Doutor Honoris Causa a Fernando Nobre (Alocução - s/data)

UNIVERSIDADE DE LISBOA Gabinete do Reitor
Cerimónia de outorga das insígnias de Doutor Honoris Causa a Fernando José de la Vieter Ribeiro Nobre

Alocução do Padrinho J. F. David-Ferreira

É uma honra o privilegio que me cabe de, em nome da Faculdade de Medicina, fazer a apresentação e elogio do Dr. Fernando Nobre e assim apadrinhar o seu Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lisboa.

A proposta da distinção que lhe é conferida teve como fundamento o Ter prestado altos serviços ao País. O que não é difícil de documentar. Mas verdade é também que se prestou altos serviços ao seu País foi por Ter abraçado e servido uma causa que ultrapassa os limites de todas as fronteiras.

O ideal dos homens sem fronteiras, dos cidadãos do mundo empenhados em ajudar e aliviar o sofrimento dos seus semelhantes, vítimas de catástrofes.

É pois também o reconhecimento da grandeza das causas que tem servido que se enaltece na distinção que lhe é conferida.

Fernando José de la Vieter Ribeiro Nobre nasceu em Luanda em 16 de Dezembro de 1951.
Aos quinze anos, o "angolano de quatro gerações", em cuja ascendência materna se cruzam em várias nacionalidades, partiu para Bruxelas onde completou os estudos liceais e ingressou na Faculdade de Medicina. "O europeu com raízes africanas profundas", como se considera, obteve em Junho de 1978 o título de Docteur en Médecine, Chirurgie et Acouchement pela Universidade Livre de Bruxelas.

Durante sete anos, isto é até 1985, permaneceu em Bruxelas onde exerceu na Faculdade de Medicina funções docentes, nas cadeiras de Anatomia e Embriologia, como assistente dos Professores Pasteels e Mulnard.
Paralelamente iniciou uma formação pós-graduada nas áreas de cirúrgia e de urologia, nos Hospitais de Saint Pierre e de Brugman de Bruxelas, onde trabalhou sucessivamente no Serviço de Cirúrgia geral com o Prof. Bremer, no Serviço de Cirúrgia Infantil com o Prof. Deconmick e no Serviço de Urologia com o Prof. W. Gregoir.

Este é o resumo do início convencional, mas promissor da carreira de um docente e médico universitário com ambições profissionais e académicas. O percurso veio porém a ser outro.
Em 1979, o então jovem finalista de Medicina tomou conhecimento da existência dos 'Médicos sem Fronteiras', uma organização de ajuda humanitária fundada em França, em 1971.
Decidiu aderir a este movimento renovador e começou a participar como voluntário nas suas missões de emergência. Foi esta a sua iniciação na área da Medicina Humanitária que se veio a tornar determinante no seu percurso profissional.

Durante 7 anos foi colaborador dos médicos sem fronteira de que veio a ser co-fundador e administrador da secção belga.
Participou em missões de grande risco no Sudão, Irão, Líbano e Chade. Missões de altruísmo e de coragem em que em situações de grande desconforto físico e moral presenciou às brutalidades próprias da guerra e do ódio, socorreu as suas vítimas inocentes e sofreu as dores da compaixão. Amadureceu e fortaleceu assim as suas convicções de homem de paz, defensor dos direitos humanos.
Foi na sequência de uma das missões dos médicos sem fronteira no Chade que uma reportagem publicada no semanário "L'Express' revelou a existência de um médico português "sem fronteiras". Um conhecimento que foi divulgado entre nós, noutra reportagem também no Chade, do jornalista Barata Feyo. Deste trabalho jornalístico publicado na Grande Reportagem resultou o desafio que foi feito ao Doutor Fernando Nobre para formar em Portugal uma instituição de ajuda humanitária com as características inovadoras dos Médicos sem Fronteiras. Um desafio que aceitou.

Nem sempre os meios de comunicação social têm efeitos perversos. Felizmente que ultrapassadas as dificuldades iniciais encontrou em Portugal apoios e condições para transpor para o nosso Universo a prática de novas formas de ajuda humanitária, de emergência, de que os médicos sem fronteiras foram pioneiros. Foi a experiência do seu trabalho junto desta organização que lhe permitiu não só concretizar na acção a realização dos seus ideais humanitários, como mobilizar vontades e vocações dos que o tem acompanhado e apoiado.

