A dor na criança e no jovem (Discurso - 1996)

A Dor na Criança e no Jovem
- Breves Reflexões Introdutórias -

J. F. David Ferreira
29 a 30 de Novembro de 1996

Pediram-me os Professores Gomes Pedro e António Barbosa, organizadores do curso "Dor na Criança e no Jovem", que presidisse a esta primeira sessão de uma mesa redonda dedicada a analisar os Fundamentos da Dor.

Felicito, os organizadores e participantes, por mais uma vez, com esta iniciativa, darem continuidade ao propósito de contribuírem para uma maior consciencialização sobre um tema com que se confrontam na prática diária e que, apesar da sua importância, não tem merecido, nem nas salas de aula nem nas enfermarias, a atenção devida. Felizmente, que esse "desinteresse" começou a ser redimido nas últimas décadas graças ao esforço de especialistas e observadores mais atentos.

O facto do curso, que agora se inicia, se destinar a analisar e discutir "A Dor na Criança e no Jovem" dá-lhe um valor acrescido, sobretudo, porque muitos consideraram no passado que os mais pequenos eram, em virtude da sua imaturidade neurofisiológica, menos sensíveis à dor e terem mesmo maior capacidade que os adultos para suportarem os seus efeitos.

Não sendo, eu, nem "médico praticante" nem especialista da área, só posso interpretar o convite para presidir a esta mesa-redonda como uma atenção, pelo facto de no desempenho de funções docentes, na área disciplinar de que me ocupo, estarem incluídas matérias que aqui vão ser analisadas e discutidas.

Na qualidade de "histologista de serviço", aceitei e, agora agradeço, tanto mais que tenho a honra de presidir uma mesa em que participam colegas que muito estimo e aprecio.

Permitam-me, uma saudação muito especial à Professora Deolinda Lima, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, distinta colega que mais uma vez vem colaborar connosco sobre um tema de que tem larga experiência e competência.

Permitam-me, ainda, no espaço desta introdução algumas breves reflexões, agora como observador, sobre um tema que nos toca a todos, como seres humanos e, alguns de nós, como garantes da formação cientifica e humana de futuros profissionais de saúde.

Como sabemos, a dor e o sofrimento são na tradição cultural judaico-cristã aceites e mesmo exaltados como sinais de expiação ou meios de redenção. Daí, o combate à dor ter sido quase um tabu de que são testemunho em tempos relativamente recentes os debates e controvérsias que acompanharam a introdução dos primeiros anestésicos. O Homem moderno deixou, porém, de aceitar muitos "tabus", ou pela força da razão ou quando alcançou meios que lhe permitiram ultrapassar o que pensava serem limites da sua condição humana.

Foi também, atribuído, no passado, à capacidade de suportar a dor e o sofrimento um valor astético, que impregnou a cultura dos heróis e dos mártires, "La souffrance donne la mesure de l'homme", escreveu, o poeta e médico Duhamel, no rescaldo das experiências dolorosas que presenciou durante a guerra.

A dor e o cortejo de sofrimentos que a pode acompanhar são conhecidos desde sempre. O arsenal terapêutico para a combater, embora limitado, foi e ainda é hoje (segundo alguns) utilizado com parcimónia. É, por isso, motivo de reflexão porque só a partir da década de 60 se assiste a um esforço concertado para a limitar e combater em Centros especificamente criados para o efeito.

Será, como pretendem alguns, que há mais dor, dor-doença nas sociedades tecnológicas modernas em consequência de novos tipos de sinistralidade e da própria acção médica que torna possível a sobrevivência de muitos e alarga a longevidade de outros?

Será que o avanço do conhecimento sobre a fisiopatologia da dor, abrindo horizontes a novas terapêuticas, criou condições para que a medicina curativa e paliativa sejam finalmente eficazes?

"Mais terrível que a própria morte", no dizer de Albert Shweitzer, a dor, a dor dos outros ocupa, ainda, um lugar modesto nos nossos tempos escolares e deveres assistenciais.

Os profissionais da saúde, sobrecarregados com o peso de manobras técnicas progressivamente mais complexas e especializadas, ocupados com tarefas burocráticas que a medicina hospitalar moderna requer, não têm o tempo de compaixão que a terapêutica do diálogo exige.

Nos nossos dias, o arsenal terapêutico do combate à dor é diversificado e tende a alargar-se com o aprofundamento do conhecimento sobre a fisiopatologia das doenças. Mas, por muito vasto e eficaz que esse arsenal seja, ele não dispensa a prática da arte médica no que tem de mais nobre: o diálogo com o outro que sofre.

Como diz o filósofo Emmanuel Levinas, sofrer não tem sentido e a única justificação do sofrimento é a nossa maior dignidade: a compaixão. Um legado positivo da nossa cultura, um ingrediente básico de uma prática médica humanizada e razão e estimulo daqueles que, no laboratório ou na clínica, procuram explorar os fundamentos da dor.