As Metamorfoses do Microscópio e do Instituto de Histologia (Palestra - 1999)

As Metamorfoses do Microscópio e do Instituto de Histologia e Embriologia

Aula de Jubilação

J. F. David-Ferreira

1 de Julho 1999

 

Video: Jubilação - Aula proferida pelo Professor José Francisco David Ferreira

Aula proferida pelo Prof. Doutor José Francisco David-Ferreira na sua cerimónia de homenagem, de Jubilação, na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, no dia 1 de Julho de 1999. 

  

Não soube, não pude e não quis esquivar-me ao convite para uma despedida formal.

Vinda de colegas e colaboradores, amigos que muito prezo e estimo, senti-me obrigado a aceitar a prova e a provação.

Avesso a homenagens, às que me dizem respeito, aceitei embaraçado mas na convicção que tudo passaria numa atmosfera discreta e familiar.

Comecei a pressentir, o que agora constato, que as dimensões da conspiração se alargavam, que a obrigação era outra e que me era exigida uma prova final em que já não posso usar as armas de profissional ainda activo em lides laboratoriais avançadas. Restam-me as armas da história e da memória.

A ocasião é propícia para um regresso ao passado, com olhos no futuro já a ser vivido por aqueles com quem tenho compartilhado, não só a vivência profissional, mas também sonhos, esperanças e a mesma paixão.

Não serei académico, como é exigido nestas circunstâncias.
Não será nem aula nem lição, mas o discurso de um percurso.

No tempo necessariamente breve para esta exibição, limitar-me-ei a apresentar alguns quadros que marcaram a história do Instituto de Histologia, da Biologia Celular e do microscópio, um dos instrumentos que mais influenciaram o desenvolvimento da Medicina e a sua transformação em Ciência.

Quando há 52 anos frequentei na Escola Politécnica, os preparatórios de Medicina, era jovem, romântico e direi que também laico e republicano.

O apelo interior, o projecto de vida era o de ser útil, servir o meu País e se possível a humanidade sofredora.

Alimentavam estas aspirações juvenis, os valores transmitidos por familiares, as leituras próprias da idade e da época, os livros que o saudoso Rómulo de Carvalho recomendava e que os preços da colecção Cosmos facilitavam.

Eram também as tertúlias de café, as leituras clandestinas, as pequenas conspirações, a revolta latente de uma geração que vivia a juventude em liberdade condicional.

As primeiras lições de microscopia e de histologia, recebi-as quasi clandestinamente no laboratório particular do Prof. Dias Amado na Rua Castilho, na sequência do seu afastamento compulsivo da Faculdade de Medicina.

E se vocação é também a realização de uma actividade de que se gosta, foi aí que comecei a sentir o prazer de ensinar nos exercícios de exposição a que o mestre nos submetia.

Foi essa experiencia, e a amizade que então estabeleci, com o meu colega e amigo Dias Amado, que me abriram as portas do Instituto de Histologia onde aprendi os artifícios e artefactos da técnica e a descobrir no microscópio o que os livros ensinavam.

Já no final do curso partilhei durante algum tempo as tarefas de enfermaria no Hospital de Santa Marta com a aprendizagem das técnicas laboratoriais, mas a escolha estava feita.

No Oásis do Instituto vivia ao microscópio os prazeres do já descoberto e também, não o devo ocultar, o prazer de as compartilhar com outros.

A decisão íntima saiu reforçada, e começou a concretizar-se, quando um dia ao fim da tarde o Prof. Celestino da Costa, um dos professores que mais admirava, fez o convite simples e directo: "Precisamos de sangue novo no Instituto".

Era a oportunidade sonhada, aliás na época pouco cobiçada pelos colegas que se preparavam e reservavam, para uma carreira, sem dúvida mais proveitosa e eventualmente mais útil de clínicos ou cirurgiões.

Mesmo os familiares mais próximos não compreendiam bem a escolha, que foi interpretada mais como uma originalidade juvenil do que como um propósito firme.

Foi assim que entrei, em boa hora e por boas mãos, no mundo do ensino e da investigação e comecei a viver o fascínio do microscópio e da experimentação laboratorial. As relações em directo com factos, interpretações e teorias sobre células e tecidos.