Foi pois o empenhamento do Dr. Fernando Nobre e a experiência que adquiriu nas missões em que participou que lhe permitiram, depois do seu regresso a Portugal, mobilizar meios e colaboradores e organizar as estruturas da instituição prestigiada que é hoje a AMI (Assistência Médica Internacional). A contribuição desinteressada dos seus voluntários representa um exemplo de grande valor pedagógico numa época em que mais do que nunca se torna necessário fomentar os valores de solidariedade.

A AMI é hoje uma organização reconhecida internacionalmente. Durante os 17 anos da sua existência foram realizadas 26 missões em 18 países, missões que contribuíram para socorrer e atenuar o sofrimento de populações atingidas por catástrofes naturais ou conflitos armados.
São de destacar entre outras as intervenções efectuados nos ex-territórios de administração portuguesa, nomeadamente na Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, as intervenções públicas e participações em reuniões internacionais para que tem sido convidado. Uma presença portuguesa nas organizações internacionais de ajuda humanitária e nos diferentes fóruns das organizações não governamentais em que a sua intervenção se tem pautado pela defesa dos princípios e valores que devem orientar a sua actuação.

Ainda recentemente foi com indignação que denunciou e manifestou o seu desacordo ao atropelo de S. Tomé e Príncipe, Moçambique e Timor, onde contribuiu e contribui para prevenir e atenuar carências básicas das populações.

Para além das missões de emergência em que tem intervindo, a AMI colabora e financia projectos de cariz social em diferentes países (El Salvador, Moçambique, S. Tomé e Príncipe, Nepal) e mantém a nível nacional desde 1995 um conjunto de oito Centros de solidariedade social, os Centros Porta Amiga, que prestaram assistência a cerca de 10.000 pessoas, e que são uma frente de luta do flagelo da exclusão social.

São também de destacar na obra do Dr. Fernando a denuncia da distorção de alguns princípios básicos que se estão a verificar na Guerra do Afeganistão, atropelos que põe em causa a própria natureza das missões humanitárias.

Como Presidente da AMI, o Dr. Fernando Nobre representou de 1988 a 1992, as organizações não-governamentais portuguesas no grupo de emergência das ONG Europeias no Comité de ligação da EU, tendo intervindo no I Encontro das Instituições Humanitárias realizado em Cracóvia em 1990 onde foi signatário da Carta Humanitária Europeia de Cracóvia.

Em 1993, na sequência do trabalho realizado e prestígio internacional adquirido foi um dos fundadores da organização Voluntary Organization in Cooperation, a Voice, de que foi Vice-Presidente no biénio 1993-95 e membro do seu comité directivo no biénio 1995-97.
Em Janeiro de 1994 presidiu à Conferência das ONG em Angola que se realizou em Bruxelas, organizada pela Voice e Euronaid, e em 1998 Presidente da Plataforma Nacional das ONG portuguesas.

Pela sua competência e larga experiência tem sido convidado a integrar missões do Estado Português em África, nomeadamente em Moçambique (1989), Angola (1996) e S. Tomé e Príncipe (1999).
Das distinções que tem recebido são de destacar:
- o grau de Grande-Oficial da Ordem de Mérito atribuído pelo Presidente da República - Dr. Mário Soares, em 1991.
- Medalha de Ouro da Assembleia da República, atribuída em Dezembro de 2000 no dia Nacional dos Direitos Humanos.

A cerimónia em que participamos, que consagra um Homem e a sua Obra, e em que enaltecem os valores dos ideais que tem servido, são um bom motivo para que se promova uma reflexão sobre o papel da Universidade nesta nova área de intervenção da sociedade civil, que pela sua complexidade crescente exige a participação de muitos saberes.
É grande o mérito do Doutor Fernando Nobre pelas acções que tem empreendido, ao longo da sua carreira ao serviço do voluntariado e da assistência humanitária, e valioso o seu contributo para a promoção dos valores da Medicina humanitária e da solidariedade social.

Em nome da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, peço as insígnias de Doutor Honoris Causa para o Doutor Fernando José de La Vieter Ribeiro Nobre.