhe que vou para a faculdade de letras, vou... -"mas para que área?", perguntou, e eu disse: - "estou a pensar ir para românicas". E ele disse: - "pois olha que vais fazer asneira, porque o futuro não está na França, o futuro esta na língua Alemã". Mas enganou-se, porque a língua alemã é muito difícil... o futuro estava na língua Inglesa.

JPDF – Mas nessa altura o estudo era feito todo em língua alemã, pois os livros científicos eram todos em alemão.

LIDA – E eles tinham levados todos os sábios para os Estados Unidos.

JPDF – Primeiro a Alemanha e depois a França, depois passou a ser mais a França e depois passou para os ingleses...

LIDA – E ele tinha uma ligação muito afectuosa com o Prof. Pulido Valente, e o Pulido Valente tinha os filhos todos na escola Alemã...

JPDF – E foi para a Faculdade de Letras?

LIDA – Não espere... eu agora, a grande dúvida da minha vida, porque ele disse tu devias era ir para germânicas... e eu disse, mas eu nem sequer sei alemão... vocês só começam a ter alemão no segundo ano, eu arranjo-te o melhor professor de alemão do País, o "Herman Flugher", que estava cá como refugiado, tinha fugido da Alemanha...

JPDF – Judeu?

LIDA – Não, a mulher é que era, ele dizia sempre: - "olha para mim tão feio, tão escuro com cabelo tão preto eu sou um ariano puro porque sou de Frankfurt" e era, os arianos não eram todos loiros... e realmente, eu conto sempre que o meu Pai nunca quis interferir nas nossas escolhas, portanto eu passei o mês de Agosto a pensar se iria para românicas ou germânicas, se ia aceitar aquele desafio de aprender Alemão num ano, para depois frequentar o 2º ano, e o Inglês eu sabia, agora o Alemão - e o português eu tinha sido sempre uma aluna excelente em português ...bem, a verdade é que eu passo o mês de Agosto, Setembro eu tenho que ir à faculdade inscrever-me, a faculdade de letras que era lá em baixo no convento do Bairro Alto, na escola onde era também a Academia das Ciências e vou por ali a baixo, pela Rua do Século, viro à direita e tal vou por ali abaixo a pensar, românicas ou germânicas? Mas o Caraça na nossa vida tinha uma influência enorme e ele tinha-me dito que era asneira, eu chego lá à faculdade de letras e no momento em que me vou inscrever ...inscrevo-me em germânicas...e foi assim!

JPDF – E tirou o curso?

LIDA – Tirei o curso todo e depois fiz aquele tempo, o curso era de cinco anos e no último ano tínhamos de apresentar tese de licenciatura. Eu aliás apresentei uma tese de licenciatura que preparei com o meu professor de alemão, Herman Flugher, que era um sábio, mas sobre uma escritora inglesa cujos livros de prosa se conhecem mas os de poesia não, e eu fiz sobre a poesia de Emily Blunt [?] que era notável e que nunca foi traduzido em português, é pena, era uma coisa que eu me proponha e nunca fiz... sabes aqueles projectos que nós temos na vida e que depois não fazemos e ficamos sempre com pena de não terem ido, mas não foram e depois já não é altura de os fazer, espero que alguém os traduza porque vale a pena... talvez um dia o Vasco Graça Moura se interesse por Emily Blunt [?], não me identifico muito com ele, mas como senhor da cultura e da tradução é genial...
Bem, mas tirei lá a licenciatura, fiz a tese de licenciatura e a seguir, primeiro, pedi para abrir uma escola e depois no ano seguinte fui tirar as pedagógicas, pois precisava das pedagógicas para ensinar e fui tirar também, simultaneamente, eu estava cheia de pena, como todos os alunos das faculdades, de entrar na vida real, temos sempre pena, de deixarmos de ser estudantes e portanto voltei à escola para tirar as pedagógicas com o Delfim Santos e todas as professoras da altura, e fui tirar também a escola S. João de Deus, lá em cima, na Escola S. João de Deus, dado pelo João de Deus Ramos, que no fim do curso para mim foi muito fácil, claro, eu já tinha as pedagógicas e tudo, ele convidou-me para eu ficar lá a leccionar a parte teórica das professoras e eu disse-lhe que não, porque eu nem sequer concordava com o método que nessa altura estava a estudar, o método Montessori e portanto achava que era mais adequado ...e ele zangou-se imenso.

JPDF – E foi fazer o quê?

