Reunião Conjunta das Sociedades Portuguesa e Espanhola de Microscopia Electrónica (Discurso - s/data)

Reunião Conjunta das Sociedades Portuguesa e Espanhola de Microscopia Electrónica
23ª Reunião SPME

Fundação Calouste Gulbenkian

J. F. David Ferreira

Começo por agradecer ao Senhor Secretário de Estado da Ciência e Tecnologia a honra que nos dá em presidir a esta sessão e o patrocínio concedido através da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Congratulo-me pelo facto do Senhor Professor, em virtude da sua formação profissional, estar em condições de compreender devidamente o interesse desta reunião e de poder apreciar o conteúdo científico do nosso programa.

À Fundação Calouste Gulbenkian, que é sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Microscopia Electrónica, estamos gratos pela sua larga contribuição para o desenvolvimento da Microscopia Electrónica em Portugal, e manifestamos os nossos agradecimentos pelo patrocínio e pelas facilidades agora concedidas que nos permitem reunir neste magnífico Centro de Cultura que é a sua Sede.

Cabe aqui uma palavra de saudade em memória do Dr. Ribeiro dos Santos, antigo Director do Serviço de Ciência, que tanto advogou a causa dos microscopistas portugueses.

To the President and the general secretary of the International Federation of Societies of Electronical Microscopy, our thanks for their disponibility to accept our invitation. I know how difficult was to adjust their profissional compromises and their flight schedules to be present today in Lisbon. Prof. Gareth Thomas is a long time friend of the Spanish Society of Electronical Microscopy and we do hope that during this short stay in Portugal he will discover some portuguese friends.
Prof. Arvid Maunsbach is an old friend of the Portuguese Society of Electronical Microscopy and we also do hope that this meeting will be an opportunity to extend his friendship to our spanish colleagues.

À Senhora Presidente da Sociedade Espanhol de Microscopia Electrónica - Doutora Immaculada Herrera - agradeço o patrocínio e a colaboração dada pela Junta Directiva, a que preside, na organização do programa desta reunião científica.
A todos os colegas de Espanha e Portugal que nos dão a honra de participar, junto às boas-vindas os votos de que se cumpram os objectivos que traçámos no programa e as expectativas que nos reúnem nesta jornada ibérica.

Na minha breve introdução aos trabalhos deste Congresso pretendo unicamente fazer alguns comentários sobre o significado desta Reunião Conjunta das Sociedades Portuguesa e Espanhola de Microscopia Electrónica.

Conforme Bradbury comenta no prefácio do seu interessante e bem documentado livro sobre a evolução do microscópio: "of all instruments used by the scientist, the microscope is perhaps the one which most aptly symbolize the profession to the non scientist. It is a tool which finds application in research, in teaching, and in a multitude of industrial and other applications".

De facto, como todos sabem e os biólogos muito especialmente, as diferentes formas de microscopia e as tecnologias a elas associadas têm sido uma das fontes mais importantes do progresso científico nos últimos dois séculos. Na área da biologia, o microscópio de luz tornou possível a construção durante o século XIX de alguns dos alicerces mais sólidos da biologia moderna como a teoria celular e a teoria genética da hereditariedade.

Promoveu e alargou o campo de diversas áreas disciplinares. Está na base da criação da citologia, da histologia, da microbiologia e da anatomia patológica.

A microscopia electrónica, que tem sido no século XX o que a microscopia de luz foi no século XIX, além de permitir o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no passado, como por exemplo a análise aprofundada da organização celular e tecidular, estendeu à escala macro-molecular e molecular a visão analítica dos morfologistas. Áreas da biologia moderna como por exemplo a biologia celular, a biologia molecular e a virologia não teriam progredido tão rapidamente não fora a evolução da microscopia e das tecnologias a ele associadas.

O microscópio electrónico foi o grande salto que tornou visível um mundo em grande parte só acessível pela especulação. A sua utilização e aperfeiçoamento permitiram progressivamente penetrar nos segredos da organização macro molecular e é hoje difícil imaginar como teria sido o desenvolvimento de vários ramos da ciência sem as contribuições dadas por este instrumento.

Passadas seis décadas da sua introdução por Ruska, o microscópio electrónico é ainda, nas suas várias versões, um dos instrumentos mais pródigos na análise da matéria e a ferramenta ainda hoje indispensável nos mais diversos campos da ciência e tecnologia.