As origens do microscópio são modestas. Surge como um produto do acaso.

Não há certezas sobre o nome do seu inventor. Serviu de distracção e passatempo a ociosos e curiosos antes de ser instrumento de eleição para as ciências da natureza.

São sem conta as metamorfoses que sofreu.
Admite-se que foi na cidade de Florença que se começaram a fabricar lentes paria corrigir deficiências de visão. Não há relato escrito.

Em textos literários que o tempo conservou há referencias muito antigas ao seu uso.

A utilização de lentes com o objectivo de estudar a natureza ignora-se quando e onde começou. Também não se sabe onde surgiu a ideia das combinações que estão na origem do telescópio e do microscópio composto. Refere-se que foi na Holanda onde se começaram a construir esses instrumentos.

Talvez Galileu tenha usado o microscópio mas foi o telescópio que lhe deu fama de explorador dos céus e de fundador-mártir da Ciência Moderna.

Dos primeiros utilizadores do microscópio a história consagra o nome de Robert Hooke, na sua "Micrografia" publicada em 1663 são descritas e representadas, entre outras curiosidades, os espaços vazios que observou num corte de cortiça e a que deu o nome de células. Um espaço vazio que levou séculos a preencher.

Quanto a Hooke não há rasto de quadro ou figura que o represente, mas ironia do destino há reproduções do seu microscópio e pudemos rever na "Micrografia" as moscas e pulgas que observou.

No século XVIII, o telescópio e o microscópio foram olhados com desconfiança e reserva pelos menos crédulos e pelos mais crentes que se recusavam a observar através deles na convicção de que instrumentos artificiais enganavam os sentidos porque alteravam as formas naturais e introduziam cores que lá não estavam. E até era verdade.

As imperfeições das primeiras lentes, ampliadas pela sua combinação no microscópio composto, explicam as dúvidas e o cepticismo dos primeiros utilizadores e algumas das interpretações fantasiosas que fizeram.

Pondo de lado os preconceitos, as imperfeições das combinações de lentes usadas justificavam as dúvidas dos utilizadores e o êxito do microscópio simples.

É o êxito de Leeuwenhoek cujas observações e descobertas só foram confirmadas mais de século depois.

Durante 50 anos escreveu cerca de 200 cartas para a Royal Society de Londres em que transcrevia as suas observações. Células sanguíneas, espermatozóides, protozoários, bactérias. Tudo o que despertava a sua curiosidade imensa. Mérito do observador que era, das lentes que preparava, e dos microscópios simples que construiu, cujo poder resolutivo ainda surpreendem os especialistas hoje.

De todas as observações que fez foi a descrição "animaluculus" do esperma o que despertou maior curiosidade na época. Relacionava-se com o problema da génese que era domínio de filósofos e teólogos.

Observados por outros os espermatozóides (os animaluculus de Leeuwenhoek) deram origem à descrição "Lumunculo" que hoje nos faz sorrir e que foi a base de uma das teorias da préformação.

Enquanto as observações realizadas com o telescópio tiveram impacto quasi imediato na sociedade e filosofia do seu tempo, pois foi reconhecida a importância das suas revelações e a ameaça que representavam para a doutrina, as observações dos primeiros microscopistas não deram origem a qualquer controvérsia.

Não punham em causa as revelações dos livros sagrados. O mundo microscópico não tem lugar nas escrituras.

Também não permitiam revelar nenhuma das pequenas máquinas postuladas pelos mecanicistas, uma das filosofias então florescentes e de que Descartes era um dos mentores, um mecanicista cujo primeiro erro foi não acreditar no que Harvey dizia: que o coração era uma bomba.

Em Leeuwenhoek há já sinais de um homem da Ciência moderno. Uma mistura de artesão e pensador que observa, descreve, compara, comenta, divulga. Alguns dizem-no diletante, mas o certo é que o volume e qualidade das suas observações e dos instrumentos que construiu e utilizou são testemunho de um observador infatigável que desenvolveu a sua actividade numa época em que não havia suporte teórico que enquadrasse as suas descobertas.

