Augusto P. Celestino da Costa e o Advento da Ciência Moderna (Palestra - s/data)

Celestino da Costa e o Advento da Ciência Moderna

J. F. David-Ferreira

• Agradeço ao Prof. Rui Pinto, Director do Instituto Bento Rocha Cabral o convite e a oportunidade de vos falar de Augusto P. Celestino da Costa, numa referência sempre presente desde que tive o privilégio de ter sido seu aluno e a honra de ter sido seu colaborador.

O seu exemplo e os seus desígnios foram um estímulo constante a que me esforcei a permanecer fiel.

• Este Instituto, bem perto da casa em que nasceu e também daquela em que viveu, foi uma das instituições em que desenvolveu algum do seu labor científico. Muitos dos seus colaboradores e outros docentes da FML encontraram aqui acolhimento para realizar trabalho laboratorial em vários domínios.

• Recordo que foi aqui que Augusto P. Celestino da Costa em colaboração com Pires Soares montaram e utilizaram a técnica da cultura dos tecidos.

• Também aqui tiveram lugar as 13 conferências de actualização e divulgação cientifica avançada que pronunciou de 1928 a 1954, todas publicadas nas Actualidades Biológicas. A sua leitura quando ainda estudante e depois assistente foram fonte de informação de que muito apreciei e beneficiei.

• A obra científica e cultural de Augusto P. Celestino da Costa nunca foi devidamente reconhecida pelo país.

• Já o mesmo não aconteceu da parte daqueles que o conheceram que foram seus alunos, colaboradores, discípulos ou colegas, porque foram muitas e expressivas as homenagens que lhe prestaram em vida e depois da sua morte.

• O carácter excepcional do Homem, do Professor, do Cientista e também da sua obra são bem patentes nos muitos artigos que lhe são dedicados. O percurso foi bem assinalado pelas memórias daqueles que com ele conviveram ou que testemunharam a sua acção.

• Também ele não deixou que se perdesse a memória da época em que viveu e dos acontecimentos em que participou, cuja historia bem conhecia. São muitas as notícias, notas biográficas, elogios necrológicos e monografias em que assinala a vida de colaboradores ou das instituições em que trabalhou...

• Alguns destes escritos são bem notáveis (em meu entender bem mereciam ser reproduzidos e divulgados).

• A história portuguesa das Ciências Médicas, durante o período em que viveu tem nos seus escritos um manancial de informações sobre a sua obra e dos seus contemporâneos e das circunstâncias em que se desenvolveu. (bem mereciam reedição sobre a forma de antologia porque se encontram dispersos)

• Dizer-se que Augusto P. Celestino da Costa foi um dos homens da sua geração que mais contribuiu para o desenvolvimento da Ciência em Portugal não é um exagero, até porque a sua acção cultural e cívica não se confinou aos muros da sua escola ou da sua área cientifica.

• As melhores sínteses que conheço (que me perdoe o elogio público) sobre a sua obra cientifica e cívica são da autoria do seu filho, Jaime Celestino da Costa, que também foi um dos Professores mais brilhantes e competentes da sua geração, analista, inteligente e observador privilegiado dos acontecimentos e circunstâncias que rodearam a vida pessoal e pública de seu Pai, permitiu-lhe descrever e comentar com rigor os muitos acontecimentos a que ele esteve associado.

• É pois muito difícil acrescentar algo relevante ao que já foi dito e escrito sobre Augusto P. Celestino da Costa. Eu próprio já dei testemunho do que directamente foi a minha experiência das muitas lições que recebi ou destilei das páginas dos seus artigos e dos seus livros e do orgulho que sinto por me considerar e ser considerado o seu discípulo, um privilegio a que sempre procurei corresponder.

