António Coimbra. Um percurso exemplar (Palestra - 1999)

Aula Magna Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

António Coimbra - Um percurso exemplar

J. F. David-Ferreira (Professor da Universidade de Lisboa)

Há catorze anos, precisamente no dia 19 de Novembro de 1984, comemorou-se neste mesmo lugar o centenário da criação dos estudos histológicos no Porto.

Uma iniciativa do Instituto de Histologia e Embriologia que foi pretexto para recordar a forma como esta área disciplinar se estabeleceu, e desenvolveu, no nosso país, e analisar as dificuldades de vária ordem que os seus percursores enfrentaram para implantar o ensino e a investigação no então novo domínio. Período heróico em que os meios humanos eram poucos, os recursos financeiros de miséria e a sociedade pouco sensível, por vezes mesmo hostil, ao progresso científico.

Felizmente que, apesar das dificuldades, limitações e incompreensões, um grupo de homens bem informados dos recentes progressos da microscopia persistiram, e com trabalho e determinação criaram condições para que se abrissem novos horizontes ao ensino e à Ciência nacional.

Assim como a histologia, surgida na sequência do aperfeiçoamento do microscópio, a utilização deste instrumento estendeu-se a outras áreas que foram emergindo nos finais do século XIX, nomeadamente a Bacteriologia.

Recordaram-se então os nomes e as obras dos que encabeçaram e participaram no movimento de modernização que abalou as anquilosadas estruturas académicas ao promover o ensino laboratorial e a prática do método experimental. Foi um movimento que acompanhou à distância o processo de renovação das Universidades, em curso noutros países europeus.

É neste contexto que na segunda metade do século XIX, algumas personalidades ligadas ao ensino universitário começam a recomendar a introdução de novas áreas de conhecimento no curriculum escolar e a defender a prática laboratorial na formação dos futuros médicos.

Depois de Cândido Pinho, que já em 1881 pugnava pela criação de laboratórios e gabinetes de investigação na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, é Ricardo Jorge que se torna paladino desta causa, com o muito referido e celebrado Relatório, que na qualidade de delegado da Escola-Médíco-Cirúrgica do Porto, apresentou ao Conselho Superior de Instrução Pública na sessão de 1 de Outubro de 1885.

Esse exaustivo Relatório constitui por isso um marco na história do combate pela modernização do ensino médico em Portugal.

Depois de historiar a evolução do ensino na Escola Real de Cirurgia do Porto e da criação da Escola Médico-Cirúrgica, Ricardo Jorge faz uma análise exaustiva da situação, aponta com desassombro as mazelas e conclui com uma série de propostas, que fundamenta, algumas das quais seriam muito pouco populares nos nossos dias. Como por exemplo:

"São aumentadas as propinas de matrícula e selos de cartas, e criadas propinas de exames e de trabalhos práticos, de modo a duplicar a receita actual" ou "É extinta a Faculdade de Medicina do mesquinho burgo de Coimbra distribuindo-se o seu pessoal e as suas alfaias pelas duas Escolas Médico-Cirúrgicas".

No seu conjunto as propostas de Ricardo Jorge tinham como objectivo, além do saneamento financeiro e valorização do trabalho docente, a melhoria e modernização das condições de ensino. Propunha a criação de novas cadeiras entre as quais a de Anatomia Geral e Histologia.

O ensino da Histologia, como aconteceu noutros lugares e com outras disciplinas, iniciou-se de facto à margem do ensino oficial em cursos livres associados a disciplinas já existentes. Foi o que aconteceu nas Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e do Porto.

No Porto foi Plácido da Costa, um homem particularmente dotado para a instrumentação, que ainda estudante organizou em 1878 o primeiro curso prático de microscopia e de Histologia, disciplina a que também esteve associado nos seus primórdios Ricardo Jorge com um curso livre realizado no ano lectivo de 1881-82.

A partir de 1884 e até 1903, ano em que o ensino da Histologia foi finalmente introduzido oficialmente no programa de estudos das Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto, o ensino da Histologia foi assegurado por Plácido da Costa, a que sucedeu Alfredo Magalhães até 1910.