Basta folhearmos o programa desta reunião para nos apercebermos da vasta aplicação da microscopia electrónica nos mais diversos campos. Da análise da anatomia de um vírus ao estudo aprofundado das características de uma obra de arte... Do estudo da patologia de uma doença à análise das novas cerâmicas...

Dentro de minutos, no âmbito da nossa primeira sessão de trabalho, ouviremos falar da sua utilização no estudo das novas cerâmicas, pelo Prof. Gareth Thomas, e do seu emprego para melhor compreensão do funcionamento do rim, pelo Prof. Arvid Maunsbach.

Mas a evolução da microscopia encontrou já novas vias que tornam possível uma análise mais aprofundada da organização da matéria. O microscópio de efeito túnel de que nos falará Baró faz já parte do seu novo arsenal. Os 500 A do poder separador do primeiro microscópio construído por Ruska em 1934, transformaram-se nos escassos A dos microscópios da nossa época tornando mesmo possível a observação de alguns átomos. A análise deste programa põe também em evidência o papel da Microscopia Electrónica na área das ciências dos materiais, uma das áreas mais importantes de investigação e desenvolvimento particularmente na pesquisa dos supercondutores, do processamento da informação, síntese em larga escala de diamantes, processamento de catalisadores industriais, etc.. Podemos também concluir da análise do programa que a fraca representação portuguesa na área das ciências dos materiais parece apontar para carências que urge colmatar com acções que lhe dêem mais expressão. Para além do problema dos equipamentos há o da formação de profissionais.

Importa ainda assinalada que esta Reunião promovida pela Sociedade Portuguesa de Microscopia Electrónica é a 23ª, em 23 anos de existência da SPME.

As sociedades e academias científicas foram desde o seu surgimento em Itália, no século XVII (1603), um dos motores do desenvolvimento da Ciência. Surgiram como a primeira forma de organização das comunidades científicas. Lugares de encontro e debate, laboratórios e observatórios, onde se desenvolvia uma actividade de iniciativa estritamente privada, pois as Universidades nessas épocas eram ainda unicamente sedes de transmissão do saber.

Numa época em que a Ciência ainda não ocupava os favores do Estado, nem era reconhecido o seu valor social, foi através das sociedades e academias, apoiadas pelos seus patronos e mecenas, que os cientistas, os sábios de então, promoveram a sua actividade e defenderam as ideias e os valores que representavam. Foram durante muitos decénios os únicos centros promotores da Ciência como actividade minimamente organizada.

Nos países com tradições científicas adquiriram assim prestígio e transformaram-se progressivamente no interlocutor privilegiado com o poder e a sociedade que não se esquivam a consultá-las quando têm que tomar decisões nas áreas que representam.

Entre nós as sociedades científicas nunca foram, nem ainda são, devidamente reconhecidas como parceiros credenciados das comunidades que representam. Parte desta situação deve-se talvez ao facto de nós próprios não nos sabermos organizar devidamente para defender os interesses e o progresso das nossas áreas científicas. Deve-se também à circunstância de algumas destas organizações não respeitarem entre nós a democraticidade interna nem terem uma dimensão ou uma actividade mínima que justifique o seu reconhecimento como interlocutores válidos.
Não é também de estranhar que o poder, ou melhor, os poderes, prefiram o diálogo mais fácil com interlocutores previamente escolhidos. Numa época em que assistimos entre nós à revitalização da actividade científica nos países ibéricos e ao aprofundamento das duas democracias, as sociedades científicas têm responsabilidades acrescidas e deveriam ser estimuladas a organizarem-se e a participarem mais activamente na promoção dos ramos científicos que representam.

Não nos devemos deixar transformar passivamente num mero expediente de recolha de fundos para actividades esporádicas ou anuais, mas ganharmos pela nossa intervenção - junto do poder e da sociedade - o estatuto de interlocutor privilegiado e activo na definição das políticas de desenvolvimento dos sectores que representamos, enquanto profissionais activos. Como organização colectiva de especialistas atentos ao progresso, capazes de discutir e debater no nosso seio novos caminhos, com capacidade de intervir com uma opinião, de esclarecer o meio que nos rodeia, quando necessário e não como expediente publicitário de projecção individual. Nós próprios devemos e podemos ser os agentes dessa transformação qualitativa, que aliás também nos deve ser exigida.

