As responsabilidades dos cientistas como professores e educadores (Palestra - s/data)

"As responsabilidades dos cientistas como professores e educadores"

(J. F. David-Ferreira)

Foi com muito gosto que aceitei o convite do Prof. João Lobo Antunes, estimado colega e amigo, para participar neste programa. O convite foi certamente motivado pelo conhecimento que tem do meu percurso.

É sabido que durante sessenta anos de actividade profissional percorri todas as etapas da carreira como professor, de monitor a professor catedrático e como cientista, de bolseiro e estagiário a líder de um grupo de investigação.

A minha intervenção baseia-se no que aprendi com os mestres que tive, no que li em mestres ausentes, mas presentes e das experiências que vivi.

Um aviso-prévio para os que me ouvem: a experiência não se transmite, vive-se e conta-se, cabe aos que escutam reflectir e tirar a moral da história.

Dividi o tema: Responsabilidades dos professores e cientistas como educadores em três tópicos: (1) responsabilidades éticas em relação aos pares e colaboradores (2) em relação à sociedade e (3) em relação aos educandos e discípulos.

(Nas sessões anteriores já foram tratados pontos que me propunha assinalar, mas não vejo inconveniente em eventuais repetições úteis, até para enfatizar a sua importância.
Eu mesmo repetirei reflexões já feitas, sob os dois primeiros tópicos numa intervenção que fiz, transcrevendo mesmo parte dessas reflexões que considero oportunas até porque desactualizadas em relação aos tempos que vivemos (que se vivem).

No exercício da sua actividade e nas relações com a comunidade a que pertencem, nomeadamente com os seus pares colaboradores e discípulos, os cientistas, cujo objectivo é produzir conhecimento confirmável, obrigam-se tradicionalmente a respeitar um código não escrito que se fundamenta nos princípios que tem governado o desenvolvimento da ciência moderna.
São princípios que Robert Merton analisou e a conjunto e que deu a designação de "Ethors" da Ciência.

André Cournand reformulou mais tarde esses princípios de forma a integrarem referências explícitas às normas de conduta que devem guiar os cientistas na sua actividade. Em conformidade com essas normas a primeira obrigação é a de serem íntegros e objectivos nas suas investigações, capazes de reconhecerem a prioridade dos que os precederam e de dominar a sua vaidade própria.
A tolerância para com as opiniões dos colegas, a capacidade de questionar o estabelecido, são conjuntamente com a dedicação desinteressada pelo progresso do conhecimento e respeito pelo espírito comunitário da Ciência outros dos princípios que devem orientar a sua conduta.

Eram estas as normas quando a actividade científica respeitava um universo reduzido de profissionais e profissões e era realizado em condições muito diferentes das que se verificam hoje.

A sua transgressão, não tinha punições previstas na lei, mas implicava a perda de credibilidade e o isolamento profissional. Era uma questão de honra. Para um grupo social cujo principal prémio, além da realização individual, é o da admiração e respeito dos seus pares e da sociedade, isso significava um castigo muito sério.

O desenvolvimento da Ciência e a proliferação das tecnologias a que tem dado origem (e que o tem sustentado) foi acompanhado pelo crescimento explosivo do número de profissionais que lhe estão associados e pela sua especialização crescente.

A influência do "colégio invisível" na manutenção do código de conduta tradicional diluiu-se por um número crescente de especialistas e sub-especialistas de que tem resultado a perda de coesão da comunidade científica.
Os cientistas cuja actividade estava inicialmente associada a um número limitado de profissões foram-se integrando em diferentes actividades profissionais o que originou conflitos de valores, de interesses e de lealdades, que tornaram aparentes muitas contradições.

A erosão das normas de conduta reflectem essas contradições.

• Como garantir a própria sobrevivência sem submissão às condições impostas pelo poder estatal ou empresarial na sua actividade como funcionários
• Como conciliar os ideais da dedicação desinteressada pelo conhecimento e o princípio comunitário da Ciência, com a competição desenfreada pela prioridade ou pelo prestígio indispensável à obtenção de financiamentos para prosseguir, numa época em que todos são subsídio-dependentes?