LIDA – Nesta altura tinha feito um esforço muto grande, tive bastante doente, tive uns meses de repouso em que não podia fazer mais nada, mas já tinha feito as pedagógicas, já tinha o curso dado pelo Dr. João de Deus Ramos da Esc. João de Deus, mas pedi a licença para uma escola infantil, pré-escolar e evidentemente o diploma para ensinar. Fui então convocada pela PVDE (como se chamava na altura....anterior à PIDE), fui convocada para a António Maria Cardoso e fui interrogada pelo Gouveia, que tinha, nunca me esqueço na sua lapela, um lindíssimo emblema do Benfica em rubis verdadeiro e interrogou-me a perguntar pelos ...o meu Pai, mas antes de eu ir para a António Maria Cardoso eu tinha de tomar todas essas iniciativas, tinha que entrar na vida, tinha que as tomar por...

JPDF – Mas porque é que eles a interrogaram?

LIDA – Porque eu tinha sido um elemento muito activo no "MUD Juvenil"...

JPDF – E o "MUD Juvenil" passou-se em que ano?

LIDA – O MUD Juvenil passou-se... não sei, os 50 anos já fez, quando eu cheguei à faculdade, no fim da guerra, portanto eu entrei na faculdade em Outubro de 1945, foi quando se formou, porque o MUD Juvenil é o filho do "MUD", dos senhores nossos pais, era o Movimento de Unidade Democrática que foi proclamado no dia 8 de Outubro de 1945, numa sessão pública e depois nas faculdades há... vai-se a pouco e pouco organizando a parte da nossa idade, o movimento, por isso nós somos filhos do MUD...

JPDF – Houve muita gente que participou consigo nessa altura?

LIDA – Sim, comigo muitos, eu era uma entre muitos, o nosso chefe digamos, a pessoa que dirigia a nossa acção era o Mário Soares, foi meu contemporâneo na faculdade embora tivesse a acabar o curso.

JPDF – O meu Pai também participou nas reuniões?

LIDA – Ai sim, também muito.

JPDF – E conhecia já nessa altura o Álvaro Cunhal?

LIDA – Toda a vida, mas o Álvaro Cunhal é mais velho do que eu, portanto toda a vida eu não conhecia o Álvaro Cunhal porque estava preso, eu era da idade da irmã, eu nasci em Outubro e ela em Janeiro mas temos a mesma idade, fomos colegas de escola, só uma, porque ela não podia estar no ensino oficial nem nada, tinham receio porque ela chegou a ser presa com o Pai e a ser refém do irmão e até teve uma atitude muito interessante. Depois é claro que nessa altura eu sou interrogada, o meu Pai antes de eu ir disse-me: "Olha filha, o que é evidente não se deve negar, porque se é evidente eles têm prova, não vale a pena negar, só pode ser negativo para o interrogatório que te vão fazer, porque sabem que estás a mentir, não vale a pena". É claro que tudo o que quanto ele me perguntava, assinou isto, assinou aquilo, assinou o telegrama não sei o quê? O abaixo assinado eu tinha que dizer que sim, pois ele tinha lá o documento... a fotocópia.

JPDF – E depois o que é que aconteceu?

LIDA – Não me deram licença para ensinar...

JPDF – Não lhe deram a licença para ser professora ou para montar uma escola?

LIDA – Nem uma coisa nem outra, a escola até hoje nunca tive resposta e nem sequer que me passasse pela cabeça...

JPDF – Não a deixavam ser professora?

LIDA – Não, 4 anos tive sem...

JPDF – O que fez nesses 4 anos?

LIDA – Dei explicações clandestinas, porque o meu marido ganha pouco, entretanto casei, porque já estava à espera dele à seis anos e meio. Para tirarmos os cursos, naquela altura os pais não deixavam, não podiam, não casámos sem ter o mínimo assegurado, porque os nossos pais não tinham nada...

JPDF – E quando é que entrou para o Partido Comunista Português?

LIDA – Eu nunca entrei para o Partido, o MUD Juvenil não era, embora tenha muito boas relações e a prova dos 9 foi agora, quando fui convidada para fazer parte da comissão promotora do encontro e da festa de todos aqueles que, colaborando quando necessário com o Partido Comunista ou apoiando as acções do Partido Comunista ou a CDU, por isto ou por aquilo, não são comunistas nem estão filiados no partido e exactamente nessa qualidade convidaram-nos para os 100 anos, para a cerimónia comemorativa, o fecho das comemorações, todos os amigos da família Cunhal e / ou que tiveram alguma ligação com o Álvaro para demonstrar afecto dessa sessão na reitoria, alias o Reitor fez uma intervenção notável, de bem feita...