Leeuwenhoek não é simplesmente uma curiosidade na história da microscopia.

É no século em que viveu que começa a emergir a Ciência Moderna, um processo iniciado no século anterior.

A Revolução Científica cujo desenvolvimento e sucesso se associam à invenção de instrumentos de observação e de medida caracteriza-se também por uma mudança de atitude dos seus cultores.

É a conquista da autonomia da Ciência em relação a outros poderes, um processo em que as Sociedades Cientificas e Academias irão desempenhar um papel fundamental. É já o Ethos da Ciência em formação.

(um polidor de lentes, contemporâneo de outro oficial do mesmo oficio que foi Spinoza, que poliu lentes para sobreviver)

Durante o século XVIII, que é parco em resultados nos domínios da citologia e da Histologia, o microscópio foi muito aperfeiçoado.

O trabalho empírico de amadores e construtores, e algum progresso da óptica, culminaram com a correcção das aberrações de cromaticidade e esfericidade e com a construção e comercialização, já no século XIX, de microscópios compostos acromáticos de grande qualidade. A Microscopia ganhou adeptos e credibilidade e iniciou-se uma nova era da Anatomia microscópica.

A teoria celular enunciada em 1839, por Schwann e Schleiden, tem por base os resultados das numerosas observações entretanto realizadas.

Um outro aperfeiçoamento de grande impacto foi introduzido na sequência dos trabalhos teóricos de Ernst Abbe e da sua associação a Carl Zeiss.

É a comercialização de microscópios com lentes corrigidas e objectivas de imersão e, em 1886, um progresso novo, também participado por Abbe, a construção de lentes apocromáticas que eliminaram a aberração cromática residual.

Alguns dos avanços mais significativos da Medicina têm por base a utilização do microscópio e os conceitos elaborados na sequencia da exploração do mundo celular, foram o ponto de partida para a compreensão da origem e das transformações que acompanham a evolução da doença.

Depois de enunciada, a teoria celular a patologia celular de Virchow provocou o progressivo abandono das teorias puramente especulativas que ainda dominavam a prática médica no século XVIII.

Não é pois exagero que alguns historiadores considerem a teoria celular como o início da era científica na Medicina.

Além de instrumento de progresso científico, o microscópio é desde Virchow equipamento indispensável na fundamentação de diagnósticos e prognósticos.

No princípio do século XX sabia-se que todos os organismos vivos eram constituídos por células. Admitia-se que eram limitadas por uma membrana e que no seu interior se podiam identificar estruturas diferenciadas a que se atribuía significado funcional. Protoplasmas funcionais primeiro, organitos celulares mais tarde.

Sabia-se que as células se dividiam e que nesse processo o núcleo perdia a sua individualidade e que o material que o constituía, a cromatina se transformava nos cromossomas que após movimentos ordenados e precisos se repartiam em número igual pelas duas células filhas. (descobriu que era aí que residiam os segredos da hereditariedade)

Sabia-se que os organismos superiores, as células, que os formavam, se organizavam em tecidos e que as características das células que os constituíam reflectiam as funções especializadas que desempenhavam.

O conceito de organito celular substituía a noção de que o conteúdo das células era uma massa gelatinosa homogénea, o protoplasma a que eram atribuídas as propriedades vitais que tanto intrigavam sábios e doutores. O "princípio vital" dos vitalistas.

Apesar de separados pela distância geográfica e cultural dos centros europeus onde nasceu a Ciência, cedo se começaram a acompanhar em Portugal os progressos da microscopia. Os iniciados trouxeram a notícia da sua utilização na investigação laboratorial e das suas potencialidades na prática médica. Foi nos alvores do século XX que o microscópio adquiriu entre nós direito de cidade. É uma história que já foi escrita.

Nesse processo o Instituto de Histologia e Embriologia ocupa um lugar central sob a liderança do Prof. Augusto Celestino da Costa, jovem professor da Cadeira de Histologia criada na sequência da reforma do ensino médico de 1911, na onda da modernidade que acompanhou a implantação da República.