Os cientistas além de humanos estão inseridos numa sociedade cujos valores influenciam a sua conduta. É assim que para criarem uma imagem de sucesso deixaram de respeitar de forma crescente e aberta algumas normas.

O aproveitamento indevido dos "media" para anunciar resultados ainda não atingidos nem previamente comunicados à comunidade a que pertencem são exemplos menores desses desvios.
A revelação em conferências de imprensa de descobertas ou feitos técnicos, além de alimentarem o ego dos seus autores e especulações sensacionalistas têm contribuído para divulgar uma imagem destorcida da ciência e dos seus profissionais. E há os praticantes compulsivos de modalidade de auto-geonificação e auto-promoção que difundem de forma acrítica pela Internet.

A competição não só por glória, mas também por financiamentos, originaram desvios que criaram no seio da comunidade um ambiente de desconfiança gerador de secretismo na divulgação de resultados o que favorece as divisões em famílias e clãs que se espiam e guerreiam.

[Há a história emblemática das laranjas e das ideias imaginada por

• se tu tiveres uma laranja e eu tiver uma laranja
se eu te der a minha e tu me deres a tua, cada um continua a ter uma laranja
• mas se tu tiveres uma ideia e eu tiver outra ideia
se tu me deres a tua e eu te der a minha cada um de nós ficará com duas ideias.

Isto era no passado, hoje o que um cínico dirá é que cada um se cuide, pois pode receber em troca uma laranja estragada ou uma ideia enganadora]

O aproveitamento indevido, ou não reconhecido, de resultados de colegas e colaboradores para proveito próprio, ou de terceiros, de informações obtidas no exercício de funções de revisão ou de avaliação, a manipulação de resultados experimentais de forma a co-substanciarem hipóteses e o plágio, são desvios e abusos cuja aparente frequência e divulgação tem originado polémicas que abalam o prestígio dos envolvidos e das institições a que pertencem.

Sinais do tempo já que levaram à criação de estruturas institucionais para análise de fraudes e para a reunião de provas incriminatórias dos seus autores.

A fraude científica não é um fenómeno recente, mas há indícios pelo número de denúncias que tem aumentado.

Arnold Redman, Professor da Universidade de Columbia, comentou que as causas da fraude se podem explicar ou pelas fragilidades próprias à natureza humana ou pela forma como se processa nos nossos tempos o trabalho científico.
O inadequado acompanhamento e supervisão dos mais jovens, as pressões a que estão sujeitos para publicar (Publish or perish) o aumento crescente da competição para obter financiamentos, posições, promoções fazem parte do rol de condições próprias para o aumento das fraudes desvios.

São por isso oportunas medidas preventivas como a divulgação das normas de conduta responsáveis, a penalização dos infractores e a diminuição das pressões burocrático-administrativas para a publicação precipitada de resultados.
A constituição de comissões de ética a nível institucional e supra institucional são uma das formas de zelar pela integridade do sistema científico.

Desde a medicina hipocrática que a prática médica inspirou normas para estabelecer e preservar junto dos pacientes a confiança indispensável à prestação de cuidados de saúde.
Em tempos mais recentes a necessidade de experimentar nos humanos novas terapêuticas ou métodos de diagnóstico foi acompanhada de abusos.
A sua condenação por profissionais e associações responsáveis têm contribuído para a moralização de certas práticas e para as defesas dos direitos humanos. Hoje consagrados em documentos internacionais.

A institucionalização universal da Bioética tem tido dois objectivos: fornecer aos profissionais da Ciência e da medicina referências sobre os limites de acção socialmente aceitáveis e assegurar a representatividade da sociedade no estabelecimento desses limites e na definição das normas de referência à elaboração de legislação adequada.

Uma das áreas em que mais controvérsias se geraram foi a da investigação médica e das biotecnologias a que tem dado origem, nomeadamente nas áreas da reprodução, dos transplantes, da engenharia genética, da clonagem, das células estaminais ...

