A lição do Mestre: Augusto P. Celestino da Costa (1884-1956) – Uma Época, uma Vida, uma Obra (Palestra - 2012)

Celestino da Costa 1956

J. F. David-Ferreira

A Lição do Mestre: Augusto P. Celestino da Costa (1884-1956) – Uma Época, uma Vida, uma Obra

José Francisco David-Ferreira, Augusto P. Celestino da Costa (1884-1956). Uma Época, Uma Vida, Uma Obra, Discurso proferido na Conferência Anual ‘A lição dos Mestres’, na Faculdade de Medecina da Universidade de Lisboa, em 5 de Janeiro de 2012

 

(Ver video: A lição dos Mestres - Prof. Doutor David-Ferreira) 

(Ver video: A lição dos Mestres - Prof. Doutor Fausto Pires)

(Ver video: A lição dos Mestres - Prof. Doutor J. Fernandes e Fernandes) 

 


 

Não é preciso esperar para empreender,
Nem ter sucesso para prosseguir
(Guilherme, o Taciturno)

 

Caros colegas e amigos. Minhas senhoras e meus senhores

Uma explicação prévia: A Conferência Anual a que deram a designação "A lição dos Mestres", para que tive a honra de ser convidado pelo Prof. Fausto Pinto, tem o sabor de uma despedida...

Escolhi como tema: "Augusto Celestino da Costa – Uma Época, Uma Vida, Uma Obra".
Não é a melhor lição que dei, mas a melhor que recebi.

O que vos vou dizer é o resumo de uma Biografia que estou preparando, sobre a Vida e Obra do Mestre Celestino e as circunstâncias em que foi realizada.
Este livro pretende corrigir uma injustiça da memória colectiva sobre Augusto Celestino da Costa, uma das personalidades que durante o século XX mais contribuiu para o progresso das Ciências Medicas em Portugal.

Baseei-me para o escrever nos testemunhos dos que com ele trabalharam, discípulos, colegas e familiares e no muito que escreveu em que está expresso no seu pensamento – nomeadamente num guião que escreveu aos 28 anos (!) e no Relatório sobre as actividades desenvolvidas por si e primeiros colaboradores quando fundou o Instituto de Histologia e Embriologia.

Aluno e docente da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, cujas reformas sempre acompanhou e defendeu, foi Professor Titular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Fundador do Instituto de Histologia e Embriologia, mas a sua actividade não se limitou ao âmbito da sua área de estudo.

Fui observador privilegiado da sua acção como Professor e Cientista. Conheci os seus primeiros discípulos alguns que também foram meus Mestres, como Dias Amado e Xavier Morato. Lidei de perto com o Homem no Anfiteatro e no Laboratório. Fui seu aluno, bolseiro no Centro de Estudos que dirigia e o último dos seus discípulos directos. Li tudo o que escreveu e esteve ao meu alcance, e escrutinei o que disseram e escreveram pares e discípulos. Concluí que Celestino da Costa teve o reconhecimento internacional que bem merecia e a ingratidão da difusa pátria bem amada e da cidade onde nasceu.
Ele foi o exemplo que me inspirou e que tentei prosseguir e dar continuidade. Cabe aos meus alunos e discípulos julgar se consegui.

Fiz o que soube e pude mas fui beneficiado pelas circunstâncias dos tempos em que vivi.
Tive o privilégio de ter tido como Professores Luís Hernâni Dias Amado, Xavier Morato e Jaime Celestino da Costa, de quem ouvi e li os testemunhos sobre o Mestre que foi.
Do Prof. Jaime recebi o guião que seu Pai escreveu de uma autobiografia ("História de uma Experiência") que a morte não lhe permitiu levar a cabo, e foi um dos guias que me orientou. Diga-se porém a este propósito que esse guião reproduz ipsis verbis os objectivos da sua vida, e que Augusto Celestino da Costa escreveu aos 27-28 anos. Só não constam dessa monografia a análise dos resultados alcançados, essa incluída no seu guião para uma autobiografia.

Augusto Pires Celestino da Costa nasceu a 4 de Abril de 1884, na Rua dos Navegantes em Lisboa, filho de Pedro Celestino da Costa, militar de carreira, e de Dona Úrsula Cândida de Canto e Castro, ambos de ascendência açoriana.
Após a morte de sua Mãe, ocorrida três anos após o seu nascimento, casou o seu Pai com D. Joana Figueira Magalhães que "reconstruiu" o destroçado lar e foi uma verdadeira mãe para Celestino. Circunstância feliz, pois o seu irmão era May Figueira, médico da Casa Real e já então professor jubilado da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.