Numa análise sumária podemos dizer que os morfologistas portugueses acompanham os progressos que se foram sucedendo nos centros mais avançados da Europa.

Contribuição modesta, condicionada pela escassez de recursos humanos e materiais e por uma tradição cultural pouco propícia, senão hostil, ao desenvolvimento cientifico.

O microscópio era o instrumento básico do ensino prático e dos programas de investigação que decorriam no Instituto quando comecei a frequentar o laboratório.

No Centro de Estudos Endocrinológicos que aí funcionava, vinha sendo desenvolvido, desde a sua fundação, um extenso programa sobre a histofisiologia das glândulas endócrinas. Era reconhecido por todos como um Centro de excelência a que não faltava a projecção internacional do seu Director.

Começaram então a ensaiar-se as técnicas histoquímicas na supra-renal, um dos temas preferidos do Prof. Celestino e tópico da tese de um dos seus assistentes, o Doutor Vasconcelos Frazão.

Com a citoquímica e histoquímica pretendiam os histologistas localizar de forma específica, em células e tecidos compostos do seu metabolismo, e estudar as suas variações em diferentes condições experimentais.

Uma nova etapa cujo objectivo era substituir a análise cromática das técnicas empíricas das colorações e impregnações metálicas, que tão úteis foram para estabelecer a cartografia celular e tecidular, mas que já pouco acrescentavam ao conhecido.

Aprendi muito nesse período, nomeadamente com o Doutor Iriarte Peixoto com quem colaborei nos estudos sobre os mecanismos da eosinopenia em condições de stress.

Com a invenção e construção do microscópio electrónico, uma das invenções mais notáveis do século, começou a perspectivar-se a partir dos anos 40 a possibilidade de se ultrapassarem os limites de resolução do microscópio óptico e de se obterem ampliações úteis de uma ordem de grandeza 100 vezes superiores aos melhores microscópios até então construídos.

Era porém necessário adequar, às condições de funcionamento deste aparelho, os instrumentos e processos utilizados nas preparações para observação no microscópio óptico.

A espessura dos cortes tinha de ser extremamente reduzida para que se pudessem ser atravessados no vácuo pelo feixe de electrões. Isto obrigou a grandes alterações nos processos de fixação e inclusão usados, e ao desenvolvimento e construção de aparelhos de grande precisão (ultramicrótomos) para obter cortes com algumas dezenas de nanómetros (1 mm tem 1 milhão de nanómetros).

A partir da década de 50 alguns destes problemas estavam resolvidos e o microscópio electrónico começa a ser usado na investigação de células e tecidos.

A observação de organitos celulares, já identificados com o microscópio óptico, veio revelar novos detalhes de onde se partiu para o estudo da sua organização macromolecular.

Aconteceu assim com as mitocôndrias, com os cloroplastos e com a membrana celular.

O impacto foi considerável, confirmaram-se hipóteses, encerraram-se antigas controvérsias e procedeu-se a uma profunda revisão de toda a citologia e histologia. Na microbiologia era a partir de então possível a observação detalhada das células bacterianas e visualizar pela primeira vez os vírus, estudar a sua organização e investigar as suas relações com as células que parasitam.

Foi no domínio da microscopia electrónica que fiz a minha preparação post-graduada e vim a desenvolver actividade profissional no ensino e na investigação.

A citologia foi a designação utilizada para definir a disciplina que estudava as células, enquanto esse estudo foi essencialmente morfológico. Uma designação que se tornou insuficiente quando se foram acrescentando contribuições de disciplinas como a bioquímica e a genética. Incorporaram-se novos conhecimentos, instrumentos e métodos.

A designação de Biologia Celular começa a utilizar-se para definir esta área de estudo e de investigação quando se esbateram as fronteiras entre áreas separadas por diferentes metodologias e objectos de estudo.
A morfologia, a bioquímica e a genética associam-se num mesmo programa.
Convergência de objectivos, integração de resultados, novas abordagens experimentais.

Essa combinação de conhecimentos e técnicas laboratoriais de citologia e da bioquímica, atingiram um dos seus momentos mais altos na segunda metade deste século nos Laboratórios do Instituto Rockefeller. Uma estratégia empreendida por um conjunto de investigadores notáveis: Albert Claude, George Palade, Keith Porter, P. Siekevitz e mais tarde Christianne de Duve, da Universidade de Lausane.

