Entrevistador: José Pedro Lindmark David-Ferreira
Entrevistado: Mário Ruivo
MR – O que eu direi sobre o seu Pai: dividir isto em 3 fases, uma primeira fase que corresponde o período em que estou envolvido na estruturação do MUD Juvenil, constitui uma rede, digamos, em que se procura, no contexto repressivo então da época, dar voz à juventude e com uma preocupação de ser uma voz, como se diz, pluralista, genuína no sentido que era sim, certos estudantes, gente que vem das universidades, mas camponeses, trabalhadores e tal e portanto de certo modo uma máquina que permitisse estar atenta e ser sensível aos problemas que se punham fundamentais de criar um futuro para Portugal, ultrapassando o regime fascista em que estávamos envolvidos e a repressão...
JPDF – Mas estamos a falar do pós-guerra?
MR – Do pós-guerra e portanto nessa perspectiva eu diria que estamos a falar do pós-guerra e como fruto da enorme capacidade de mobilização e das manifestações que tiveram lugar imediatamente no dia da rendição da Alemanha, em que a juventude teve um papel importante e já nessa altura, mas através de mecanismos outros discretos, foi possível fazer um grande encontro entre os trabalhadores, sobretudo os que vinham do Porto com os estudantes que saíam da universidade, da Faculdade de Ciências de Lisboa, onde eu estava e quem foram romanticamente passar em frente das embaixadas dos países democráticos e livres, para dizer, chegou a nossa altura e vimos aqui dizer esperamos que estejam atentos com a liberdade em Portugal e portanto nesse período em que eu fiz parte da direcção académica do MUD Juvenil em Lisboa, e que tinha relação com os outros colegas camaradas desse período, de ter uma visão sobre a situação das universidades e portanto sobretudo os meus amigos de medicinam mais tarde por exemplo ....me falavam dentre as pessoas que estavam enfim próximas e sensíveis, a referência do seu Pai como ligado ao MUD Juvenil, o que esta na base depois [da nossa amizada], 50 anos. Mais tarde se fez uma exposição que foi um sucesso pela documentação e devo dizer que me impressionou porque aquilo que nós fizemos quase que se percebe, que a PIDe não tinha outro remédio se não destruir o MUD Juvenil, porque o MUD Juvenil tinha-se implantado à escala nacional em todo o Pais e nessa altura, como falarei mais tarde, o seu pai era Vice-Reitor uma pessoa importante na vida da Universidade de Lisboa e portanto esteve na base com o grupo que trabalhou e preparou essa exposição...
JPDF – Que até editou um livro...
MR – Que editou uma brochura que fez uma extraordinária exposição, que foi migratória e que de facto não faço a menor ideia onde é que essas peças ou totalidade ou componente esteja hoje guardada, sei que esteve na Voz do Operário, sei que migrou pelo País, etc... Portanto isto é num período que de certo modo corresponde àquele em que eu estou em França, entre 51 e 54, na Sorbonne trabalhando sobretudo no laboratório Arago a preparar uma tese sobre a sardinha...
JPDF – Mas já ligado a sua área?
MR – A minha área, etc., mas sempre com a preocupação de voltar a Portugal, porque em Portugal o que me interessava, para fazer ciência, era claro que era preciso ...terminar com o fascismo...
JPDF – Mas a sua ligação à política vem de onde?
MR – Vem de ter, como era, digamos, mais generalizado do que poderia parecer, de ter militado na clandestinidade, colaborando com o Partido Comunista português, como acontece com muitas outras pessoas, e portanto e nessa perspectiva que já antes de vir para a faculdade indirectamente, quando estava em Évora como estudante do Liceu na fase final e depois...
JPDF – Mas o Sr. é de Campo Maior?
MR – Sou de Campo Maior (isso é outra historia) estava em Évora nessa altura, portanto em 1951 eu vou para França e a minha preocupação era voltar a Portugal, porque embora continuasse ligado a movimentos clandestinos contra o regime era cá que se ganhava ou perderia a batalha e portanto quando surgiu a possibilidade de voltar a Portugal, porque eu estava bloqueado pela aquela técnica que era seguida de filtrar as pessoas nas funções eu tornei...
JPDF – Mas também foi abrangido pelo 1947?
MR – Não, não fui, nessa altura estava a entrar nesses processos todos, não fui, por exemplo, concorri para ser assistente da faculdade de ciências.