Outro acontecimento trágico mas determinante para a carreira do ainda jovem Celestino da Costa foi o assassinato de Miguel Bombarda ocorrido nas vésperas da implantação da República, acontecimento coincidente com a tragédia pessoal do assassinato do seu Pai, então coronel e comandante do quartel de Infantaria assaltado pelos revoltosos a 4 de Outubro.

Com a morte de Miguel Bombarda que era titular das Cadeiras de Histologia e da de Fisiologia Geral ficaram vagas estas duas disciplinas, que vieram a ser ocupadas, após concurso, por Mark Athias e Augusto Celestino da Costa com a criação da Universidade de Lisboa.

 

Os Testemunhos

Começarei com o meu testemunho, testemunho que já dei quando das comemorações do centenário do seu nascimento.
Não encontrei melhores palavras, o que justifica o auto-plágio.
Quando o conheci era um jovem estudante de 19 anos e Augusto Celestino da Costa um professor amadurecido por uma longa experiência, respeitado por uma sólida carreira científica, consagrado pelos muitos serviços prestados à sua Universidade e ao País. Vi-o pela primeira vez no velho anfiteatro de Histologia na Faculdade do Campo Santana e comecei desde esse dia a descobri-lo.

O seu aspecto físico era frágil mas a sua têmpera seguramente rija pois nem golpes nem desilusões, alguns bem recentes, tinham diminuído o entusiasmo que punha na sua profissão difícil, e na época, até perigosa. No seu discurso não transparecia, nem cansaço nem desencanto. Fascinava pela simplicidade. Era genuíno não tinha complexos de "prima dona". Nem tinha o discurso empolado que Sílvio Rebelo classificava de "médico-cirúrgico".

De palavra sóbria e de ideias sólidas, dominava essa arte de estar e de ser professor. A tudo se acrescentava aos nossos olhos de estudantes essa auréola ainda fresca de uma depuração injusta. Mas para se ver é preciso estar preparado e alguns de nós já estavam pelo menos sensibilizados para identificar, pelo discurso, um professor de experiência vivida, apurada pela reflexão.

Antes de entrar na Faculdade Médica, na Escola Médica, como ainda muitos lhe chamavam, eu tinha frequentado o Liceu Camões e o acaso das pautas e da distribuição por turmas tinha-me proporcionado um Professor: o Doutor Rómulo de Carvalho. O nosso poeta bem vivo, António Gedeão. Foram as suas aulas de física e as leituras extra-curriculares que recomendava que despertaram em mim, como em muitos dos seus alunos o primeiro interesse pelas coisas da Ciência. Ele foi desde então um primeiro marco de qualidade.

Após o Liceu, no curso preparatório na Faculdade de Ciências, o F.Q.N., que era uma antecâmara de entrada na Faculdade de Medicina, mais uma vez o bom destino nos concedeu a graça de outro grande professor: O Doutor Manuel Valadares. E digo graça porque alguns meses mais tarde, ainda no final desse ano lectivo de 1947, Manuel Valadares seria afastado para sempre do ensino, no País, mas a recordação das suas aulas, alem dos ensinamentos, representaram a identificação de padrões de qualidade que não esquecem.

No curso do F.Q.N., como então se designavam os preparatórios para Medicina, aconteceu ter como colega o meu amigo Luís Oswaldo Dias Amado. Foi a oportunidade de vir a conhecer de perto o Pai: O professor Dias Amado, então um prestigiado 1º Assistente (Prof. Auxiliar) da Faculdade de Medicina, discípulo de Celestino da Costa. Dias Amado já não viria a ser meu professor, porque também ele foi afastado definitivamente da Universidade, por esse processo expedito que na época não se chamava "saneamento".

No primeiro ano do seu afastamento, Dias Amado procurou manter com os estudantes um diálogo, rejuvenescedor e assim num grupo de colegas do filho tive o privilégio de o ter como "professor clandestino" de Histologia no seu laboratório de análises clínicas na Rua Castilho. Foi o meu primeiro encontro com a Escola, deveria dizer o escol de Histologia de Lisboa.