Com o apoio de engenheiros e técnicos do Instituto foram construídos ou aperfeiçoados equipamentos (e.g. o Ultramicrótomo Porter-Blum e a Ultracentrifugadora) e inovadas técnicas de preparação (e.g. fixador de Palade, auto-radiografia) em que se combinaram as virtualidades da bioquímica e da morfologia ultraestrutural.

Foi a Biologia Celular no seu melhor. São dessa época a identificação dos ribosomas, os trabalhos em que se estabelece  as bases morfológicas da síntese proteica e o significado da compartimentalização do citoplasma por sistemas de membranas.

São observados isolados e analisados bioquimicamente organitos conhecidos e desconhecidos, como os lisosomas e peroxisomas, cujas funções viriam a explicar mecanismos importantes da biologia celular assim como a patogenia de várias doenças.

Uma orientação acertada e oportuna do Prof. Xavier Morato, que era então Director do Instituto, e uma bolsa do Governo Francês, detida graças ao interesse e influência do Prof. Celestino da Costa, junto do adido cultural da Embaixada de França, Pierre Hourcade, permitiram-se a realização de um estágio no Laboratório de Microscopia Electrónica do Dr. William Bernhard no Institut de Recherches sur le Câncer em Villejuif, de que era Director o Prof. Charles Oberling, e que era então um dos melhores Centros de Investigação do País.

Depois de muitas peripécias burocráticas, e não só, parti para um estágio de iniciação na nova microscopia.

A técnica dos cortes, como então se praticava, era um exercício de paciência sem limites. Um corte com espessura adequada, para ser observado, era o milagre do dia, e uma microfotografia nítida de um qualquer detalhe um prémio inesperado.

Porque o Microscópio era temperamental. Postulava-se mesmo a existência de pequenos diabinhos os trol electrónicos, encarregados de dificultar todas as operações, e quando tudo corria bem era porque estavam a dormir. O problema é que tinham insónias. Substituir filamentos, quando inesperadamente se fundiam, sem razão aparente, alinhar o feixe, preparar ou limpar diafragmas, corrigir o astigmatismo, detectar fugas de vácuo...

Uma microfotografia nítida e com bom contraste era pretexto para festa.

Foi um período heróico para os que então se iniciavam e sobreviveram.

Com o microscópio electrónico, a vertigem das ampliações e os problemas de interpretação, o dilema permanente eram factos ou artefactos.

São desse período os estudos que realizei sobre as células do pâncreas endócrino em que se demonstra a participação do aparelho de Golgi (na época para alguns considerado um artefacto da técnica), na elaboração das granulações de secreção. Se descreve a sua excreção para o espaço subendotelial dos capilares e o mecanismo vesicular de transporte através das células endoteliais que veio a ser designado mais tarde trasncitose.

A introdução da microscopia electrónica em Portugal, nos finais da década de 50 foi possível graças à Fundação Calouste Gulbenkian que financiou a instalação e manutenção no Instituto de Histologia e Embriologia do primeiro Laboratório com a capacidade para executar as técnicas de ultramicrotomia. Foi uma das primeiras acções da Fundação na área da Ciência. Uma decisão do Doutor Azeredo Perdigão que então iniciava as suas funções como Presidente.

Uma acção que veio a ser prosseguida alguns anos mais tarde com a instalação de outras unidades de microscopia electrónica nas Universidades do Porto e de Coimbra e na década de 60 com a criação do Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras que tem sido desde então um dos Centros que mais contribuiu para a renovação da Ciência em Portugal.

Cabe aqui uma palavra de muita saudade para os meus companheiros do IGC, doutores Peres Gomes e Nicolau Van Uden, inspirador do Programa de Estudos Avançados de Oeiras, cujos cursos promoveram a introdução de novas áreas científicas e a prática no nosso Pais de algumas tecnologias mais avançadas da biologia contemporânea.