JPDF – Qual Reitor?

LIDA – O Nóvoa, porque foi ele que emprestou a Reitoria para esta sessão e ele foi o primeiro a dizer porque é que tinha emprestado a sala para a sessão e fez uma intervenção em que conseguiu fazer um texto muito bem escrito, mas ele conseguiu fazer o texto escrito só com a 1ª estrofe de cada uma daquelas  canções do antes do 25 de Abril, e depois do 25 de Abril, e está um texto muito bonito, muito bem feito...
Bem, eu fui proibida, eu era, eu cheguei ao Ministério da Educação e quando me mostraram um dossier enorme cheio de folhas amarelas e me disseram então que se queria ir ensinar teria de ter licença para ensina,r com isto e eu disse, mas eu fiz isso tudo? Eu fiquei admirada, é claro, que era tudo quanto eu tinha assinado, eu assinava tudo e ainda por cima tinha uma canção do Lopes Graça, que tinha estimulado muito a juventude para colaborar, para fazer umas coisas que ele pudesse musicar e eu tinha-lhe levado um poema, à Seara Nova, na Rua da Rosa. Ele metido naqueles livros todos, aquela desarrumação total que era muito parecida com a minha e depois aquela coisa toda e eu fui lá levar com a Matilde Rosa Araújo, eu disse: -"oh Matilde eu vou levar um poema ao Lopes Graça mas eu estava com..."; -"Eu vou consigo". Mas a Matilde era mais velha, era finalista e eu era caloira. -"Mas eu vou consigo até à Rua da Rosa, mas tenho que me vir embora para ir buscar a minha irmã que acaba uma aula, mas vou consigo ate lá, é preciso, é coragem, vamos lá descobrir o maestro"... O maestro lá estava metido entre livros e quando lá cheguei com a minha contribuição, pois disse que os jovens devem contribuir, e ele disse: -"deixa cá filha e voltas depois amanhã ou depois, eu depois digo-te, deixa cá e eu lá entreguei o poemazinho e vim-me embora e a Matilde numa correria louca porque tinha que estar na Rodrigo da Fonseca a horas para ir buscar a irmã...
Bem, o Lopes Graça, uns tempos depois edita os poemas, aquele disco dos poemas da resistência e aparece no fim um poema que se chama "Cantemos um novo dia" da Luís Irene...

JPDF – Era o seu?

LIDA – Era o meu... e musicado, foi proibido, aliás todo o disco foi proibido, como sabe. Cantemos um novo dia, era aquela esperança. E depois eu fiquei muito comovida e porque apareço só a assinar Luísa Irene pedi ao Lopes Graça para nunca usar o Dias Amado, porque a minha madrasta de então, um dia a conversar comigo, tinha dito: -"vocês um dia, por assinar Dias Amado, acabam por prejudicar o vosso Pai porque estávamos a assinar eu e o meu irmão, tudo como no bilhete de identidade e eu fiquei chocadíssima... eu prejudicar o meu Pai então de maneira nenhuma e mais tarde a contar ao meu Irmão esta cena, o meu irmão disse-me: "A nossa madrasta não fazia ideia nenhuma do que o nosso Pai andava a fazer, porque os prejudicados éramos nós se usássemos Dias Amado".

JPDF – Agora eu iria mudar um bocadinho o tema para a ligação que o seu irmão teve com o meu pai se for possível?

LIDA – O meu irmão, está ali descrito pelo seu Pai, o seu Pai entrou para a faculdade e o meu Irmão também para a Faculdade de Ciências, para os tais preparatórios de medicina e quando se encontraram, como o seu Pai diz, descreve muito bem, encontraram-se na faculdade, no jardim da faculdade, o chamado jardim botânico e começaram a ver que afinal eram almas gémeas, os interesses eram comuns e nessa altura criam uma amizade muito profunda, eventualmente em que a dado momento o meu Irmão sem saber muito bem o que queria, o meu Irmão queria ir para física ou para química mas especialmente para física ou matemática, porque o Caraça era de facto de uma influência enorme sobre a juventude em geral, mas era matemático e além disso era o nosso conselheiro, além do meu Pai, dos filhos, do meus Pai ou mais do que isso, pois os irmãos às vezes não se entendem, e portanto o meu Irmão tinha uma grande apetência para matemática, tanto que um amigo dele La Rosa e o Raul, que morreu à pouco tempo, estavam em económicas e o meu irmão acompanhou o curso do La Rosa e estudou com eles para os exames e tal de económicas, por causa de matemática...