• Esta minha intervenção é pois e simplesmente uma recapitulação abreviada do que já foi dito e escrito. Os factos são os mesmos e as interpretações não divergem. É óbvio que há muito material para os historiadores e sociólogos da ciência analisarem desapaixonadamente, usando os métodos próprios dos saberes que cultivam. Como aliás foi recentemente feito pela Doutora Isabel Amaral, na sua tese e numa comunicação apresentada em que também colaborei.

• Resolvi por isso dar a esta intervenção um carácter coloquial. Uma opção sem dúvida favorecida pela presença de personalidades que conhecem melhor a sua obra e as circunstâncias em que foi desenvolvida.

• Seleccionei para isso a leitura de alguns dos seus escritos ou comentários sobre a sua obra.

o Quais as motivações e circunstâncias que orientaram ACC para uma carreira científica?

o Como foi possível e em condições reconhecimento tão adversos desenvolver o seu trabalho?

o Como resistiu ao cepticismo que atingiu tantos dos seus contemporâneos?

o Quais as suas contribuições para o desenvolvimento da ciência em Portugal?

• Como professor – publicações.
• Como investigador e líder de uma escola cientifica (na continuidade de Athias Director, no Instituto de Histologia).
• Como gestor da Ciência, a sua acção.

• Sobre a motivação e circunstâncias que orientaram Augusto Celestino da Costa para uma carreira cientifica ele próprio nos dá a resposta, nomeadamente num esboço de um projecto de autobiografia intitulado "História de uma experiência", a que tive acesso graças à amizade do Prof. Jaime Celestino da Costa

"No inverno de 1902-1903, numa breve convalescença, no meu terceiro ano, tomei consciência das deficiências da Escola e do ensino e do que haveria a fazer integrando-os no movimento cientifico de criação da ciência nova" e acrescenta: "Decisões de apostolado nesse sentido 1902, 18 anos"

e foi assim a sua vida.

"exemplo não apenas de uma vida devotada à ciência, mas também a um ideal de civismo, servindo através do trabalho cientifico a criação ou revigoramento de uma mentalidade nacional". Como resumira o seu admirador Orlando Ribeiro.

Foram muitas e variadas as contribuições de Augusto Celestino da Costa para o desenvolvimento da Ciência em Portugal. Essas contribuições desenvolveram-se a vários níveis de intervenção:
• Como professor universitário
• Como investigador – produziu investigação original e fundou uma escola científica
• Como divulgador – divulgação científica
• Como historiador da ciência
• Como gestor da ciência
• Organização do sistema nacional de investigação científico

• O combate ao isolamento científico foi também uma das frentes em que se empenhou, e em que contribuiu para o avanço da ciência em Portugal.

• Cedo descobriu a forma de lutar contra esses factores limitantes, reconhecido como uma das causas do atraso cientifico dos povos ibéricos, "O enquistamento", como Cajal lhe chamou.

 Desde o seu estágio em Berlim, com Hertwig e Krause em 1906, que viajar foi uma ocupação regular. Estágios curtos em laboratórios, reuniões, congressos, visitas a bolseiros, conferencias. Como já tive ocasião de comentar ele foi o embaixador-itinerante mais bem sucedido da ciência portuguesa pela Europa e mais tarde pelo Brasil.

• Numa época em que não era fácil viajar, só às reuniões da Association des Anatomistes, que eram também o fórum privilegiado dos histologistas europeus, contam-se de 1920 a 1956 a sua participação sempre activa, em 26 dessas reuniões.

• Se refiro estes factos é porque eles também contribuíram para o desenvolvimento da ciência portuguesa e para a sua internacionalização como agora se diz.

• Hoje o isolamento já não constitui um verdadeiro problema, não só pelas facilidades de comunicação que existem como também pela compreensão que foi criada para a necessidade de se estabelecerem relações pessoais e de trabalho nas áreas da Ciência da Técnica e da Cultura.