Tenho a este propósito também de referir a Karin e o Lemos, dois profissionais muito competentes que pela qualidade do seu desempenho contribuíram para o trabalho realizado no LBC do IGC e sobretudo pela generosidade e empenho com que transmitiram a sua experiância às muitas dezenas de estagiários que aí se formaram na área da microscopia electrónica, alguns dos quais prosseguem hoje a sua carreira na Faculdade de Medicina de Lisboa.

São dos anos 50 e foram realizados no Laboratório de Microscopia Electrónica do Instituto de Histologia e Embriologia, entre outros, os trabalhos que serviram de base à minha tese de Doutoramento sobre a Diferenciação do Condrioma, Aparelho de Golgi e Ergastoplasma, Estudo ao Microscópio Electrónico e as investigações sobre as plaquetas sanguíneas em que foi demonstrada a presença de glicogénio nestes elementos assim como a sua capacidade fagocitaria.

Com o desenvolvimento das técnicas de preparação do material biológico para observação no microscópio electrónico, este instrumento tornou-se indispensável não só no estudo das células e componentes celulares mas também de microorganismos e macromoléculas biológicas.

O estudo da anatomia dos vírus e das suas relações com as células que parasitam foi um tema privilegiado, aliás decisivo para o desenvolvimento da virologia. Não é pois de estranhar que os que tinham acesso ao microscópio e dominavam as técnicas de preparação fossem solicitados, estimulados e mesmo assediados para investigar problemas nesta área, o que aconteceu nos laboratórios em que trabalhei, nomeadamente no National Institute of Health, em Bethesda, e no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras.

É impossível contabilizar o número de horas e frustrações que os praticantes da modalidade de "Caçadores de vírus" despenderam na procura vã de agentes das mais diversas doenças e tumores. Independentemente da magreza dos resultados em relação ao tempo e esforço despendidos, surgia por vezes o sucesso do resultado inesperado como a identificação de um novo vírus ou a identificação de um micoplasma numa doença supostamente provocada por um vírus ou em doença supostamente provocada por um micoplasma ou, como aconteceu quasi acidentalmente, num trabalho em que o objectivo principal era demonstrar o putativo agente em vez de um tumor.

O estudo das relações célula-vírus beneficiou muitos dos estudos relacionados com a microscopia electrónica. Usando células em cultura foi possível estudar e ordenar as etapas da infecção viral desde a penetração do vírus até à sua libertação da célula infectada.

Caçar vírus ao microscópio electrónico não era tarefa fácil. Prestava-se a conclusões precipitadas e a literatura está cheia de erros monumentais.

Há uma grande distância entre a observação de partículas supostamente virais ao microscópio e a demonstração de que se trata de um vírus como agente causal de uma doença.

Um dos últimos "safaris" em que participei (em colaboração com a Karin e o Dr. Morris do NIH) foi a procura em cortes provenientes de colheitas de cérebros de ratinhos a que tinha sido transmitido o putativo agente do "Scrapie", uma doença degenerativa do sistema nervoso das ovelhas que hoje se admite ser a origem da doença das vacas loucas,

Muitos e muitos cortes. Muitas e muitas horas ao microscópio. Centenas de microfotografias, magros resultados para quem procurava identificar o agente (vírus?) de uma doença que então já se sabia ser parente próximo de agentes de doenças humanas, como o Kuru que dizimava os indígenas da Nova-Guiné e que era um provável putativo agente de outras doenças degenerativas do sistema nervoso.

Faziam todos parte de um conjunto de agentes a que se dava a designação de vírus lentos.

Concluímos o nosso trabalho sobre "Scrapie" com a descrição das alterações celulares observadas e a descrição de inclusões de partículas, resultados que foram mais tarde confirmados. Mas fomos prudentes quanto a etiqueta do vírus, porque nunca observámos sinais de replicação dessas partículas nas células observadas.

Entretanto surgiu a hipótese de que o agente do "Scrapie" pertencia a uma nova categoria de agentes: os Priões.

Hoje as potencialidades de aprofundar o nosso trabalho seria a eventual utilização complementar da microscopia de fluorescência e imunocitoquímica para esclarecer a natureza das inclusões de partículas que observámos e descrevemos.