JPDF – Mas voltando agora ao tema...

LIDA – O seu Pai e o meu irmão foi realmente...

JPDF – Onde é que passava férias?

LIDA – Eles não passavam ferias juntos, porque o seu pai também a certa altura foi-se embora para a Suécia, Noruega?

JPDF – Não, primeiro ele foi, foi já depois de acabar o curso, é que foi para França...

LIDA  Sim... mas foi embora e portanto o meu Irmão também foi, foi para Londres, mas não foi para ficar, o meu Irmão foi para Londres, para conhecer um professor de fisiologia com certeza, em casa de quem ficou de quem ficou muito amigo, e o professor queria que ele ficasse em Inglaterra, mas o meu irmão detestava viver no estrangeiro e tanto assim que depois quando teve uma bolsa para o Brasil e que foi, comprou lá um papagaio para ter uma pessoa que falasse português com ele...

JPDF – Mas então eles andaram na faculdade juntos durante o curso todo ou não?

LIDA – Creio que sim, durante o curso e não só...

JPDF – Mas o seu Pai foi professor deles?

LIDA – O meu pai era professor deles porque era assistente do Celestino da Costa e portanto, era professor deles nas práticas...

JPDF – Era nas práticas?

LIDA – Não sei nas teorias, não sei como era o curso...

JPDF – Que cadeira era?

LIDA  Histologia, era a especialidade do meu Pai, ele era assistente do Celestino da Costa.

JPDF – Mas ele foi expulso da faculdade?

LIDA – Ele não foi expulso, ele foi demitido, a nossa especialidade é sermos demitidos, ou não entrarmos...

JPDF – Mas ele foi demitido?

LIDA – Sim, foi demitido com mais 26, com o Decreto de Salazar...

JPDF – Conheço, Mas há uns que regressam, ele não regressa?

LIDA – Nunca aceitou, o Paulo Cunha gostava muito que ele voltasse, fez o possível, mas eles tinham que fazer uma declaração que nunca mais exerciam política ou que nunca mais ...sei lá... era uma vergonha voltar, isso é que era verdade.

JPDF – E por isso é que ele foi fazer clínica privada?

LIDA – Ele tinha, o Caraça já tinha sido demitido...

JPDF – Mas foi na mesma altura?

LIDA – Não.

JPDF – Foi antes o Caraça?

LIDA – O Caraça foi primeiro com...

JPDF – Houve 2 purgas grandes...

LIDA – Não, o Caraça e o Azevedo Gomes são demitidos sozinhos, por se dirigirem às Nações Unidas a pedir para não... o Salazar queria que Portugal seja aceite nas Nações Unidas porque entendia que era também uma democracia... E era mentira... A democracia foi o que os ingleses nos prometeram, mas que não houve.

JPDF – Mas eles escreveram uma carta à ONU foi?

LIDA – Eles escreveram uma carta, uma carta aberta que é muito famosa, em que assinam várias pessoas, mas nessas pessoas há duas que o Salazar resolve demitir imediatamente, os Professores Catedráticos, que são o Prof. Azevedo Gomes, da Agronomia, e o Bento Caraça, da Escola de Económicas do Quelhas, portanto eles são demitidos um ano antes deles, proíbem-nos de qualquer actividade pública porque tiveram a ousadia de escrever à ONU, de subscrever o documento a pedir que não entrassemos como uma democracia porque era mentira, porque nós não éramos uma democracia, éramos uma ditadura...

JPDF – Mas então, o seu Pai foi depois?

LIDA – Não, isso é uma segunda leva que usaram para limpar a faculdade, portanto já tinham esse exemplo.

JPDF – O seu Pai foi ao mesmo tempo que o Celestino da Costa?

LIDA – O Celestino da Costa é um caso à parte, eu nem sei se sabe porque é que o Celestino da Costa nunca subscreveu coisa nenhuma da República, ele disse isso ao meu Pai e eu tenho isso escrito pelo meu Pai, o Pedro Celestino da Costa foi morto no 5 de Outubro pelos Republicanos...

JPDF – Eu sei...