Anos mais tarde foi ainda um dos primeiros discípulos de Celestino da Costa, o Professor Xavier Morato que me fixaram definitivamente à Histologia.

Posto o parêntesis e as credenciais, retomo o discurso.

Quando conheci Celestino da Costa como professor já tinha padrões de qualidade para aferir o Mestre. Ele era um grande professor e das muitas lições que recebi algumas foram nesse ano lectivo de 1947-48.

A naturalidade da exposição, a documentação objectiva e original com que ilustrava as aulas, a forma como sem se esquivar ao rigor e à precisão sintetizava os temas.

Era um Professor culto e se como diz António Sérgio "cultura é uma certa maneira de saber as coisas" poderemos acrescentar que é também um certo modo de transmitir o saber. Cultura não é erudição e Celestino da Costa, que era um homem erudito, não nos esmagava com factos e dados. Poupava-nos do detalhe tantas vezes inútil.

Dava vida aos textos, não se repetia, enriquecia-os.

Recordo a este propósito a sua última aula no meu primeiro ano quando ao terminar o curso de Embriologia, a disciplina mais do seu agrado e em que a sua competência se espraiava em numerosos trabalhos originais, era já muito reconhecida internacionalmente. A aula tratava das anomalias do desenvolvimento e ele descrevia as variadas formas de monstros duplos e as designações que lhes correspondiam. Era uma longa lista de termos arrevesados que desencorajavam a nossa memória já penalizada pela Anatomia. É então que já no final da aula surge o professor-pedagogo a aliviar com a juventude do seu humor tão indigesto tema.

Foram duas curtas histórias. Numa era relatado o desabafo de um engenheiro francês que tendo vindo a Portugal colaborar na construção de uma ponte, começou a constatar com surpresa que os engenheiros portugueses, seus colegas, não consultavam como ele as indispensáveis tabelas. Mas a sua surpresa tornou-se ainda maior quando descobriu que sabiam de cor muitos dos índices que ele laboriosamente procurava.

Surpreendido deixou escapar no seu português arrevesado: Oh Lá! Oh Lá! Portugueses ter muitos chifres na cabeça!

E a rematar uma outra, trata-se agora de um professor de Geografia que fazia exame a um dos seus melhores alunos e que surpreendido pela sabedoria do examinando foi tornando o interrogatório cada vez mais apertado. Era sobre a topografia de um lugar, mas a partir de certa altura eram os detalhes dos caminhos, a localização de fontanários... O aluno? Estremeceu! Um fracasso para terminar. Findo o exame o aluno verifica porém que lhe tinha sido atribuída a nota máxima de 20 valores. Ao manifestar ao Mestre a sua surpresa agradecida, teve a explicação: "Pois é, você teve 20 valores, 19 pelo que sabia e mais 1 pelo que não sabia".

Para os jovens estudantes de medicina já então vergados pelo peso da memorização na Anatomia ali estava o perfil do Professor, que terminou com a juventude do humor. Ficaram as histórias, ficou a lição.

Anos mais tarde ainda estudante do terceiro ano comecei a frequentar o Instituto de Histologia e aprender técnica histológica, primeiro como estagiário e depois como bolseiro do Centro de Estudos do Instituto de Alta Cultura que o Professor Celestino dirigia.

A partir de certo momento essa instrução à investigação começou a processar-se num pequeno recanto (destinado a colheitas de animais) cujo acesso se fazia pelo próprio gabinete do Professor. Foi outro privilegio do destino, destas coisas boas de que se tem saudades. Tive acesso facilitado ao Homem. Conheci-o de perto. No laboratório ele era o mesmo que conhecia no anfiteatro. O Professor que não cultiva distancias artificiais nem com os alunos nem com os colaboradores. O hiato das gerações desaparecia. Ele era um homem em permanente busca, o professor que aprende. Actualização permanente por leitura e observação do mundo à sua volta.

Fascinava pelo "charme" de conversador quando nas breves pausas das suas ocupações sacava do fundo da memória o episódio, a situação, a pequena história que quase sempre encerrava uma lição. Além dos seus conselhos e comentários, era também o acesso ao mundo que era aquela biblioteca, paredes meias com o seu gabinete de trabalho onde havia tudo sobre histologia e embriologia e não só.