Nas últimas décadas, com o renascimento do microscópio de fluorescência é o regresso da cor.

Depois da introdução dos sistemas de epiiluminação e dos anticorpos monoclonais, a microscopia de fluorescência adquiriu um novo protagonismo. Tornou-se possível localizar com grande especificidade um número quasi ilimitado de proteínas celulares.

O estudo "in situ" do citoesqueleto e dos seus componentes é um bom exemplo da contribuição da imunocitoquímica na identificação e localização de um conjunto de proteínas responsáveis por fenómenos tão importantes como o movimento, a mudança de forma e o transporte intracelular.

Há muitos outros exemplos.

(Se o conteúdo cientifico é por vezes difícil de explicar rapidamente a não especialistas – há o impacto visual, estético a que o verde e vermelho e por vezes o amarelo, resultante da sua sobreposição, dão um colorido nacional às miragens)

Uma das grandes limitações da microscopia foi sempre a quasi impossibilidade de estudar células e organismos intactos in vivo. A execução de cortes suficientemente finos para serem observados pelas radiações do sistema óptico utilizado é indispensável para a obtenção de boas imagens.

Há alguns anos a esta parte começaram a surgir perspectivas de ultrapassar esta limitação com a utilização do microscópio confocal de varredura.

Este novo instrumento, que é resultado do progresso da microelectrónica, computação e técnicas de digitalização e intensificação de imagem permite a observação e registo de cortes ópticos dos vários planos das células em estudo.

As imagens podem ser digitalizadas e tratadas de forma a intensificar os sinais e a obter reconstruções tridimensionais.

A visualização das estruturas em estudo é assegurada pela combinação dos seus componentes com fluorocromos, que depois de introduzidos na célula podem ser observados por fluorescência após excitação com radiações de comprimento de onda adequado.

Mais recentemente utilizando técnicas de engenharia genética é possível após transfecção das células para que elas próprias produzam a proteína em estudo já associada a um componente proteico bioluminescente .

Não posso, porque o tempo é escasso, nem devo porque seria abusar da vossa paciência saturá-los com descrições dos fundamentos dos instrumentos, pormenores das técnicas e das estratégias experimentais que hoje se praticam, que possibilitam através de marcações específicas e sonda apropriadas o registo em directo e em condições experimentais bem definidas do comportamento de genes ou produtos de genes. É uma nova geração de microscópios e microscopistas.

O Instituto de Histologia e Embriologia já se encontra equipado para a prática das novas tecnologias. O primeiro Microscópio Confocal foi adquirido através do Programa Ciência e a sua instalação e sucessivos melhoramentos devem-se à Prof. Maria do Carmo Fonseca. É uma nova forma de microscopia que tem vindo a ser utilizada com sucesso em vários projectos em curso no CEBIP.

Os líderes das unidades que os constituem são os professores Maria do Carmo, Leonor Parreira e Domingos Henrique e os seus colaboradores.

Direi ainda que os resultados da microscopia de fluorescência convencional ou confocal seriam impossíveis de interpretar sem os conhecimentos prévios sobre a topologia e organização dos compartimentos celulares, que o poder da resolução e as ampliações do microscópio electrónico permitem estabelecer. É ainda um instrumentos insubstituível e indispensável para localizações a nível ultraestrutural e para o estudo de macromoléculas biológicas.

O nosso Instituto não está já devidamente equipado para a prática de uma microscopia electrónica moderna.

O financiamento possível através dos programas de investigação não cobre todas as necessidades e há que fazer por vezes opções dolorosas sobretudo porque se está a perder o know-how existente.

O Microscópio electrónico que dispomos foi oferecido pela Fundação Calouste Gulbenkian à Faculdade de Medicina à 24 anos é já um instrumento da anterior geração.

Um parêntesis para um comentário:
No Instituto de Histologia e Embriologia, como noutros centros de investigação do País, há sinais de progresso e de sucesso que são também consequência das politicas empreendidas para modernizar e reforçar os sistemas nacionais de ensino e de investigação. Não é demais chamar a atenção que o progresso científico exige um esforço continuado porque os equipamentos envelhecem mais rapidamente que os investigadores e que há áreas muito dependentes da qualidade dos instrumentos que se usam. A sua renovação e actualização deve ser assegurada quando as necessidades e qualidade do trabalho produzido o justificam.

