Terceiro Milénio - O Fim da Biologia (Mesa Redonda - s/data)

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

VI SEMANA SOCIOLÓGICA
Mesa Redonda
Terceiro Milénio - O Fim da Biologia.

No âmbito da VI Semana Sociológica da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, desta vez subordinada à temática geral "Sociedade e Universidade Portuguesas. 25 Anos depois", o Gabinete de Biologia do Desenvolvimento organizou, sob a coordenação da Prof. Clara Pinto Correia, uma mesa redonda intitulada 'Terceiro Milénio - O Fim da Biologia", que terá lugar no dia 22 de Abril às 18h30m no campus do Campo Grande da ULHT.

Aconteceu tudo muito depressa, e agora, sem quase termos tido tempo para darmos por isso, estamos mesmo a chegar ao fim do segundo milénio. As datas valem pelo que valem, mas neste caso a simbologia aparece-nos reforçada por uma avalanche de transmutações reais que nos exigem e merecem reflexão urgente. Muitas das fórmulas que tinhamos como adquiridas e seguras na nossa percepção da Biologia como Ciência estão, de facto, a chegar ao fim. Por exemplo, assistimos ao fim da compartimentalização científica das várias vertentes da Biologia, que têm vindo a convergir cada vez mais em torno do pólo agregador da Biologia do Desenvolvimento.

Se procurarmos exemplos do outro lado do espectro, verificamos que as nossas anteriores e usuais fórmulas de financiamento estão também a chegar ao fim, e este esgotamento é multifacetado. Já não se sente a necessidade de financiar doutoramentos e pós-doutoramentos no estrangeiro se depois não forem criados lugares adequados à formação oferecida. Também já não faz sentido pensar em termos de colocação portuguesa se Portugal passar mesmo a ser apenas uma parte da Europa como outra qualquer.

Simultaneamente, e como a Biologia é cada vez mais uma actividade lucrativa custeada por multinacionais e investidores privados, estamos a alterar até a própria forma de avaliar e divulgar Ciência, com ênfase crescente na importância do registo de patentes em detrimento da publicação de artigos. As próprias lógicas de investigação estão também a sofrer profundas modificações, com exemplos de eleição na forma como o Projecto do Genoma Humano e as novas técnicas de terapia celular nos obrigam a formular perguntas diferentes, nos oferecem respostas inesperadas, e levantam questões éticas desarmantes.

Visto por este prisma, "O FIM" significa o termo de diversos modelos anteriores, tal como os conhecíamos e praticávamos, e simultaneamente expressa a criação de uma nova ordem das coisas, geradora de novas ideias e de aplicações de âmbito tão sedutor quanto complexo. Neste contexto, todos os painelistas apresentarão uma comunicação intitulada "O FIM DE ...", em que, sobre um aspecto particular desta problemática, debaterão por onde é que a fórmula anterior está a dar os seus sinais mais nítidos de esgotamento e quais os novos caminhos que poderemos seguir.

Alinhamento da Mesa-Redonda:
O Fim do Sistema - Prof. Doutor João Caraça (Director do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian)

Os financiamentos para investigação científica fizeram-se sempre dentro de uma política de sistema: o sistema decide o que deve ser financiado, quando, e como, e implementa a sua filosofia o melhor que pode dentro de um espectro de contingências que lhe são inerentes. Instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian, que decidem mais independentemente quem financiar e como e porquê, ou mais recentemente estruturas mistas de forte ligação à indústria, permitem a circulação de apoios a ideias e pessoas que não são necessariamente conformes às previsões do sistema. Isto, como quase tudo, pode ser bom e pode ser mau. Mas já não pode, de maneira nenhuma, ser revertido. E como é que vai evoluir? E que mudanças é que podemos esperar desta evolução?

O Fim da Solidão - Prof. Doutor J. F. David-Ferreira (Vice-Reitor da Universidade de Lisboa e Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa)

A Biologia tradicional viveu muito, em grande medida por falta de outras formas de pensar sobre ela, de acumulação de dados anatómicos, descritivos e comparativos, primeiro a nível do olho nu, depois da microscopia, e finalmente da microscopia electrónica.