De 1910 a 1916 é Plácido da Costa que assegura de novo o seu ensino. Depois da sua morte esta cadeira, designada a partir de 1911 Histologia e Embriologia é atribuída a Abel Salazar e é com ele que, no dizer de Walter Osswald, se inicia a idade moderna da investigação na Faculdade de Medicina do Porto.

De facto é durante o período em que Abel Salazar foi professor da Faculdade que foram publicadas uma série de trabalhos histológicos originais sobre o glomérulo renal e estrutura do ovário e introduzida uma técnica histológica o método tano-férrico de Abel Salazar.

O processo de institucionalização da investigação científica iniciado por Abel Salazar foi, porém, seriamente abalado pelo seu afastamento compulsivo em 1935.

Vem a este propósito referir novamente Walter Osswald que, quando da comemoração dos 150 anos da Faculdade de Medicina do Porto, em 1997, comentou muito a propósito das perturbações vividas na época. "O seu caso ilustra, de forma exemplar, como a intolerância e o intervencionismo político podem atingir, gravemente o mundo da criação científica, que necessita de liberdade e de segurança e entra em asfixia quando estas faltam".

Depois de Abel Salazar há um longo hiato em que o Instituto de Histologia e Embriologia vai viver de certa forma à sombra protectora do Instituto de Anatomia, onde Hernâni Monteiro, outro grande vulto da Faculdade de Medicina do Porto, discípulo de Pires de Lima, dá início a partir de 1924, como Professor de Anatomia Cirúrgica, a um programa de investigação sobre a estrutura e fisiologia dos linfáticos. Os projectos desenvolvidos em torno deste programa pelos seus colaboradores vão influenciar de forma decisiva o progresso da Faculdade.

Depois de um período em que a Fisiología foi regida por vários Professores de outras disciplinas norneadarnente por Amândio Tavares, Álvaro Rodrigues e Ernesto Morais, Silva Pinto assume em 1947 a regência da cadeira e a direcção do Instituto.

Conforme nos relatou António Coimbra, Silva Pinto "assumiu as responsabilidades numa altura em que a Histologia Clássica das colorações evoluía já para a biologia celular, microscopia electrónica, centrifugação diferencial, citoquímica, que deram à Histologia após 1930 uma nova idade de ouro, talvez ainda mais empolgante que a de 100 anos atrás. Silva Pinto sentiu-o e soube contaminar os mais novos com a vibração que experimentava. Quando opta pela Oftalmologia, em 1971, já a Faculdade tinha um Microscópio Electrónico por cuja aquisição muito lutara, no serviço dispunha infra-estruturas em pessoal docente e técnico instalações e aparelhagem, que permitiam continuidade e trabalho sério".

Quando em 1971 Silva Finto opta pela Oftalmologia a Histologia é confiada ao seu discípulo e ex-Assistente António Coimbra.

António Coimbra, que dedicou 45 anos da sua vida profissional à Faculdade de Medicina e à Universidade do Porto, iniciou-se na carreira docente logo após a licenciatura, como Assistente voluntário de Anatomia. Após este primeiro ano, seguramente experimental, isto é, em 1995, foi integrado como Assistente no quadro da cadeira de Histologia cuja regência já estava a cargo do Professor Silva Pinto. Durante este período de iniciação frequentou simultaneamente o serviço de Neurologia do Hospital de Santo António onde sofreu a influência de um dos seus mestres, o Professor Corino de Andrade, tendo mesmo vindo a obter o grau de especialista em neurologia pela Ordem dos Médicos.

É dessa época o seu interesse pelas neurociências, área em que concentra os seus interesses científicos, que começa a concretizar em 1962 com a sua Tese de Doutoramento: "A célula nervosa - aspectos citoquímicos".

Decidido a dedicar-se em exclusividade a uma carreira docente e de investigação parte para Montreal onde como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian faz o que hoje se designa em gíria um "post-doc" de dois anos na Universidade de McGill, no conceituado laboratório de Charles Leblond.