É indispensável fazer o levantamento e avaliação das sociedades científicas que temos. Avaliar o grau da sua representatividade e actividade. Criar condições para que ocupem através das suas funções a posição que merecem como lugar privilegiado de debate e como interface entre o poder e o saber.
Para nós fica um recado: as sociedades científicas não devem ser só promotoras de reuniões anuais no âmbito estreito de uma especialidade.

Uma reunião conjunta de âmbito ibérico torna inevitáveis e oportunas algumas considerações sobre uma problemática que também não deve deixar de ocupar a nossa atenção: a das relações entre sociedades e instituições científicas de Portugal e de Espanha.

Ao longo dos tempos estabeleceram-se entre cientistas de ambos os países com interesses comuns relações de amizade que favoreceram a aproximação das instituições a que pertenciam e de que resultaram acções com grande benefício para ambas as partes. Recordo que no início da minha carreira tive oportunidade de verificar quanto as relações pessoais e profissionais que uniram duas figuras maiores da Medicina peninsular - Gregório Maranon, cujo centenário foi celebrado há pouco em Espanha, e Celestino da Costa, de que me considero discípulo - beneficiaram o desenvolvimento dos estudos endocrinológicos em ambos os países. Foram múltiplas reuniões conjuntas de ambas as sociedades e até a publicação de uma revista comum - A Revista Ibérica de Endocrinologia.

Na área da Biologia outras relações frutuosas de intercâmbio de que tenho conhecimento processaram-se na área da genética, da botânica e ciências agrárias, e foram desenvolvidas pelo Prof. Câmara da Estacão Agronómica Nacional e pelo Prof. José Maria Albareda. Da sua amizade e relações profissionais resultou um intercâmbio estimulante e produtivo para a Ciência de ambos os países ibéricos. São de recordar as Jornadas de Botânica Peninsular e também a publicação de uma revista científica regional - A Genética Ibérica. Nos nossos dias são animadoras e estimulantes as relações estabelecidas entre as Sociedades de Bioquímica de ambos os países que este ano celebraram a sua reunião conjunta em Santiago de Compostela.

Certamente que ainda poderia referir muitos outros exemplos, mas o problema das relações entre instituições científicas de Espanha e Portugal não seria um tema a comentar se os bons exemplos a que me referi fossem a regra e tivessem a continuidade desejada pelos seus promotores. A verdade é que os bons exemplos são quase sempre excepções não se acompanhando de um trabalho continuado e de base institucional para se manterem. O número de frequência das nossas acções comuns também não é o que seria de esperar se atendermos às relações geográficas, raízes históricas e à realidade de muita problemática comum.

Seja como for, a época é favorável à aproximação e cabe também aos cientistas promoverem acções que facilitem o relacionamento peninsular. Para além da geografia, as nossas realidades e problemas comuns são boas razões para nos aproximarmos e para que se estabeleçam entre as nossas instituições científicas formas de entreajuda e intercâmbio semelhantes às que fazem dos países escandinavos um modelo para o relacionamento entre países cultural e geograficamente próximos.

Não é na área da ciência que se defende em termos culturais a identidade nacional. A Ciência é mesmo uma das actividades culturais que, pelas suas características, mais se presta para fomentar o intercâmbio entre nações próximas, livres e independentes. Vivemos, aliás, numa época em que as grandes aventuras científicas e tecnológicas só são possíveis com a realização de projectos supranacionais pois são incompatíveis isoladamente.

Alguns contratempos que surgiram durante a organização desta reunião constituíram para mim bons exemplos das insuficiências de comunicação entre as instituições científicas de ambos os países. O ponto é que para comunicar temos que nos conhecer e para nos conhecermos temos que comunicar.

Gostaria que todos considerássemos que também faz parte do programa um tema que nos cabe a todos desenvolver: - Como fomentar o intercâmbio entre as instituições científicas de Espanha e de Portugal.

Que durante esta reunião conjunta surjam, como esperamos, iniciativas para o desenvolvimento de projectos que tornem mais forte o relacionamento das comunidades científicas de ambos os países. Para isso é preciso que empreguemos o nosso esforço e imaginação tendo sempre presente que há todo um conjunto de problemas e interesses que nos ligam e que embora falando línguas diferentes nos podemos entender.
Como há poucas semanas disse em Lisboa Filipe González: "Se la geografia nos une, não devemos permitir que a desconfiança nos separe".