Setecentos Anos depois (Editorial - 1990)

Setecentos Anos depois

Editorial por J.F. David-Ferreira

Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, IV.ª série, Vol. 1, n.º 4, Jan./ Fev. / Mar., 1990.

 
SETECENTOS ANOS DEPOIS

"A Universidade desempenha um papel central e insubstituível como centro criador e inovador de saber e divulgador do conhecimento, ensinando e treinando o exercício do pensamento livre e do espírito crítico"

(Mário Soares, Discurso na Sessão Solene da Inauguração das Comemorações da Fundação da Universidade Portuguesa)

 

Em Coimbra iniciaram-se em Março as Comemorações dos setecentos anos da Fundação de uma Universidade. Desconhecemos se o programa dessas comemorações tem cariz meramente local ou se estão previstas iniciativas fora dos muros da cidade que durante mais tempo e de forma mais continuada teve o privilégio de ser sede da Universidade Portuguesa. De facto a Universidade cujos setecentos anos Coimbra comemora foi fundada em Lisboa e aí teve a sua sede em três períodos da sua existência num total de quase dois séculos. São factos que não podem nem devem ser ocultados. Se não considerarmos o período em que funcionou a Universidade de Évora, foi só em 1911, com a criação das Universidades de Lisboa e do Porto, que terminou o monopólio que Coimbra detinha, desde 1537. Mais recentemente outras cidades e províncias tiveram acesso ao ensino superior.

As comemorações que se iniciaram em Coimbra têm sem dúvida um significado histórico e cultural que ultrapassa os interesses de uma cidade e da corporação universitária local. Setecentos anos após a fundação da nossa, primeira Universidade as Universidades, que de uma forma ou de outra dela derivaram, preparam-se para entrar num novo período em que vão enfrentar o desafio estimulante da sua autonomia. Seria por isso útil que em conjunto reflectissem sobre os erros e virtudes do passado, não para alimentar querelas sem sentido, mas para perspectivar um futuro melhor ao serviço da Pátria que lhes é comum.

As universidades portuguesas vão seguramente atravessar um momento histórico difícil. As unidades que as constituem encontram-se na sua maioria "descapitalizadas" em equipamentos e instalações e com escassos recursos para manterem em funcionamento os seus laboratórios, museus e bibliotecas. A autonomia tutelada que lhes foi concebida vai assim começar por pôr à prova a sua capacidade para gerirem os recursos limitados que lhes são atribuídos e também a sua imaginação e força para promoverem uma contribuição mais generosa da Sociedade que servem. Não é por isso de estranhar que o "discurso universitário' seja cada vez mais empresarial e menos cultural e se fale com frequência crescente na "panaceia" dos serviços à comunidade e à indústria esquecendo que a Universidade desempenha, apesar de mal paga, as funções naturais para que foi criada.

Na hora da verdade que se aproxima é pois de desejar que o Estado e a Sociedade tenham consciência de que a autonomia não pode ser um lavar de mãos à Pilatos e que são necessários grandes investimentos para que a Universidade possa desempenhar dignamente as suas funções culturais e formativas.

Se assim não for entendido e se autonomia, significar de facto uma privatização a 50% é muito possível que a Universidade e os seus ideais acabem fatalmente por ser consumidos pelos valores da sociedade de consumo. O que aliás parece já estar a acontecer.

J.F. David-Ferreira

Nota: Para os nossos leitores interessados em conhecer melhor as origens da Universidade Portuguesa recomendamos a leitura dos capítulos que lhes são dedicados por Rómulo de Carvalho na sua excelente "História do Ensino em Portugal" publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Esta obra de leitura muito agradável contém uma excelente bibliografia sobre este tema e a transcrição de alguns documentos mais importantes sobre a fundação da universidade.

 

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