Aí aprende e pratica as técnicas correntes de microscopia electrónica, familiariza-se com a autoradiografia ultraestrutural e realiza um excelente trabalho sobre "Sites of glycogen synthesis in rat liver cells as shown by in radioautography after admnistration of 3H glucose"; publicado no muito exclusivo Journal of Cell Biology.

De regresso a Portugal ascende em 1966, após concurso de provas públicas, ao lugar de Professor Extraordinário de Histologia e Embriologia e é a partir de então um dos líderes da investigação na área da ultraestrutura celular.

Graças ao apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e do Dr. Ribeiro dos Santos, Director do Serviço de Ciência, e uma espécie de anjo protector da microscopia electrónica, em Portugal, é instalado no Porto o Centro de Microscopia Electrónica onde António Coimbra, com Roberto Salema e Teixeira da Silva desenvolvem um trabalho notável catalisador do interesse e entusiasmo dos jovens colaboradores que a eles se associam. Nasce uma Escola e um escol.

As reuniões anuais da Sociedade Portuguesa de Microscopia Electrónica, de que foi um dos fundadores em 1966, reflectem o brilho das actividades que desenvolveram e que constituem uma importante contribuição para a biologia celular e microbiologia.

Coube a António Coimbra a missão de construir sobre os alicerces deixados por Silva Pinto um Instituto de investigação universitário no sentido contemporâneo do termo. Fê-lo utilizando as potencialidades da microscopia electrónica.

Mais uma vez os progressos da microscopia vão provocar uma onda de progresso científico. Ao possibilitar o conhecimento aprofundado da estrutura, os novos meios vão permitir a compreensão das funções e a exploração dos mecanismos.

A partir daí começam a consolidar-se no Instituto os dois programas que até hoje integram os projectos de investigação de um conjunto muito empenhado de docentes investigadores.

Além do programa que sempre liderou na área das neurociências, cria condições para que no renovado Instituto surja a área da Biologia Celular que cria também raízes no ensino e na investigação da Faculdade de Medicina do Porto.

Alguns dos seus discípulos, nomeadamente os Professores Manuel Magalhães e Maria da Conceição Magalhães, puderam assim começar a desenvolver as suas linhas próprias de investigação e enquadrar a nova área disciplinar. O que têm feito utilizando os mesmos critérios de exigência técnica e rigor científico. São por isso também um exemplo e uma referência para os que trabalham nesta área.

O número e qualidade das teses de Doutoramento produzidas desde que António Coimbra assumiu a direcção do Instituto são um testemunho da forma exigente e determinada como acompanha colaboradores e discípulos, contribuindo, directa ou indirectamente, para elevar os padrões da produção científica nacional.

Foi para mim sempre um privilégio participar como membro de júri nos actos académicos que marcaram o trajecto universitário de alguns dos seus discípulos. Fui de certa forma um observador privilegiado da evolução de duas equipas de investigação de grande qualidade, cuja produção publicada, em revistas internacionais de relevo, tem projectado a ciência nacional e contribuído para a sua internacionalização.

O relatório Anual do Instituto de Histologia e Embriologia Abel Salazar de 1997 é uma demonstração de solidez; e de vitalidade. Dois programas de investigação em que se integram os projectos de investigação em curso. O programa "Mecanismos espinais e supraespinais de processamento da dor" liderado por António Coimbra e Deolinda Lima, à volta do qual se desenvolvem vários projectos; e o Programa "Morfologia do córtex: suprarrenal", liderado por Manuel Magalhães e Maria da Conceição Magalhães.

O Instituto de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina do Porto, mercê do seu passado e da qualidade da sua produção científica, não tem tido dificuldade em obter financiamentos nacionais e internacionais para os projectos que desenvolve.

O trabalho de António Coimbra inscreve-se no melhor das tradições históricas da Universidade do Porto. À semelhança de Hernâni Monteiro, lança um programa de investigação em torno do qual forma e reúne um conjunto de docentes-investigadores que vão influenciar ou activar outras áreas disciplinares da sua Faculdade.