JPDF – Gostava do tema?
MR – Trabalhei com o Flávio Resende que foi o meu grande mestre, enfim com aqueles professores, os melhores demitidos e portanto não pude ser assistente, não pude continuar a trabalhar no Instituto de Biologia Marítima como investigador auxiliar ou adjunto, e portanto eu disse, bem, como vocês querem um investigador para ir estudar a pesca do bacalhau por causa dos compromissos portugueses na comissão internacional do nordeste do Atlântico, eu só volto a Portugal se voltar a estudar na área das pescas e eu paro-me no Instituto de Biologia marítima e portanto volto a Portugal em 1954 e passo a ir todos os anos com os bacalhoeiros até à Terra Nova, depois vou a bordo do Gil Eanes até à Gronelândia e depois vou nos bacalhoeiros até ao circulo polar árctico, etc., mas evidentemente com uma actividade paralela clandestina politica na luta pela liberdade pela democracia, etc., e portanto a certa altura tenho a informação por parte do director do Instituto de Biologia Marítima que tinha razões para pensar que podia haver um risco de eu ser preso e eu, nessa altura, depois de falar com amigos e camaradas e acabei por ir para Itália onde fiquei 13 anos...
JPDF – Mas o que é que o Professor foi fazer para Itália?
MR – Eu primeiro fui para Itália para não ficar em Portugal e ser preso e depois fui para Itália onde tive a possibilidade de ser recrutado pela FAO, para trabalhar no departamento de pescas que era a minha área e que tinha a sede em Roma e portanto eu faço uma carreira...
JPDF – Mas isso também foi importante para a sua carreira?
MR – Foi fundamental... a minha teoria foi sempre esta, e tive ocasião uma vez de recordar a alguém, que nos estava informar que iria ser afastado da direcção da Delegação Portuguesa ao Direito do Mar, expliquei-lhe que todas as vezes que tenha tido por forças exteriores obrigado a afastar-me da minha área profissional da ciência ...ou da minha responsabilidade social de contribuir para o pais, me tinha permitido aprender imenso: 1º fui para França onde estive na Sorbonne durante uns tempos, graças à colaboração de António Barros Machado, que tinha ligações ...consegui entrar, depois volto a Portugal quando saio da pesca do bacalhau vou para a FAO e durante 13 anos sou responsável, vou ascendendo e acabo por ser director da Divisão de Recursos e Ambiente Aquático, tenho colaboração por todo o mundo, etc. (não vale a pena entrar neste processo) e quando volto a Portugal acabei por ser Secretário de Estado das Pescas do 2º governo e não do 1º porque estive...
JPDF – Foi o 1º do Palma Carlos?
MR – Sim, no 1º eu vinha cá todos os fins-de-semana para tratar de criar a Secretaria de Estado, porque achei que era demasiado, tinham-me proposto o Ministério das Pescas e Mar e eu expliquei que achava que as pescas em Portugal era grande demais para ser uma direcção geral e pequena demais para ser um Ministério e que o melhor era uma Secretaria de Estado, não é? E assim foi.
JPDF – Mas foi no 2º?
MR – Foi do 2º ao 5º, do 2º ao 4º, foi de Secretário de Estado das Pescas e depois fui Ministro dos Negócios Estrangeiros no 5º governo e portanto mais uma vez a minha experiência das Nações Unidas nesta parte final foi interessante, isto para explicar que estive fora 13 anos e portanto durante esse período evidentemente, acompanhava e cooperava activamente e tinha uma rede de informação muito razoável, mas perdi o contacto com o dia a dia, evidentemente, com as pessoas e portanto quando volto a Portugal insiro-me activamente na busca de recompor o País e de contribuir o melhor possível com a experiência adquirida e é nesse contexto que cada vez mais e em paralelo com a minha actividade profissional, como investigador na área do mar, vou simultaneamente estar envolvido onde já tinha estado antes de sair da 1ª vez, que é a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais de que fui secretário, de que fui militante activo também, eu quando sou militante não tenho pejo de dizer que ponho activo, não sou capaz de ser decorativo, e portanto nessa perspectiva uma das preocupações no pós-25 de Abril em que era preciso recuperar a estrutura digamos dos mecanismos que dessem voz à sociedade civil, e que houve vários sectores, começamos a pensar que era importante tentar não só revitalizar as sociedades cientificas que tinham um papel importante, tinham tido um papel importante como estruturas paralelas...