O ensino e a investigação continuam a ser a paixão dos universitários, que não foram atingidos pelo desânimo nem se deixaram corromper por valores mais terrenos. Para recuperar o atraso de décadas das nossas Universidades há que continuar a investir, mesmo que seja necessário recorrer ao "leasing".

A Medicina foi ao longo de séculos a arte de mitigar o sofrimento e de curar e prevenir a doença. Com os avanços da Ciência o seu exercício foi-se transformando progressivamente numa prática com bases cientificas que hoje dispõe e usa os meios e instrumentos mais sofisticados da Ciência Moderna.

A aceleração do progresso cientifico permite antever que o diagnóstico, tratamento e prevenção de doenças que, ainda sem cura, virão a beneficiar a curto prazo das descobertas e dos avanços mais recentes da biologia e genética molecular.

Fala-se já da medicina predizente na sequência dos conhecimentos acumulados sobre o genoma humano e compreensão dos mecanismos moleculares das doenças.

Algumas consequências supostamente e eventualmente prescientes destes progressos são nos nossos dias tema de reflexão ética sobre a necessidade de criar processos que assegurem o "sigilo médico", base da confiança que deve governar as relações entre médico e paciente.

O problema não é da Ciência mas da aplicação das tecnologias que inspira.

Dos tempos de Miguel Bombarda aos nossos dias, e apesar de alguns acidentes de percurso, não dependentes de pessoas mas de autoridades, o Instituto de Histologia e Embriologia acompanhou o desenvolvimento e os progressos dos microscópios e das técnicas laboratoriais que permitem a sua utilização na exploração de células e tecidos e na investigação dos mecanismos que regem o seu funcionamento.

Não é demais recordar o papel fundador de Augusto Celestino da Costa, a sua extensa obra científica, pedagógica e cívica e também dos seus colaboradores nomeadamente Roberto Chaves, Dias Amado e Xavier Morato.

A últimas décadas foram particularmente propícias para assegurar a continuidade da sua obra e para um salto qualitativo conforme aos tempos que se vivem.
Além do instrumental e "know how", necessário para a prática de uma biologia moderna, o Instituto dispõe de um capital humano cuja qualidade foi já posta à prova e avaliada na excelência do trabalho que produzem.

Revelaram-se líderes bem preparados para orientar e acompanhar cientificamente os seus colaboradores. Criaram uma dinâmica visível até no caos aparente das bancadas de trabalho.

Representam uma massa critica com qualidade e capacidade para atrair novos valores. São merecedores da oportunidade de participar no esforço e na alegria da descoberta.

Recorrendo à metáfora do 'sangue novo', com que fui acolhido pelo Prof. Celestino, poderei comentar que o renascimento do Instituto de Histologia foi possível há alguns anos pelas transfusões que recebeu do Instituto Gulbenkian de Ciência – Hoje já está em condições de funcionar como órgão hematopoiético. Produz 'sangue novo' e até já é dador.

Durante os anos em que esteve a meu cargo a direcção do Instituto tive a felicidade e o privilégio de contar com a colaboração de jovens muito dotados e generosos que têm garantido a qualidade tradicional do Instituto no ensino e na investigação e em que fomos ajudados por técnicos competentes e dedicados. (Será uma injustiça não mencionar aqui a Karin e o Lemos)

Também fui apoiado por colegas que tiveram paciência para me aturar nos órgãos de gestão em que participei. Umas vezes por complacência outras por cumplicidade conspirativa. Não denunciarei hoje ninguém.

Se alguma coisa me posso orgulhar foi o de ter sido mensageiro fiel de valores que me foram transmitidos pelos meus mestres (alguns aqui presentes), de ter sido cúmplice de colegas a quem me associei no propósito de renovar e modernizar as instituições que servi (alguns também aqui presentes) e finalmente, e porque não dizê-lo, também me orgulho de ter sido co-autor dos sucessos que tivemos.