Como estamos longe do tempo em que o ensino prático dos nervos e centros nervosos dependia, no dizer de Ricardo Jorge, de "uns cérebros mal amanhados vindos da Coimbra ou da Lisboa num barril de aguardente". Como estamos longe do tempo em que Abel Salazar descrevia, no preludio do relatório de actividades (1918-1925) publicado a propósito do I Centenário da Régia Escola de Cirurgia:

"L 'Institui d'histologie et d 'Embryologie da la Eaculté da Medecine de Porto n'est qu'un três modeste laboratoire avec deux petites salles, l'une occupée par le laboratoire l'autre par la bibliothéque. Pauvremant fournie matériel, il a une dotation miserable".

O nosso homenageado tem um percurso exemplar e contribuiu para que a história do seu Instituto seja uma história de sucesso. Assim, como Professor:

(1) renovou e actualizou o ensino da histologia e criou condições para que se estabelecesse o ensino da biologia celular;

(2) organizou e prosseguiu um programa de investigação na área das neurociências em que produziu trabalho original de grande qualidade;

(3) formou e orientou um conjunto de colaboradores e discípulos que se tem distinguido em várias áreas do conhecimento médico. Um rasto de discípulos que influenciou e influenciará de forma, perdurável a vivência da sua Faculdade;

(4) mediante uma participação muito activa nas reuniões científicas nacionais contribuiu com as suas observações críticas para promover a qualidade da produção científica;

(5) promoveu a internacionalização da ciência nacional através da publicação de artigos em revistas de grande exigência e pela participação em reuniões internacionais da área em que trabalha;

(6) contribuiu para o prestígio nacional e internacional da Faculdade e da Universidade do Porto a que dedicou quarenta e cinco anos de uma carreira profissional exemplar.

Por todas estas razões é merecedor da nossa admiração e reconhecimento no momento da sua jubilação e fazemos votos para que com a experiência que acumulou continue ao serviço da Ciência e a marcar com a sua presença a vida das nossas sociedades científicas.

Aqueles que vão seguir à sua geração, a que também pertenço, vão usufruir de um avanço qualitativo das condições de trabalho e de muito saber e experiência acumulados. Mas nem tudo serão facilidades. Os tempos que se vivem e os que se aproximam tem as suas dificuldades próprias.

A Universidade é nos nossos tempos atravessada por um conjunto de crises resultantes do seu desenvolvimento e das pressões da Sociedade e dos Governos numa época em que tudo se mede por custos e benefícios quási que exclusivamente materiais, os únicos que parece puderem ser contabilizados.

Como vai se possível no meio da massificação do ensino manter e gerir "núcleos" de qualidade e prosseguir a produção de saber desinteressado? Como compatibilizar num mesmo espaço a convivência do professor, do investigador e do empresário?

Esbatem-se as fronteiras entre as diferentes áreas disciplinares e hoje qualquer programa de investigação de qualidade competitiva exige uma dimensão e uma diversidade de técnicas que já não se compadecem com o investigador solitário ou de pequeno grupo contido nas fronteiras da sua disciplina ou do seu país.

É exigida pois uma estratégia pluridisciplinar só compatível com centros de investigação em que convivam especialistas de várias áreas e culturas.

Como em todas as épocas, aquela que agora se começa a viver tem os seus desafios e dificuldades próprias, é a herança que também recebem os que vão continuar.

 

Referências bibliográficas

A. Coimbra - De Ricardo Jorge e Plácido da Costa aos nossos dias. O médico, 112 (1743), 885-891, 1985

Ricardo Jorge - Relatório apresentado ao Conselho Superior d'Instrução Pública, Imprensa Moderna, Porto, 1885

W. Oswald - A investigação científica na vida da Escola Médica do Porto. In: Os 150 anos da Faculdade de Medicina do Porto (1825-1975), Imprensa Portuguesa, Porto 1977.

A. L. Salazar - L'Institut d'Histologie et d'Embryologie, Resumé des travaux réalisés depuis 1918. In: Vol. Com. do I Centenário da Régia Escola de Cirurgia Emp. Ind. Gráfica, Forto, 1925.