As possíveis ou imaginadas aplicações da biotecnologia, largamente difundidas e comentadas abalaram consciências sobretudo pelos desvios (imaginados) a que sua utilização se prestaria se não fossem devidamente regulamentadas.
Até alguns dos mais prestigiados e informados se tornaram paladinos de uma ética proibicionista e de legislação severamente permitiva. Outros porém advogaram o exercício do bom princípio da precaução e recordaram como o fez René Frydman que a Medicina "c'est toujours developée en frachissant des interdits".
Foi assim com o estudo do corpo humano e com o estudo das autopsias, com a vacinação, com o uso da anestesia, com as transfusões de sangue, e mais recentemente com a reprodução medicamente assistida e com a clonagem.
O que bom senso aconselha na prática é precaução e moratórias.

[não esquecer velhas máximas como
Ciência sem consciência não é Ciência (isto é sabedoria)
Ou a que afirma "que em Ciência o que é possível experimenta-se e faz-se"]

O conhecimento público da crueza de experiências realizadas em animais tem originado em sectores mais sensíveis da sociedade, movimentos abolicionistas da experimentação animal.
Apesar dos exageros e excessos é bom que esses movimentos de opinião se manifestem pois contribuem para a humanização de certas práticas experimentais e para a implementação de regulamentação adequada.

Como não é possível no estado actual dos conhecimentos dispensar a utilização de animais para o ensino ou para a investigação, faz parte das responsabilidades éticas de professores e cientistas limitar a sua utilização, evitar o seu sofrimento e zelar para que as normas em vigor sejam respeitadas).

A Ciência e as aplicações que tem gerado são desde o séc. XVII a fonte dinamizadora do progresso material influenciando a vida e os costumes das sociedades modernas.
Com o desenvolvimento dos meios de comunicação e a elevação dos níveis culturais das populações, em parte resultantes do desenvolvimento tecnológico, criaram-se condições para que os impactos positivos e negativos da Ciência fossem largamente conhecidos e divulgados e sejam na sociedade temas de debate e controvérsia. O que até então era conhecido e discutido no círculo dos iniciados, tornou-se público e deu origem a uma discussão aberta sobre os problemas criados.

Os movimentos anticiência do passado, baseados na defesa intransigente de crenças, preconceitos e costumes ancestrais adquiriram uma base racional quando se tornou aparente que alguns dos "frutos" da ciência estavam envenenados.
Igualmente se tornou claro que a "fé" na ciência, como fonte inesgotável de progresso e solução para os males da humanidade, tinham os dias contados.
Alguns dos seus apóstolos iniciaram um doloroso processo de reconversão e sectores progressivamente mais alargados da opinião pública começaram a exprimir dúvidas e angustias face aos impactos negativos da tecnologia originando a formação de movimentos que põem em causa a Ciência como vector civilizacional.

Os problemas éticos relacionados com a Biotecnologia embora não sejam de natureza científica acabaram por envolver os cientistas na sua condição de cidadãos empenhados, detentores de conhecimento priveligiado. É neste contexto que as suas responsabilidades éticas adquiriram uma nova dimensão.

Muitos dos problemas criados pela aplicação ou má gestão da tecno-ciência têm soluções que passam pela utilização racional do conhecimento existente. A sua implementação confronta-se porém com interesses do poder ou com obstáculos de natureza cultural ou religiosa.

A Ciência está na base do desenvolvimento industrial que caracteriza o "sucesso" do mundo ocidental mas é cúmplice da sociedade de consumo e desperdício insaciável dos recursos naturais, da poluição do meio ambiente e das desigualdades entre diferentes regiões do globo.

O avanço do conhecimento e das suas aplicações é um processo imparável de consequências imprevisíveis se a sua utilização não for racionalizada e humanizada.