Foi através dos seus comentários e dos seus escritos que comecei a reconstruir a história da Faculdade. Através dessa parcela da sua obra que são documentos em muitos aspectos únicos de situações de colegas e outros contemporâneos. Foi através desses escritos que comecei a descortinar a saga da Geração de 1911 (que semeou e cultivou) onde viria a florescer um dos períodos mais brilhantes da Ciência Médica em Portugal. São dessa época as minhas primeiras reflexões sobre a Vida e Obra de Celestino da Costa que iluminou a minha compreensão para muitas grandezas e misérias da Escola e da nossa Terra.

A ele bem se aplicava um comentário sobre Ramón y Cajal: "bastava ouvi-lo para se reconhecer nele o homem sincero, o cultor entusiasta e inteligentíssimo da Ciência, o patriota fervoroso, o exemplar simpático, entre todos, um dos melhores tipos da humanidade: o sábio"

Patriota fervoroso, o pensamento e a obra de Celestino da Costa reflectem o Homem e a sua Época. Época conturbada em que a confiança de um povo nas suas instituições foi abalada e em que as elites buscavam, por vezes desajeitadamente, um caminho para regenerar as virtudes antigas, que restaurasse a grandeza do passado. Busca simultânea de identidade e tentativa de identificação com essa Europa que se escapava em passo acelerado pelo séc. XIX. Tentativa de abrir novas fronteiras e corrigir erros antigos.

Anseios traduzidos pelas elites intelectuais ou sob a forma de desalento e impotência ou sob a forma de patriotismo agressivo. Em Celestino da Costa, como em diversos homens da sua geração, havia que servir a sua Pátria a recuperar o tempo perdido. Lá estava o pensamento de Pasteur: "A Ciência não tem pátria mas tem-na o sábio".

Ouçamo-lo no que diz num dos apontamentos do projecto de autobiografia, feitos durante uma breve convalescença, a que chamou "História de uma Experiencia" e a que tive acesso graças à amizade do seu filho, o Prof. Jaime Celestino da Costa.

"No inverno de 1902-1903, numa breve convalescença, no meu terceiro ano, tomei consciência das deficiências da Escola e do ensino e do que havia a fazer integrando-os no movimento da ciência nova" e acrescenta: "Decisão de Apostolado nesse sentido". Em 1902! Aos 18 anos! Apostolado!

E foi assim a sua vida: "Exemplo não apenas de uma vida devotada à Ciência, mas também a um ideal de civismo, servindo através do trabalho científico a criação e revigoramento de uma mentalidade nacional". Assim o definiu o seu amigo e admirador o geógrafo Orlando Ribeiro.

Em mais de 50 anos de actividade profissional ele foi: o investigador que ensinava e o professor que aprende com uma vida devotada à Ciência. A Ciência que foi sempre o parente pobre da Cultura em Portugal.

De facto, presos nas malhas de uma tradição cultural por natureza anti-científica, isolados pela distância e pela ignorância, dominados pela superstição e dogma, governados pela intolerância os povos peninsulares haviam perdido o seu lugar no caminho do progresso.

A Ciência não floresce onde reina o dogma e a superstição e ainda hoje são nítidas na nossa sociedade os medos e tabus de traumatismos antigos.

A Ciência não é popular. Não é actividade de salão, não se presta ao estilo ameno. Exige rigor e supervisão. Não acompanha nem o amadorismo nem o improviso. Exige profissionalismo, não é uma actividade para ocupar tempos livres ou actividades psico-motoras e caritativas de meia idade.

É avessa ao sensacionalismo, pode estimular a vaidade mas não se alimenta nela. E numa sociedade em que são mais apreciadas as cigarras que as formigas não é apreciada.

Celestino da Costa bem sabia que a Ciência é um parente pobre da nossa cultura tradicional. Os seus valores não fazem parte dos hábitos cultivados. Não se extraviou porém a discutir causas nem analisar consequências. Não se ficou na oratória. Na sua vida, pensamento e acção são dois aspectos de uma só realidade.

Também não se perdeu nos meandros das explicações e queixumes. Às vezes percebe-se nos seus escritos uma certa lassidão mas são dois parágrafos, um período... nostalgia talvez dos tempos mais vigorosos da juventude,talvez saudades dos companheiros perdidos.