• Mas na sua época os problemas eram bem diferentes e Augusto P. Celestino da Costa contribuiu com palavras e actos, nomeadamente quando foi Vice-Presidente do IAC e também pela influência pessoal para que os universitários e cientistas portugueses das mais diversas áreas viajassem e estabelecessem contactos profissionais em Congressos da sua especialidade ou em estágios em laboratórios.

• Como escreveria em 1946 e que ainda é verdade:

"A investigação científica exige um meio, um ambiente receptivo e estimulante, mas esse meio não aparece feito, cria-se pelo exemplo, pelo convívio, pela acção constante dos investigadores. Repetidas viagens a Centros estrangeiros, contactos estreitos com especialistas de outros laboratórios e de outros países, por visitas ou por correspondência, intercâmbio de conferentes, organização e participação em colóquio, sessões de sociedades cientificas e congressos, publicações em revistas da especialidade e troca das respectivas separatas e, ao mesmo tempo, acção sobre o público por conferências, artigos e livros de vulgarização e de expansão universitária, eis alguns dos processos que ajudarão a criar o ambiente e a combater esse terrível inimigo da investigação cientifica que é o isolamento".

E sobre Congressos:

"...Congressos que põem em contacto homens de diferentes escolas, de diferentes terras e nações; que permitem a cada um avaliar melhor do que valem os outros, ouvindo-os a falar, assistindo às suas demonstrações, examinando os seus documentos, apresentando-lhes criticas e escutando-lhes as respostas, e isto não só nas sessões propriamente ditas, mas em todas as ocasiões em que se encontram, durante os tais banquetes e os tais passeios que escandalizam tão boas almas, mas proporcionam tão excelentes ocasiões de se travar conhecimento e estabelecer sólidas amizades ente esses homens, como os sábios, para os quais o isolamento constitui um dos maiores perigos das sua carreira".
(Pedagógico como sempre)

• Crises politicas, mudanças de governo, dificuldades financeiras foram sempre motivo para limitar ou suspender despesas e investimentos nas áreas da ciência e da cultura com graves prejuízos para o desenvolvimento do país.

• Ao contrário do que muitos parecem pensar, a cultura e a ciência não são luxos e é ainda nessas áreas que algumas das médias comparativas europeias mais nos deveriam envergonhar.

• Também a falta de inovação que agora financeiros e economistas tanto se queixam são consequência do atraso científico e tecnológico do País, que só recentemente começou a ser contrariado. São porém investimentos a longo prazo cujo progresso não se compadecerá com interrupções, limitações ou modificações da estratégia seguida.


- Exemplo da criação da Junta de Educação Nacional -

• Não posso a este propósito deixar de recordar o que escreveu Augusto P. Celestino da Costa em 1940.

"(...) um dos maiores obstáculos que se levanta à ciência entre nós, que encontraram também pela frente os nossos microscopistas, é que só se respeitam os resultados de imediata utilidade individual ou colectiva, isto é, só se considera a ciência aplicada. Ignora-se que a ciência é, acima de tudo, a procura, a descoberta da verdade, a resolução de problemas de conhecimento, que em si próprios têm os seus objectivos e que não há aplicações possíveis se não existirem bases".

• Economistas – falam hoje de inovação. Em 1951, dizia:

"Mas a nossa indústria apesar dos nossos progressos não passou ainda da fase de imitação, de assimilação do que vem do estrangeiro, faltam-lhe os laboratórios de investigação, únicos capazes de fazer surgir uma nova descoberta, um novo método, uma nova industria e os laboratórios que uma ou outra mantêm não passam de modestas oficinas, onde apenas se procuram soluções imediatas com rendimento assegurado. Não há muito tempo que visitando técnico estrangeiro um dos nossos maiores centros industriais, em que aliás há tanto que admirar, o ouvi estranhar a ausência de laboratórios de investigação, conformando-se os seus engenheiros com aplicar o que lá fora se faz de melhor, condenando assim a industria nacional em matéria de invenção, a uma situação parasitária".