LIDA – Então se sabe, sabes porque é que ele nunca quis aderir a coisa nenhuma da República, nunca quis subscrever nada da República, porque estava marcado pela morte do Pai monárquico pelos republicanos e todos eles compreendiam e pronto... era assim, também tiveram de compreender ele pertencer à Junta de Educação Nacional para dar as bolsas, ele e o Leite Pinto, depois na Alta Cultura e a verdade é que ele foi metido por engano, ele foi metido por lá estar o meu Pai, porque o Celestino nunca se meteu em política nenhuma na vida, nunca teve nenhuma atitude política... tanto que foi readmitido rapidamente porque era um disparate, uma asneira, foi só porque aconteceu também naquela faculdade aquela invasão da policia, para dar uma grande sova aos estudantes e bateram no director, o Flores...

JPDF – mas isso foi quando?

LIDA – Olhe, foi no ano, o meu marido pode lhe dizer, o meu marido teve 8 dias a dormir de barriga para baixo com as bastonadas que levou nas costas, no ano de 19XX. No ano em que são demitidos logo os professores, o meu marido diz-lhe em que ano foi.
Agora o que acontece...

JPDF – Isto foi muito depois do "MUD Juvenil".

LIDA – Não é tudo na mesma altura... nós nesse dia estávamos no Ministério da Educação, tínhamos pedido Eu, o Valdez de Veterinária e o Wallesntein, o avô desta menina Wallenstein, da Catarina e o Carlos Wallestein, que era aluno de Direito e também era do MUD Juvenil. O MUD Juvenil era uma organização que abrangia todas as faculdades do ensino. Depois estava a perguntar o quê?

JPDF – Não, estávamos a falar do Dias Amado e do Celestino da Costa...

LIDA – Há pois... então eu vou-lhe contar, já agora, como é que o meu Pai, à sexta feira ...agora o que acontece é que o meu Pai... é sexta feira como eu lhe digo ...o meu Pai entretanto volto atrás sabendo que o Caraça tinha sido detido, eram como irmãos era mais do que um irmão porque há irmãos que não se dão da maneira como eles se davam, sabem que eles estão detidos, a oposição sabe que eles todos estão detidos e preparam-se para o pior e o meu Pai resolve montar um laboratório na rua Castilho.

JPDF – Não foi em casa?

LIDA – Nunca em casa, na Rua Castilho, onde o meu marido ainda lá trabalhou, montou o laboratório sem um tostão, com o seu nome como crédito ...para conseguir montar o laboratório.

JPDF – Isto depois de sair da faculdade?

LIDA – De ser demitido, não sair... foi à força, eu já agora contou-lhe como eles todos souberam...

JPDF – Na rádio...

LIDA  No noticiário da meia-noite, da Emissora Nacional, souberam que no dia seguinte de manhã não tinham nada, absolutamente nada, não iam ganhar um tostão de parte nenhuma, assim a noticia foi dada à meia-noite, duma sexta feira, e não foi ouvida pelo meu Pai, pois ele estava na cama e uma Tia da minha Madrasta, Mãe do Nuno Rodrigo dos Santos, portanto Avó do Nuno Brederode dos Santos, e que ouvia, ela e o marido todas as noites ouviam a BBC e à meia-noite ouviam o noticiário nacional e no noticiário nacional é que souberam o que tinha acontecido aos 26 ou 27 demitidos, e telefonam lá para casa a dizer ao meu Pai: -"olhe que você foi demitido e de todos os lugares", portanto o meu Pai de onde ganhava a vida que era naquela altura, estava nas caixas...

LIDA  Sérgio, em que ano é que foi o MUD Juvenil? Em que a PIDE entrou na faculdade? Em 1947...

JPDF – Eu só gostava de saber a sua relação com o meu Pai?

LIDA – A minha relação com o seu Pai, foi só através do meu irmão, mas como era o melhor amigo do meu Irmão, maior talvez porque ele quis se despedir do seu Pai quando sabia que ia morrer, daí a umas semanas...

JPDF – E despediu-se?

LIDA – Despediu, pediu-me para eu falar com o seu Pai, a pedir para o ir visitar porque ele queria estar com ele, não falou em despedida, mas eram assim... cientistas...
Eu telefonei ao David e o David disse-me que sim que não podia de maneira nenhuma dizer que não, mas não teve coragem de ir sozinho e pediu... (mais tarde é que eles me contaram porque é que o Mário Ruivo também tinha ido, porque ele pediu ao Mário Ruivo para ir com ele)

JPDF – Mas também era amigo do seu Irmão?