Esta abordagem requeria uma espécie de vocação para o sacerdócio, porque se trabalhava semanas e semanas em silêncio e solidão absolutos, em processos que exigiam enorme concentração e precisão de mãos. Este facto tornava menos claro o lugar do investigador como membro de uma equipa: o investigador podia ser (e era muitas vezes) um indivíduo isolado, que dedicava a sua vida a um único sistema, que descrevia do princípio ao fim.

Este mesmo facto tem até expressão ao nível das publicações científicas, em que abundavam os livros ou artigos com um único autor, o que raramente acontece nos dias de hoje. As novas aproximações, bioquímicas e moleculares, menos morfológicas, tornam de facto a Biologia uma investigação obrigatoriamente de conjunto. As grandes autorias épicas, e com elas os momentos decisivos de grande epifania solitária, estão a desaparecer.

Isto revoluciona certamente a nossa forma de entender a História do nosso próprio conhecimento, e democratiza inquestionavelmente o processo da descoberta. Mas onde vai inscrever-se o espaço para a inspiração fundamental dos visionários que, em cada geração, conseguiram olhar para onde mais ninguém olhava?

O Fim dos Limites - Prof. Doutor Mário Sousa (Professor Associado do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto)

Na reprodução e na saúde dos humanos, tal como na agricultura e na pecuária que já nos acompanhavam sem grandes sobressaltos desde a Idade do Bronze, de repente os limites deixaram de ser os que nos eram impostos pelos processos vitais naturais, e passaram a ser controlados e alargados por nós. Esta pulverização de barreiras foi tão rápida e invasiva que até a ética por que tentamos reger-nos tem que tentar vencer limitações milenárias para raciocinar sobre os impactos destas possibilidades sobre uma sociedade que pode passar a entender-se de uma forma completamente nova e inexplorada. E o fim dos limites não passa só por aqui: toda a novíssima área de reprodução assistida é uma das demonstrações mais claras do fim de um limite tangível entre ciência básica e ciência aplicada. Mas que margens de segurança e áreas de claridade iremos pender dentro de uma Biologia sem limites?

O Fim da Obediência - Dra. Sandra Martins (Aluna do 1.º Ano do Mestrado em Biologia do Desenvolvimento da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias)
Em ciência como em todas as formas de conhecimento, a cultura ocidental entendeu tradicionalmente a instrução como um sistema de aprendizado, onde o aprendiz segue do princípio ao fim uma calha bem definida e é recompensado se nunca se desviar dela. Poderíamos chamar a este sistema aprendizagem por obediência. Mas, no espaço de uma geração, a obediência esgotou as suas potencialidades. Hoje o bom aluno recompensado no fim da jornada não é necessariamente aquele que obedece ao sistema, mas tendencialmente aquele que tem sonhos inconformistas e que não teme professar as suas reivindicações de mudança - uma atitude e forma de crescer que só agora se torna gratificante porque só agora se solidificaram consistentemente os resultados de uma época de viragem em que as diferenças passaram a ser possíveis, e, mais ainda, celebradas. Ou seja, agora existe finalmente a margem de manobra suficiente para se planear e perseguir um futuro original. Mas estaremos mesmo preparados para incorporar dentro do nosso tecido social a polifonia de tantas perspectivas alternativas?

O Fim das Certezas - Prof. Doutor Manuel Sérgio (Presidente do Centro de Epistemologia e de História das Ciências e das Técnicas da Universidade de Técnica de Lisboa)
Cada vez se torna mais evidente que a Ciência não dá respostas definitivas às nossas perguntas mas que, pelo contrário, nos obriga constantemente a formular novas questões que nem imaginávamos que existiam. O conceito de "certeza científica" é cada vez mais uma contradição nos termos. Depois de a Religião ter perdido o seu poder agregador de condutor das dicotomias morais, as pessoas esperam muitas vezes que a Ciência lhes responda a anseios que são fundamentalmente religiosos: quando começa a vida, o que é a morte, esta aplicação técnica deve ou não ser permitida, aquele estudo deve ou não ser levado até ao fim. Tenderá a Ciência a alicerçar a estruturação moderna das nossas almas? E será este alicerce legítimo?