Discurso de Aceitação de Doutor Honoris Causa Brasil (Discurso - 1983)

J. F. David-Ferreira

Discurso de Aceitação de Dr. Honoris Causa Brasil – Universidade do Rio de Janeiro, 1983

João Salim Miguel, Magnífico Reitor
Vice-Reitor – Roberto Alcântara Gomes
Sub-reitores – Cilene Galarte e ... Moniz

Quando uma voz amiga me fez saber que tinha sido proposta na vossa congregação a honra com que acabam de me distinguir, até a minha vaidade se assustou. Perguntei-me se devia aceitar uma honraria que considerava imerecida porque se haviam razões eram só do coração.

Não me soube esquivar e aqui estou a participar neste rito, não porque reconheça nos méritos que me apontam, motivos que o justifiquem, mas porque aceito o desafio e o compromisso de servir junto desta congregação, a que passo a pertencer, um pouco, pelos grandes ideais universitários de sempre (verdade, justiça e liberdade).

A vossa manifestação de apreço levou-me a reflectir sob o que tem sido o meu relacionamento com esta terra – os meus encontros com o Brasil. Viajei na memória do tempo até à minha infância onde tudo começa com uma história simples, contada pelo meu avô:
A história da árvore das patacas (moeda antiga que não sofre a erosão da inflação). O lugar era o Brasil. Ficava muito para além do mar. Tinha praias e florestas, papagaios e coqueiros e gentes de muita cor. A Terra era boa, bastava semear para a planta crescer e o fruto se entregar e havia sitio em que a terra bem cavada, uma pataca enterrada fazia crescer uma árvore em que as folhas eram de prata e os frutos patacas douradas.

A infância passou e com a adolescência o Brasil começa a ser real. É o encontro com os nossos grandes escritores e poetas, Ferreira de Castro, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Manuel Bandeira, C. Drummond, Vinicius de Morais... Através deles descobri esta grande árvore que é o Brasil, com raízes culturais em todos os continentes.

Fui descobrindo também que os grandes privilégios da vida não são as "patacas de ouro" mas os amigos que se criam, os grandes homens que se conhecem, os mestres que descobrimos e os discípulos com que trabalhamos. E pensando no Brasil, tenho sido um privilegiado. Tenho amigos, conheci aqui grandes homens, mestres que nem sabem que o foram e discípulos de que me orgulho.

Ainda estudante comecei a trabalhar na faculdade de Medicina de Lisboa com um grande mestre: o Professor Celestino da Costa. Pertenceu à geração que após a implantação da Republica em 1910 tinha transformado a velha Escola médico-cirúrgica em Faculdade de Medicina. Era um homem culto e profissional competente, um verdadeiro universitário. A sua participação na reforma, do que era a universidade de então, tinha como base o princípio de que as universidades não devem ser só centros de divulgação de saber. Inspirado pelos europeus tornou-se um difusor das ideias de Humboldt que já no século XIX (1808) defendia que é à Universidade que compete criar ciência.

Surgiam assim na Faculdade de Medicina os Institutos, que correspondiam aos departamentos das ciências básicas e que passaram a ter como missão não só o ensino como a pesquisa. O Instituto de Histologia e Embriologia que Celestino da Costa fundou e dirigiu transformou-se a breve prazo num lugar de excelência que proporcionou a formação de várias gerações de histologistas, além de assegurar um ensino actualizado aos estudantes que frequentavam a Faculdade.

Além de Professor na Universidade Celestino da Costa tornou-se um fomentador de pesquisa cientifica e acabou por ocupar um dos lugares mais elevados na hierarquia que coordenava a actividade cientifica do país: o Instituto de Alta Cultura. Celestino, embora não fosse um político activo até deixou de agradar (talvez por isso) ao regime, que nuns "saneamentos" periódicos acabou por retirá-lo desse lugar onde estava a exercer uma acção notável.