JPDF – Que estavam moribundas?
MR – Não estavam moribundas, estavam algumas até muito activas, activas dentro do condicionamento geral e portanto, primeiro, de selectividade com que eram constituídas, que controlo era sobre elas exercido, sem falar da censura e nas publicações e portanto digamos de reactivar as sociedades cientificas vistas num sentido abrangente, não é? Que permitisse dar voz à comunidade cientifica que de resto tinha tido um papel também activo na luta anti-fascista, através das ligações que sempre mantiveram com a confederação mundial dos trabalhadores científicos, etc., e portanto nessa perspectiva surge na sociedade portuguesa de ciências naturais a ideia de que era importante tentar criar uma federação que tivesse um papel de mobilização e entre ajuda, entre as sociedades cientificas esse processo demora vários anos.
JPDF – Qual era a razão, a necessidade?
MR – A necessidade já lhe digo, a Federação tem por objecto a promoção e a representação dos interesses comuns das associações associadas, no quadro da inserção da ciência e tecnologia na sociedade e cultura portuguesas e na perspectiva de um racional e harmonioso aproveitamento dos recursos materiais e humanos, assim como no âmbito de uma cooperação internacional alargada, nomeadamente à escala europeia, quer dizer as sociedades científicas que tinham sido constituídas algumas delas à cem anos quase e que tinham uma vocação muito sectorial muito especifica, estamos agora a falar de 1974 e já com uma Europa...
JPDF – Em expansão?
MR – Em expansão, em recuperação da guerra e portanto com um diálogo que passa, que é inspirado pela visão do papel e da responsabilidade social da ciência e dos cientistas e por outro lado em que progressivamente aquilo que viria a constituir um objectivo da interdisciplinaridade da multidisciplinaridade estava completamente fragmentado e por tanto nessa perspectiva e as sociedades estavam, a níveis muito diferentes e havia algumas sociedades activas e pujantes e outras coitadas que sobreviviam devido a um grupo limitado de militantes activos de membros activos sobretudo numa espécie de simbiose com instituições, como por exemplo a Faculdade de Ciências de Lisboa em particular o Instituto Botânico com o Prof. Flávio Resende, com o Torres Assunção na Geologia, etc., bem foi um ninho de sociedade portuguesa de ciência naturais e de sociedade portuguesa de geologia, etc., e depois havia outras sociedades enfim na área médica, na matemática...
JPDF – Na Geografia?
MR – Na sociedade portuguesa de química, etc., não é? E portanto nessa perspectiva começa a haver todo um diálogo, eu direi que os antigos membros do MUD Juvenil constituíram uma rede, apesar de tudo, de amizade, de estima e de reflexão ao longo dos anos sobre estes problemas e conseguimos organizar em 1989, entre 16 e 17 de Julho o 1º Encontro Nacional das Associações das Sociedades Cientificas, que entre outros objectivos decide criar a Federação Portuguesa das Associações das Sociedades Cientificas e a Federação, como já acabei de dizer à pouco, tem este objectivo e portanto na promoção dos objectivos estatutários promover e facilitar a recuperação da ajuda mútua entre as instituições e assegurar a representação das instituições, junto de quaisquer entidades publicas ou privadas no estrangeiro ou internacionais, elaborar estudos e pareceres no âmbito do objectivo da federação, por iniciativa própria ou solicitação, promover a mútua acção das associações associadas, estimulando o apoio às suas actividades, criando serviços de interesses, intervenção, optimizando os meios, etc. ... todas elas tinham grandes dificuldades, secretaria, etc. ... no gabinete do Galopim de Carvalho havia 4 armários (e nós de brincadeira dizíamos que aqui estão as 4 sedes de 4 associações cientificas) contribui para a aplicação das descobertas cientificase tecnológicas que conduz ao desenvolvimento económico e social, salvaguardando o ambiente e a qualidade de vida em 1989...
JPDF – Ninguém falava disso...
MR – Portanto estamos a falar da aplicação ao desenvolvimento económico, no respeito ao ambiente ou seja no elemento sustentável, que foi depois o direito de cidade com a primeira conferência do Rio de Janeiro e com a comissão de Brunkland.