Para Habermas alguns do problemas com que se defrontam as democracias modernas têm que ver com a crescente participação de cientistas na organização política da Sociedade.
A tendência para que as estruturas administrativas e burocráticas do poder absorvam um número crescente de peritos e especialistas cujos relatórios e pareceres servem para justificar as decisões do poder político.
É o que acontece nos modelos "tecnocrático" e "decisionista" cujos possíveis abusos só se poderão limitar se for respeitado o princípio do debate aberto e esclarecedor com os cidadãos.

Também Barry Barnes no seu livro "About Science" reafirma comentando Habermas que as estruturas do poder e as que dominam o conhecimento são uma só e que é o acesso a peritagens técnicas que dá poder às elites políticas, que o utilizam para decidir, mas mais importante para justificar e legitimar decisões.
Os prós e os contras são analisados, os prós-salientados e hipervalorizados e os contra minimizados.
Refere-se assim implicitamente à despolitização e desinteresse de grande parte das populações e tece o seguinte comentário nas sociedades modernas decidir requer acesso a conhecimentos especializados, que a maioria dos cidadãos não tem, ficam por isso alienados do direito de opinião, que só podem exprimir em tempos de eleições.

Concluindo – Para alguns a "síndrome ética" que estamos a viver é um fenómeno transitório uma "ideologia de circunstância" que é expressão das múltiplas crises da sociedade contemporânea, resultando em parte da aceleração da tecno-ciência e das mutações que a sociedade sofre (Snell, 1988).

É neste contexto que me ocorre referir o conceito aristoteico de Ética tão bem comentado por J. A. K. Thomson na tradução que publicou da Ética de Nichomamus:
"A ética é um ramo da política ... é o estudo do estadista para criar para o cidadão as melhores oportunidades de viver uma vida boa. O efeito desta injunção não é degradar a moralidade mas moralizar a política.
Foi há mais de 2000 anos. Sabedoria perdida. Imaginamos só que a comunidade dos políticos tinha um "ethos" semelhante ao da Ciência.

Abordemos agora directamente o tema das responsabilidades de professores e cientistas para com os educandos, uma actividade que na linguagem anglo-saxónica se designa por mentoring que foi o mote que me deu o Prof. João Lobo Antunes para esta intervenção.
Mentoring é uma palavra derivada de mentor o nome do amigo de Ulisses que este encarregou de gerir os seus bens e guiar e proteger o seu filho Telémaco quando partir para a Guerra de Tróia.

Todos os professores, cientistas ou não, têm duas missões: instruir e educar. Instruir é transmitir conhecimentos consolidados e as "artes" próprias para um bom desempenho profissional.
Educar, responsabilidade maior, é transmitir valores, normas de conduta, hábitos de trabalho, atitudes.
Professores e cientistas partilham valores e responsabilidades de que já falámos mas devem ainda ser agentes dinamizadores de cultura.
A cultura é um bem e a cultura científica um bem maior nas sociedades contemporâneas.

É ao educar que se estabelecem as relações interpessoais de que depende o sucesso educativo.
A Universidade é um lugar privilegiado para se estabelecerem essas relações, e a dois níveis: no ensino graduado e no ensino pós-graduado.
No ensino graduado as relações educando-educador servem para iniciar o educando nas artes da disciplina que se ensina e para identificar motivações descobrir talentos e capacidades, é mais do que uma responsabilidade é uma obrigação com o futuro.

Direi, a este propósito, que de acordo com a experiência que tive na Faculdade de medicina nos dois primeiros anos do curso, dominados pelo ensino das ciências básicas, que foi quando foi mais fácil detectar motivações genuínas e naturais talentos e capacidades para a Ciência.
Manifestavam-se de forma espontânea pelas perguntas pertinentes e objectivas, pelo interesse pelas matérias ensinadas, que os testes confirmavam, e pelo desejo expresso de querer saber mais.
Não seriam muitos e compreende-se porquê. A escolha já feita de frequentar o curso de Medicina, longo, trabalhoso e de acesso difícil tinha um objectivo de diagnosticar doenças e tratar doentes. O desvio dessa motivação já assumida era uma excepção.