"A geração a que pertenço", dizia em 1946, "conseguiu grandes coisas, mas vai deixando o combate levada pela morte, cansada pela velhice, às vezes pela doença ou pelo desalento – que doença é também – sem ter conseguido tudo quanto se propunha e houvera aliás se a nação fosse outra. Mas alguma coisa se fez; e deixará a Medicina Portuguesa bem diferente de estado em que a encontrou"

Um período à frente recobra porem a energia com sugestões propostas, novos projectos. Reflectem-se aí as grandes qualidades do homem do líder.

O Ensino foi sempre uma das suas preocupações centrais. Ele bem sabia que é através dessa actividade discreta mas continuada que se procura a reforma cultural dos povos. A revolução cultural, que tantos dizem desejar mas poucos cultivam. O ensino foi o campo de acção do seu civismo militante. Numa sociedade em que quase todos se dizem qualquer coisa para logo acrescentarem que não são praticantes. Ele foi professor e investigador praticante.

Apóstolo da Ciência em terra de infiéis, tomou como missão evangelizar os jovens com as armas do pedagogo que era, tinha regras próprias para esse recrutamento que considerava como dever que assim definia:

"Devemos nós professores, responsáveis pela formação das novas gerações, estar atentos às qualidades dos nossos alunos, indagar dos seus desejos de trabalhar, espreitar a sua vocação, pacientemente sem pressas, sem querer forçar, nem tomando esta por confirmada, quando, por timidez, ou outra circunstancia, tarda em manifestar-se. O papel do Professor é, nesta matéria, de uma dificuldade extrema, roçando constantemente pelo perigo de mal julgar, de dar um passo em falso, de inutilizar uma possível carreira cientifica ou de perder o tempo com o que Nicole chamava falsa vocação. Mas essa dificuldade não nos deve fazer recuar. O homem que não age por medo de se enganar não presta".

Era assim que Celestino da Costa procedia, sei-o por experiencia própria porque submetido na prática ao escrutínio do Mestre e julgo, perdoem-me falar em causa própria. Avaliado também pelo seu sucessor Prof. Xavier Morato, que me encarregou, de montar um dos primeiros laboratórios de microscopia electrónica no Pais.

O Prof. Celestino, que já não era director do Instituto, acompanhou o processo na sua fase preparatória, usando a sua influência junto do então adido cultural da embaixada de França, Pierre Hourcade, através do qual me foi concedida uma bolsa do governo francês e ainda junto do Prof. Francisco Gentil, director do Instituto Português de Oncologia em que existia um microscópio electrónico (obsoleto) mas que satisfazia, e presumo que junto do engenheiro Leite Pinto então Ministro de Educação Nacional, autoridade que autorizava a saída para o estrangeiro.

Quando já estava em Villejuif a trabalhar, sob orientação do Dr. Wilhem Bernard no Institut de Recherches sur le Câncer, recebi a visita do Prof. Celestino da Costa que participava num congresso e que como era seu hábito visitava os bolseiros.

Ao reflectir sobre a vida e obra de Celestino da Costa, uma pergunta que sempre formulei (fiz):
Como conseguiu ultrapassar a incompreensão pelas coisas da Ciência, os maus hábitos de trabalho da sociedade que o rodeava, a pobreza de um convívio intelectual adequado, sobretudo a partir de uma época em que a vida ou a morte desfizera esse núcleo de excepção dos anos que qualificou de felizes e fecundos. Como sobreviveu ao isolamento?

Celestino da Costa movia-se com agilidade. Surpreendente numa época em que viajar não havia conforto e em que não era fácil obter das entidades apropriadas subsídios para viagens. Apesar disso, desde o seu memorável estágio em Berlim em 1906 que não pára.
São estágios curtos em laboratórios famosos, reuniões, congressos, visitas a bolseiros, conferências...
Não eram passeios de turista, eram expedições de trabalho em que aproveitava para confrontar os seus resultados com colegas mais afortunados e para respirar cultura.
Foi o embaixador itinerante da Ciência Portuguesa pela Europa e mais tarde pelo Brasil.

Todas essas viagens estão anotadas no seu esboço de autobiografia, com nomes de portugueses que o acompanharam, de colegas com quem contactou e trocas de impressões.

As reuniões anuais da conceituada Association des Anatomistes, que nessa época também era o fórum dos histologistas, assistiu a um total de 26 reuniões, não espanta pois, que anos mais tarde um colega francês dissesse: "ele é a primeira andorinha a chegar de Portugal ".