Mas o meu objectivo ao recordar este meu mestre português era referir uma das coisas boas que a sua convivência me proporcionou: o encontro com cientistas brasileiros que de passagem por Lisboa o iam visitar. Conheci assim, ainda estudante ou jovem licenciado, alguns ilustres professores brasileiros. Recordo entre outros o Prof. Bruno Lobo, ontem justamente homenageado, do Rio de Janeiro, o Prof. L. C. Junqueiro de S. Paulo e o Prof. Carlos Chagas do Instituto de Biofísica.

Celestino da Costa tinha por Carlos Chagas uma amizade muito especial. Ele que era muito sóbrio nas suas manifestações de amizade sempre se referiu a Carlos Chagas sempre como "o meu querido amigo". Na verdade apesar de haver uma diferença de idades de quase trinta anos e de serem especialistas em áreas diferentes, havia entre ambos um entendimento que tinha seguramente que ver com uma visão comum do que devia ser a Universidade. Ambos eram médicos (não praticantes) mas tinham a noção clara que o ensino profissionalizante da medicina passa por uma preparação sólida na área das ciências básicas.

Comparando a vida destes dois homens verifica-se que ambos procuraram a realização pessoal através de uma obra colectiva. Eram líderes e construtores do futuro por isso fizeram escola, apesar das condições adversas, limites impostos e por vezes incompreensão do meio.

Conheci Carlos Chagas por intermédio de Celestino da Costa, era eu então um jovem licenciado prestes a partir para França para me iniciar na nova fronteira da morfologia que era a microscopia electrónica. Foi um encontro no Hotel Tivoli onde após uma breve conversa-entrevista o Prof. Chagas, com abertura e generosidade que são marcas da sua personalidade, me propôs que após o meu regresso de Paris, onde deveria estagiar 6 meses como bolsista do governo francês, fosse estagiar no Instituto de Biofísica onde já estava instalado um microscópio electrónico.

Os seis meses previstos do meu estágio em Villejuif com William Bernhard transformaram-se quase em três anos e assim perdi essa oportunidade.

O meu encontro de 3º grau com o Brasil só viria a concretizar-se quase vinte anos depois, por ocasião das comemorações do 25º aniversário do Instituto de Biofísica. Chagas convidou-me para pronunciar uma das conferências comemorativas.

Essa primeira viagem ao Brasil foi para mim um deslumbramento humano, cultural e científico.
Além da terra e das gentes conheci de perto essa obra já consolidada que era o Instituto de Biofísica, ainda instalado no velho mas belo edifício da Praia Vermelha.

As condições eram péssimas, as instalações eléctricas, pessoas, aparelhos misturavam-se num ambiente de improviso que desafiava todas as regras de segurança: "a favela científica como alguns por graça diziam". Mas havia nos homens e mulheres que ali trabalhavam um espírito, um entusiasmo que transparecia na sua actividade. Eram jovens, muitos deles já com estágios feitos em grandes laboratórios no estrangeiro, reunidos à volta de um objectivo comum.

A liderança de Chagas criava oportunidades, não travava, estimulava o crescimento e a diversificação – Sempre pronto a testar vocações.

Criei amigos e compreendi o que se estava a passar. No meio daquela desordem aparente havia um projecto em execução, o de criar no interior da Universidade um centro de pesquisa moderno capaz de catalisar uma mudança. E aprendi algumas lições que foram soluções para problemas que estavam a surgir no então recentemente criado Instituto Gulbenkian da Ciência.

Ao contrário do Instituto de Biofísica, que estando mergulhado na Universidade tinha possibilidades fantásticas de recrutamento de novas vocações, o nosso Instituto em Oeiras começava a sofrer os inconvenientes do seu isolamento. O que observei no Rio de Janeiro deu-me inspiração para soluções que vieram pelos menos mitigar alguns dos nossos problemas.

Dessa primeira visita ao Brasil não se apagou ainda da memória o calor e a amizade com que fui recebido. Revi Portugal em muita coisa desta vossa cultura enriquecida com experiências de outras terras e raças.