Contribui para o debate nacional e internacional sobre as implicações sociais e éticas da ciência e tecnologia, desenvolve acção de estudos e sensibilização no âmbito dos objectivos, contribui para o fomento da investigação e como as actividades ligadas ao ensino e a divulgação cientifica, tudo isto era uma vastíssima área de intervenção e é neste contexto que nesta fase preparatória, digamos nós, tenho aqui até os apontamentos dessa altura e tal, Sócios da Associação portuguesa Sociologia ver com o Nelson quem é que pode fazer, etc. ... e a 1ª tentativa de quem é que poderia vir a ser a Direcção e na 1ª eleição ... um dos activistas deste grupo, conjuntamente com o Galopim, foi o José Guerreiro, etc., e o seu Pai David-Ferreira é que vem representar a Sociedade Portuguesa de Microscopia Electrónica e Biologia Celular e portanto que é eleito connosco e que vai até à sua morte como membro da direcção, que flutua apesar da FEPASQ ter entrado num período, digamos, que praticamente foi perdendo a capacidade operacional, por dificuldades da direcção e da própria composição das várias, enfim, da heterogeneidade e ao mesmos tempo dos problemas que puseram as associações e, portanto, como eu já tive ocasião de referir nos últimos anos, digamos havia um triangulo, um tripé que manteve a FEPASQ que era Galopim, o seu Pai e eu ...e com o peso do seu Pai praticamente isto transformou-se numa simbologia assim como um pau esticado com roupa que qualquer vento pode fazer cair e nessa perspectiva estamos nesta altura e faço também uma homenagem a todos os que colaboraram e lutaram, por isso, que é fazer o 2º congresso das Associações Sociedades Cientificas, estamos a ver se fazemos no final deste ano ou no principio do próximo ano, e ver se esta herança flutua e adquira outra dimensão, etc., e é nessa fase final que eu passo a ter um contacto muito regular directo telefónico, etc., para entre o seu Pai, o Galopim e eu, irmos procurando fazer flutuar varias iniciativas, seminários que foram organizados, debates públicos, participação em várias instituições e digamos uma intervenção directa para tentar digamos condicionar de maneira positiva e desencapsulando organismos como a JNICT e outros que às vezes ficavam um bocado consoante a conjuntura politica, mais fechados sobre si próprios e sem abertura à comunidade cientifica e na mesma sociedade e nesse aspecto digamos este processo é o que nos leva a ter um contacto mais regular e a consultar; eu apreciava muito ...olhe ...reactivar a preparação para o seminário sobre o Comunidade Científica e Poder, a realizar em Nov. ou Dez de 1991, procurando encontrar soluções com o segundo encontro nacional de produções liberais, tomou-se nota que estão em curso contactos com potencias participantes e autores de comunicações, por parte de coordenador do simpósio, a Profª Maria Eduarda Gonçalves e responsáveis Mário Ruivo e David-Ferreira.
O seu Pai era uma pessoa que eu consultava muito e trocávamos muitas impressões porque era uma pessoa com muito bom senso ponderado, com um sistema de valores éticos e de princípios muito sólidos e que conseguia digamos manter sua qualidade de investigador ...com um sentido de qualidade de excelência e simultaneamente com um sentido de responsabilidade social da actividade cientifica e do ensino e da formação e ao mesmo tempo com a coerência de intervenção através de muitos dos aspectos que eu desconheço e que estão seguramente na memória de quem com ele colaborou e que eu tive a ocasião de acompanhar e em que ele foi militante activo da federação e das iniciativas e seminários, etc., para transformar estas ideias em coisas concretas.
JPDF – Mas isso foi durante uma série de anos, desde 1991 até agora? O ano passado, o meu Pai falava com muito agrado das conversas entre os 3...
MR – Porque nós nos encontrávamo para tratar disto e é evidente que até, como à bocado chamámos à atenção, que a gente queria desenvolver isto no espírito do ambiente e o ambiente era o quadro politico nacional e internacional e portanto como nós tínhamos uma confiança total, os 3 uns nos outros, evidentemente que tínhamos que colocar o problema da ciência e da tecnologia da evolução em Portugal, do problema da relação com a União Europeia, das relações internacionais com outras instituições e as conversas, é como as cerejas não é? E falávamos muito e sobre tudo, como eu lhe disse, quando havia problemas complexos e de interface eu consultava muito o seu Pai, porque era uma pessoa que olhava para os problemas de forma muito séria, profunda.
JPDF – Muito obrigado por esta informação e por esta conversa, mas queria só perguntar uma coisa que a Luísa falou: "os Figos"? Ela falou-me com muita piada lá no Ministério dos Negócios Estrangeiros...