O acaso e as circunstâncias ordenam as nossas vidas mas temos o privilégio de escolher as oportunidades que oferecem e aí são as motivações mais íntimas que decidem a escolha e o sucesso sendo certo que como disse David Sarnoff "nobody can be successful unless he loves his work".

A licenciatura em medicina é pródiga na diversidade de percursos que oferece. É plurivocacional e presta-se a escolhas compatíveis com os mais diversos talentos, capacidades e disponibilidades.
A expressão de motivações claras e firmes para uma carreira científica uma vez identificadas têm que ser postas á prova por uma iniciação.
Cabe ao professor acolher motivações, estimular e orientar talentos. E a obrigação é por à prova o educando com uma iniciação probatória que deve realizar-se no ambiente apropriado de um Instituto ou laboratório em actividade onde o candidato a cientista pode também ajuizar do acerto das suas motivações e vocação.
É um processo de selecção natural. Os que prosseguem provam com a sua persistência uma escolha acertada e merecem a oportunidade de continuar.
Para os que não prosseguem a experiência também será útil: enriquecem os conhecimentos e adquirem uma visão de como se processa a actividade científica. Alguns dos que acompanhei nesta fase fizeram carreiras de sucesso em especialidades médicas, e alguns voltaram mais tarde usando agora as técnicas que tinham aprendido para uma pós-graduação na área da suas especialidades.

Uma nova relação vai iniciar-se a seguir à iniciação probatória. O professor escolhido pelo educando, pela disciplina em que opera ou pela instituição em que exerce a sua actividade passa a partir de então a mentor, a guia, a promotor.
É uma relação a ser pautada pelo respeito e lealdade mutuos. Já não há lugar nesta época para as relações hierárquicas e autoritárias do passado.
Cabe naturalmente ao mentor mais conhecedor e experiente na área de estudo, propor e discutir com os potenciais discípulos um projecto que deve ser motivante e exequível.
A ciência é a arte do solúvel. Um aforisma divulgado por Sir Peter Medawar imaginado por Arthur Koestler a partir da frase de Bismark que disse que a política era é arte do possível.

Um bom mentor conhece os problemas não resolvidos na sua área de estudo e novos métodos ou técnicas para os resolver assim como as estratégias adequadas para se poder avançar.
Problemas não podem ser abordados quando não há métodos adequados para os resolver.
E há os factos inesperados resultantes de uma experiência bem imaginada ou uma nova de interpretação de factos já conhecidos.
Projectos científicos são perguntas que só terão resposta se forem bem formuladas.

O primeiro sucesso do professor como mentor e do seu educando será marcado pela aceitação para publicação de um artigo original numa revista com referee.
Poderá ser em co-autoria se as constribuições pessoais de cada participante o justificar (o que deverá ser previamente combinado para evitar litígios numa área muito sensível).
Os "mandarinatos" do passado em que o trabalho e imaginação de colaboradores e discípulos era abusivamente usado para proveiro exclusivo do chefe (o que nunca me aconteceu) se não está morto está moribundo.

Ultrapassada esta fase o seu êxito fica marcado pelo reforço da confiança mútua entre mentor e discípulo e tem início um período mais longo para preparação de uma Tese de doutoramento, que geralmente é a continuação dos trabalhos já realizados com a exploração de novas vias de abordagem para a sua consolidação ou o início de um novo projecto que os resultados das investigações feitas justifiquem pela sua importância.

O professor mentor e guia é a partir de agora o conselheiro que sugere e acompanha mas também o crítico rigoroso e exigente que analisa conteúdo e forma das versões que o doutorando vai construíndo.

Sob a forma de apresentação a adoptar dir-vos-ei que considerei como ideal a praticada nos países escandinavos. Simples, eficiente e económica. Neste modelo a tese é constituída por um pequeno volume em que estão reunidos o conjunto de artigos já publicados pelo doutorando. Antecedidos por um texto em que são sintetizados resultados e conclusões.

O trabalho do júri que aprovará a discussão da Tese fica simplificado pois os resultados já publicados sob a forma de artigos originais já passaram pelo crivo dos referees que aprovaram a sua publicação.