LIDA – Muito, era como o seu Pai, eram amicíssimos...

JPDF – E foram os dois?

LIDA – E foram os dois e depois de passarem lá a tarde com o meu irmão, telefonaram, o Mário Ruivo telefonou e disse-me: -"tu sabes que nós estamos perfeitamente surpreendidos, passámos uma tarde perfeitamente agradabilíssima, o teu Irmão está a par de tudo quanto  se passa no mundo da ciência, tem o computador..." ...estava a muito pouco tempo de morrer, ele sabia que ia morrer, eram 6 meses aquele cancro... -"e passámos uma tarde, pois ele está a par, porque a conversa foi entre 3 pessoas que estão a par de tudo o que se passa ...no meio científico".

JPDF – E a sua ligação com ele? Falavam muito ao telefone?

LIDA - Isso é depois, agora é muito recente, porque o seu Pai volta a falar comigo e tudo, quando é convidado para ir à tal surpresa que os meus filhos me fazem...

JPDF – A festa dos 80 anos?

LIDA – Dos meus 80 anos, porque eu digo, não quero festejar os 80 anos, porque os meus amigos já morreram todos, inclusivamente o meu Irmão, e portanto não quero, só quero vocês a jantar...

JPDF – E daí é que começam a falar?

LIDA – Só vocês a jantar, e os meus filhos o que é que fazem, convidam os meus amigos. Eu tenho uma lista com que, como dizem, posso contactar Portugal de lés a lés, e... os meus amigos que estão vivos, que não tem a minha idade de 80 anos mas andam lá próximo, são por qualquer outra razão, são pessoas com quem eu convivi muito e convidaram todos e a mim também. Eu faço anos no dia 8 de Outubro, estava no Rodízio quando nós convidá-mo-lo para lá estar, para estarmos juntos... e quando eu lá chego, eram os amigos todos de uma vida toda, os estavam vivos, esses estavam vivos...

JPDF – Então foi uma festa muito bonita!

LIDA – Foi muito comovente para mim então, estava lá o seu Pai... O seu Pai também gostou muito porque encontrou gente que já não via há muito tempo... Um deles foi o Medeiros Ferreira, que estava casado com a Emília Brederode, estava o Castro Rodrigues, que ainda está vivo, tem 92 anos e está convencido de que estou metida no aquário a fazer um tratamento... Pois disse que estou a fazer acupunctura... ele como está completamente surdo disse-me então tu metes-te num aquário com agulhas... e depois estava enfim muita gente ...e os sogros da minha filha, que vive em UFA - União de Facto, mas é a mesma coisa, mais os pais do João Manuel - o João Manuel é professor em económicas e os pais são os físicos Andrade e Silva, a mãe e o pai são da faculdade de ciências, que fizeram doutoramentos em Paris, que estavam em Paris, não por razões politicas, mas por outras, mas porque já lá estavam todos os amigos e eles achavam que os doutoramentos que queriam fazer na área da Física, que os melhores eram em Paris e resolveram ir para lá viver uns anos e levaram os filhos, foram para lá viver e conviver, estava lá o Valadares, este e aquele, estava toda a gente importante da Física e fizeram lá os doutoramentos e quando regressaram - foi antes do 25 de Abril, um mês antes ou dois sabiam que qualquer dia acontecia - e resolveram regressar e queriam que os filhos também tivessem alguma convivência em Portugal - o meu genro é professor de matemática e estatística no Quelhas, a minha filha é arquitecta, por isso não tem trabalho, o meu filho é técnico de computadores, que não tem trabalho, e tenho um neto, que não sei se vai ter trabalho, porque é Educação Física ...não sabe se há verba para lhe pagar e tenho outro que... Tem trabalho! É engenheiro informático ali no Técnico e tem ligações com a Alemanha e tudo... é o único que tem muito trabalho e tenho o meu filho com uma única rapariga, a única rapariga que está numa escola, muito engraçada, de hotelaria, que tem um estágio num hotel chamado Farol, já ouviu? Só lhe conto isto porque o hotel estava em ruína e depois apareceu esplendoroso e é ai que a escola, a faculdade onde ela anda lá no alto do Estoril esta a frequentar o curso de gestão e turismo... Sabe quem são os proprietários? Três Russos...

JPDF – Então por hoje ficávamos por aqui e depois continuamos numa próxima vez...