Intercâmbio Científico Portugal-Brasil: o papel do Instituto Gulbenkian de Ciência (Discurso - 1971)

 

José Francisco David-Ferreira – Discurso, Brasil, 1971-1972

Agradecimentos

Todas as formas de intercâmbio entre dois países, quando baseadas em princípios de igualdade e de respeito pelos interesses de ambas as partes, constituem factores de paz e de progresso.

Brasileiros e portugueses tem boas razões para desejarem um intercâmbio cultural activo entre os dois países:

1 – Têm uma boa parcela da sua história em comum;
2 – Utilizam como instrumento cultural o mesmo idioma.

Têm interesses comuns a defender, que passam por outras regiões do mundo – muito concretamente aquelas em que se fala o português.

Por estas razões não é de estranhar que a vontade política de fomentar a cooperação entre Brasil e Portugal seja repetidamente expressa em tratados assinados entre os dois países.

Homens de Estado e políticos proclamaram ainda recentemente, em cerimónias bem vistosas, esse desejo comum que tem como base interesses e sentimentos.

Vontade politica existe, mas como dizia Pessoa, "tratados são papeis pintados com tinta". São a expressão de intenções a que é preciso dar vida com acções concretas.

Também não se pode dizer que haja falta de recursos para estimular o intercambio cultural luso-brasileiro. As agências próprias dispõem, em ambos os países, de meios suficientes para concretizar um bom número de acções.

Elas também assinaram convénios e declarações de intenções suficientes para dar cobertura a muitas iniciativas.
Apesar de tudo isto ser reconhecido por todos, na prática o número de acções é limitado e muito descontínuo.

Quais são então os factores limitantes do aprofundamento das nossas relações culturais. O que é que nos separa?

1 – A distância
2 – As deficiências de comunicação
3 – A falta de empenhamento

A distância já não é um problema do nosso tempo. A escassez de informação e a falta de empenhamento dependem só de nós.

É por isso que no quadro desta conferência me propus tratar de três tópicos – directamente relacionados com uma instituição a que pertenço e a quem se devem muitas acções na área das relações culturais entre os nossos países.

  • O que é a Fundação Calouste Gulbenkian?
  • O que é o Instituto Gulbenkian de Ciência?
  • De que forma pode o IGC contribuir para fomentar o intercâmbio científico entre Portugal e o Brasil?

Como todos sabemos, desde os finais do século XIX que as investigações biológicas, em particular as ciências biomédicas, tem sido uma área privilegiada para o exercício de acções de carácter filantrópico. Compreende-se que assim seja. As actividades médicas são marcadas, nas suas formas mais nobres, por um cunho essencialmente humanitário. Não é pois de estranhar que ao longo dos séculos tenha sido escolhida pelos ricos e poderosos como terreno de eleição para o exercício dos seus sentimentos de generosidade e de compaixão. Desde a forma simples de donativos a doentes e hospitais, até às formas culturalmente mais complexas que orientam as fundações modernas a filantropia tem sido um fonte permanente mobilizadora de meios.

De facto, seja à beira de um leito de Hospital ou num laboratório de investigação, o exercício da medicina tem como objectivo a curto ou a longo prazo limitar o sofrimento, combater a doença ou afastar a morte.

A verdade porém é que a investigação moderna já não é uma actividade artesanal e romântica que era no princípio do século.

Exige instalações próprias, aparelhagens complexas e dispendiosas, requer para funcionar, pessoal numeroso e especializado. Em suma meios financeiros consideráveis só excepcionalmente obtido através de fontes privadas. É por isso, e porque se reconhece o seu valor social que nos países culturalmente e economicamente desenvolvidos o Estado vem assumindo os encargos que a investigação comporta. Apesar disso, mesmo nos países em que são atribuídos nos orçamentos ordinários meios consideráveis para a investigação, a filantropia individual ou de associação, continua a ser o grande recurso suplementar com as suas características próprias de elasticidade, ousadia e inovação.

Pelas suas características humanitárias, a medicina, cuja evolução tem sido nitidamente marcada por grandes institutos de investigação concebidos e subsidiados por doações privadas – e recordo aqui o Instituto Rockefeller, o Sloan Kettering, a Fundação Carnegie, etc. –, continua a ser priveligiada. A maior fundação privada de sempre, o Hughes Institute for Medical Research, criado à poucos anos, tem um património superior a 3 biliões de dólares (150 biliões de cruzados). A Fondtion Nationale pour La Recherche Medicale que é uma associação privada francesa com o objectivo de promover a investigação biomédica em França, despendeu, em 1980, 1 milhão e setecentos mil dólares (80 milhões de cruzados) nos seus programas de acção.

Nos nossos dias as iniciativas filantrópicas mais do que actos de caridade são actos de cultura.

Os homens acreditam na Ciência como factor de progresso e de bem estar social.

Por um conjunto de circunstâncias felizes também os portugueses beneficiaram, a partir de 1956, de uma fundação moderna cujos fins, conforme consta do artigo 4 dos seus estatutos, são caritativos, artísticos, educativos e científicos.

Foi um acto de cultura do Senhor Gulbenkian. 

O senhor Gulbenkian nasceu na Turquia em 1869, filho de Pais arménios. Diplomou-se em Engenharia pelo Kings College de Londres tornando-se perito em questões petrolíferas. Desempenhou um papel importante na organização do Grupo Dutch-Shell e deu uma contribuição importante no desenvolvimento da indústria petrolífera no Golfo Pérsico. Foi ele que negociou o estabelecimento de várias companhias petrolíferas ocidentais no Médio Oriente. Em resultado dessas negociações foi-lhe atribuído a título de compensação uma participação de 5%. Em 1942, durante a II Guerra Mundial, Calouste Gulbenkian instalou-se em Portugal, onde viveu até à sua morte em 20 de Julho de 1955. 

Grande amador de arte reuniu durante a sua vida uma notável colecção de obras de pintura europeia (Durer, Rembrandt, Rubens, Van Dick, Frans Hals, Corot, Degas, Monet, Renoir, etc.), esculturas egípcias, cerâmicas, manuscritos, tapeçarias, mobiliários, joalharias, moedas gregas, etc.. De acordo com o desejo do Sr. Gulbenkian as suas obras de arte, mais de três mil – foram reunidas num museu que hoje se encontra junto da sede como parte de um complexo de que fazem parte – um magnífico auditório, salas de exposição temporárias, um museu de arte moderna, conjunto situado na Av. De Berna junto à Praça de Espanha, em Lisboa.

A Fundação Calouste Gulbenkian dispõe de meios que a colocam entre as grandes fundações mundiais, tem nos termos do testamento, que a criou, fins caritativos, artísticos, educativos e científicos.