Das ligações profissionais resultaram projectos de intercâmbio, voltei para colaborar no ensino de pós-graduação do Instituto, o que me deu oportunidade de com Raul Machado ter desenvolvido nalguns dos estudantes o gosto pela prática das modernas técnicas de morfologia.
Foi ainda no edifício da Praia Vermelha que conheci um discípulo do Prof. Bruno Lobo, o Gerson Cotta-Pereira que viria a ser um dos primeiros brasileiros a estagiar no meu laboratório em Oeiras.

Tenho seguido o seu esforço para implantar nesta universidade o ensino da histologia e um laboratório condigno. E é com agrado que constato o que tem feito apesar dos recursos muito modestos de que dispõe.

A colaboração com Roberto Alcântara Gomes, iniciada na Praia Vermelha, continuou mais tarde a ser desenvolvida nesta universidade o que me permitiu continuar a colaboração que tenho prestado ao ensino pós-graduado.

O conhecimento que fui adquirindo do Brasil e das suas instituições universitárias permitiu-me divulgar em Portugal alguns dos vossos valores e defender a causa do intercâmbio entre os nossos países. Causa que não é muito popular numa época de crise financeira. Mas há que fazer um esforço e imaginar soluções.

Os acordos culturais que periodicamente os governos celebram por ocasião de uma visita ou comemoração não tem sido instrumentos muito eficazes da aproximação que se deseja.

Como dizia António Valdemar, "muitos discursos, muitos abraços e afinal fica tudo na mesma", em meu entender nesses acordos, que se passam a um nível demasiado alto, criam-se funções mas não se consideram as estruturas adequadas para a sua execução.

1 – As universidades contem todos os ingredientes para se tornarem grandes instrumentos na dinamização e enriquecimento das relações entre os nossos países.
2  Por isso quando agora regressar ao meu País tudo farei para aproximar as duas universidades a que agora pertenço.
3  Há que interessar os agentes dos intercâmbios que são lucrativos num programa cultural de forma a não sobrecarregar os nossos magros orçamentos.
4 – Há que encontrar fórmulas de tornar a juventude um dos intermediários privilegiados nesse intercambio.

Espero que os laços mais íntimos que me ficam a ligar a esta universidade me dêem a oportunidade de participar em novas experiências de aproximação e em novos encontros com o Brasil.

Na época de crise financeira e económica que os nossos países atravessam, pode não parecer a mais apropriada para desenvolver um relacionamento que necessita de meios para se desenvolver. Há que utilizar a imaginação e processar esses meios fora dos orçamentos já apresentados da universidade.

A cultura que é a actividade mais nobre das nações é motor de outros tipos de intercâmbio e criadora de riqueza. Há que encontrar nas comunidades portuguesas no Brasil. E os agentes de intercâmbios materialmente lucrativos de ambos os países, o apoio para prosseguir no plano cultural.

Também descobrirmos em conjunto os problemas que nos afligem, também pode ser de um meio para encontrar soluções e a troca de experiências.

Não vos fiz uma oração de sapientia. Pratiquei a informalidade que é um dos traços que mais aprecio no vosso relacionamento.

Na manta de recordações que desfiei estão as razões de coração que me levaram a aceitar a honra que hoje recebo e que também me permitem concluir que se alguma coisa tenho dado foi muito mais o que recebi.

Obrigado

 

Nota sobre uma iniciativa:
Na Universidade de Lisboa, a Faculdade de Letras tem tido um comportamento exemplar. O seu iniciador foi o Prof. Vitorino Nemésio, poeta e escritor, grande amigo do Brasil e grande divulgador entre nós da cultua brasileira. A sua acção tem sido homenageada pelo Prof. Fernando Cristóvão, actual Presidente do Conselho Cientifico. Na divulgação da literatura brasileira foi ainda recentemente enriquecida pela publicação da Imprensa Nacional, um livro intitulad "Cruzeiro do Sul a Norte", em que se reúnem uma série de estudos acerca de Gracihaim Ramos, Jorge Amado, Clarisse Lispector, Raul Boop, Dinah Queiroz, Cecília Meireles e vários outros. É a divulgação da literatura brasileira, que o Prof. Fernando Cristóvão tem defendido, com o objectivo de aprofundar o intercâmbio cultural a criação.

 

Ver documento original em PDF (abre uma nova janela)