MR – Não, essa é uma historia ...os Figos é muito simples, eu quando estive a estudar em Lisboa e tive grandes dificuldades, o meu pai era um funcionário público e com o meu Avô estiveram envolvidos na implantação da República na nossa terra, em Campo Maior, foram eles que hastearam conjuntamente com outras pessoas a bandeira da República, tudo leva a crer que o meu Avô era carbonário e esteve muito activo, o meu pai foi também um activista republicano, amanuense na câmara municipal, evidentemente que é uma terra como Campo Maior, isso criou-lhe problemas levados da breca e a certa altura ele decidiu sair de Campo Maior, concorreu para ser tesoureiro da Federação da Republica, era um homem muito trabalhador, muito metódico, muito ordenado e tal...e entrou para um desses lugares e foi 1º tesoureiro em Borba, eu tinha 3 anos quando sai de Campo Maior e depois conseguiu ganhar o concurso para o 2º lugar para Estremoz, depois foi para Évora porque a preocupação dele era poder criar condições para os filhos puderem estudar..
JPDF – Tirar um curso?
MR – Tirar um curso, ele que tinha tido um...era praticamente um auto-didacta que tinha feito coisas 'ad doc', etc. ...isso é outra historia. É portanto nessa perspectiva que quando eu vim estudar para Lisboa foi um esforço enorme e portanto...
JPDF - Do ponto de vista financeiro?
MR – Financeiro: eu fiquei em casa de um tio, que era velho republicano, portanto, tinha a medalha de torre e espada ganha na batalha La Lys, e que foi um dos comandantes da guarda republicana na 1ª revolta militar contra Salazar, no Rato, em 1927, salvo erro, Capitão Vieira...
JPDF – Durante a Ditadura Militar...
MR – Foi quando eu fui preso pela PIDE, foi em casa do meu tio e portanto nessa altura é que eu estava a ver o que é que eu podia fazer e por causa do MUD Juvenil e tudo isto os meus horários eram muito erráticos e portanto o dinheiro dava-me para ter figos secos, daqueles com pozinho de farinha e às vezes um chocolate daqueles das ciganas, que elas traziam de Espanha ...e depois essa história toda a gente sabia que eu andava sempre com um stock de sobrevivência, que já vinha de trás e que serviu depois mais tarde noutros concursos que agora não vem ao caso...
JPDF – Está bom Professor, queria lhe agradecer imenso este bocado...
MR – Não sei se para si isto ajudou..
JPDF – Não, ajudou bastante e depois se precisar aprofundar e ver depois algum tema que falte eu falaria depois consigo.
MR – Também eu posso depois, também, a certa altura é ver com mais atenção...
JPDF – Ver o que me poderia ceder para eu fotocopiar porque poderia dar jeito para o trabalho que eu tenho a seguir...
MR – Aqui a Associação Portuguesa ...porque a gente tinha uma grande dificuldade é que as sociedades por exemplo as médicas, já eram sociedades que tinham outro ...outro estatuto, não é, e o seu pai tinha a vantagem digamos de estar entre os dois porque era aceite pelos médicos e ser aceite pelos biólogos e tal e portanto isso foi uma coisa positiva...
Se eu encontrar aqui algumas coisas, coisas mais específicas depois procuraria, digamos, ver...
JPDF – Fazer uma selecção?
MR – Exactamente ...esta fase que depois prepara as conversas que em paralelo já não tem nada a ver com FEPASQ mas que são ligadas com as funções do seu Pai como Vice-Reitor e portanto cada vez que havia necessidade de fazer qualquer coisa com a universidade, ele pedia, era normalmente das pessoas intermédiárias que se permitia digamos estabelecer os contactos preliminares e acordar acções conjuntas e como é que isto existe ...escapou isto às actas e pronto, e os jornais e esses livros que saíram 4 ou 5 volumes importantíssimos, "Ciência e Poder", etc., etc.
JPDF – Já ligados a FEPASQ?
MR – Sim, com o patrocínio da FEPASQ, agora com estes livros...
Conhece a Prof.ª Maria Eduarda? Ela é professora de direito no ISCTE, mas dá cursos lá na Universidade Nova.
JPDF – Como é que ela se chama?
MR – Maria Eduarda Gonçalves e era coordenadora de muitos desses seminários, entre eles o seminário de "Ciência e Poder"...