Também o doutorando é beneficiado pois a publicação dos resultados não fica adiada até à publicação e defesa da Tese e eventual perda da sua prioridade.
Os resultados de uma investigação bem concebida e sucedida são para ser publicados depois de bem escrutinados.

A redacção da tese e dos artigos previamente publicados é precedida e acompanhada pela leitura cuidadosa dos artigos e revisões de conjunto em que sejam estudados temas abrangidos pela Tese.

A Tese deverá ter um título claro e conciso em que estejam indicados duas ou três palavras chave que facilitem a sua indexação, se necessário poderá ter um subtítulo.
Uma introdução em que é posta a relevância do tema objectivos do trabalho efectuado com referência de todas as investigações que o precederam.
Materiais e métodos descritos com detalhe e rigor de modo que outros possam repetir sem dificuldade as experiências feitas e confirmam ou informar conclusões e interpretações.

Uma discussão em que se confrontem os resultados e interpretações com as de trabalhos anteriores de outros autores.
Conclusões claras e um sumário conciso em que salienta o significado e importância do trabalho apresentado.
Bibliografia em que se referenciam todos os trabalhos relevantes e referidos no texto.
Finalmente os agradecimentos em que devem ser mencionados quem de alguma forma contribuiu para o bom andamento do trabalho.
(no caso das teses podem ser feitos na Introdução)
É o esquema tradicional (modelo) seguido e recomendado pelos editores de revistas científicas.
É responsabilidade e dever do mentor acompanhar a redacção da Tese sugerir correcções e aperfeiçoamentos que melhorem o texto mas sem limitar o doutorando de exprimir com toda a liberdade as suas interpretações, opiniões e imaginação.

Defendida e aprovada a Tese a colaboração entre Mestre e discípulo (agora parceiros, colegas) pode prosseguir mas é aconselhável que o recem doutorado viva novas experiências e tenha oportunidade de fazer um pós-doc para aprofundar conhecimentos na área de estudo que escolheu e para aprender novos métodos e técnicas de abordagem dos problemas que pretende investigar.
Deverá ser realizado num Instituto ou Laboratório de excelência. Será também um prémio merecido.
É um novo ciclo de relações entre Mestre e discípulo e se após o pós-doc decidir regressar e integrar a equipa ou formar um novo grupo, o seu regresso será uma contribuição para renovar o capital de conhecimento do grupo e para introduzir novos métodos e técnicas e até hábitos.

O relacionamento entre mestre e discípulos é um processo complexo que Georges Steiner analisou magistralmente no seu livro: "As lições dos Mestres".
São relações humanas de rivalidade. Relações de amor-ódio.
Mas se forem bem analisadas as situações ralativas. A grande lição que um Mestre ideal poderá dar é a de reconhecer e proclamar, sem qualquer "arriére pensée", o talento e o génio dos seus discípulos. Um bom momento para recordar o que foi escrito na Odisseia pelo mítico Homero e amigo de Mentor "que venha um dia a dizer-se dele ao voltar da luta: mas é muito melhor do que era o pai".

 

Referências Bibliográficas

J. F. David-Ferreira – "Responsabilidades Éticas dos Profissionais de Ciência", In: Comunidade Científica e Poder; coord. M.ª Eduarda Gonçalves, Edição 70, 1993.

A. Cournand – "The code of the scientist and its relationship to ethics", Science, 198, 699-705, 1977.

R. Merton – "The Sociology of Science", Univ. Chicago Press, Chicago, 1973

A. S. Relman – "Frand in Science: causes and remedies",
Scient. American 260 (4) 96, 1989

R. Frydman

B. Barnes – "About Science", Basic Blackwell Lt. Oxford, 1985

G. Steiner – "As Lições dos Mestres", Gradiva, 2005

J. Habermas – "Towards a Rational Society", Polity Press, Boston, 1987

G. D. Snell – "Search for a Rational Ethic", Springer-Verlag, N. York, 1988

P. B. Medawar – "The Art of the Soluble", Menthum & Co Lt, London 1967