Conhecia bem a terapêutica para o isolamento cientifico, escreveu-o em 1946:

"A investigação cientifica exige um meio, um ambiente receptivo e estimulante. Mas esse meio não aparece feito cria-se pelo exemplo, pelo convívio pela acção constante dos investigadores. Repetidas viagens a centros estrangeiros, contacto estreito com especialistas de outros laboratórios e de outros países por visitas ou por correspondência, intercâmbio de conferentes, organização e participação em colóquios, sessões de sociedades cientificas e congressos, publicações em revistas da especialidade e trocas de respectivas separatas e, ao mesmo tempo acção sobre o público por conferencias, artigos e livros de vulgarização e de expansão universitária, eis alguns dos processos que ajudarão a criar o ambiente e a combater esse terrível inimigo da investigação científica que é o isolamento".

E sobre Congressos:
"...Congressos que põem em contacto homens de diferentes escolas, de diferentes terras e nações, que permitem a cada um avaliar melhor de que valem os outros, ouvindo-os a falar, assistindo às suas demonstrações, examinando os seus documentos, apresentando-lhes criticas e escutando-lhes as respostas, e isto não só nas sessões propriamente ditas, mas em todas as ocasiões em que se encontram, durante os tais banquetes e os tais passeios que escandalizam tão boas almas, mas proporcionam tão excelentes ocasiões de se travar conhecimentos e estabelecer sólidas amizades entre esses homens, como Sábios, para os quais o isolamento constitui um dos maiores perigos da sua carreira."

Para além de Jaime Celestino da Costa, que o conheceu na intimidade da vida familiar, e deixou memória escrita, foi seu discípulo e sucessor o Prof. Xavier Morato quem o acompanhou por mais tempo, vários da sua longa carreira como professor e investigador.

Xavier Morato, excelente observador que era, dedicou ao Mestre vários artigos escritos a propósito das homenagens que lhe foram prestadas, em vida e depois da morte. Escrita elegante e objectiva. É pois imperativo recorrer ao seu testemunho nesta tentativa de o ver em acção.

Começarei por transcrever algumas passagens de um artigo publicado no Jornal das Ciências Medicas de Lisboa, num número de homenagem, em que é descrita detalhadamente a forma como se movia e actuava nas suas relações com alunos e colaboradores:

"nunca faltava às aulas; dominando como dominava todas as matérias do curso, nunca se dispensava de preparar as suas lições com o maior cuidado; levava sempre consigo um inútil sumário da lição escrita numa das faces, com a sua letra miúda mas regular. Economicamente, utilizava com frequência, para esse fim, os cartões de convite para as sessões da Academia.

Entrava com brusquidão, como eram muitos dos seus gestos. Sentava-se rapidamente. Parecia temer enfrentar o auditório que apenas olhava por instantes e furtivamente. Punha sobre a mesa o relógio de ouro; colocava-o sobre o sumário que previamente tirara duma algibeira do casaco. Enquanto na sala se fazia silêncio, olhava o anel que usava na mão esquerda e com a mão direita imprimia-lhe movimentos à volta do anelar.

Antes que o silêncio fosse completo, iniciava a lição, debilmente parecendo receoso. Mas em breve os tecidos, os órgãos, a histofisiologia ou os mecanismos embriológicos que constituíam o tema do dia, tomavam conta dele, arrebatavam-no.

O professor que inicialmente parecia receoso erguia-se, gesticulava; as suas mãos desenhavam no espaço os movimentos dos cromossomas ou dos folhetos embrionários, num esforço para tornar mais compreensíveis as suas palavras.
Ponteiro em punho, caminhava dum para o outro lado da sala a demonstrar, a apontar nos quadros murais ou nas projecções.

O professor franzino, receoso que entrava temente, tornara-se um gigante, dominador. E se por acaso, um pequeno sussurro lhe demonstrava que alguém não mantinha a compostura indispensável, suspendia bruscamente a prelecção e olhava de frente o grupo de alunos que era a causa da perturbação.

Num gesto que lhe era muito peculiar, embora pouco elegante, quando a exposição fazia ao sabor do pensamento, amparava-se no ponteiro com uma ou ambas as mãos, e colocava um dos pés sobre a cadeira.

Foi um dos primeiros a ter um aparelho de projecção. Era inicialmente um volumoso aparelho Leitz, de arco voltaico, motivo de martírios para os assistentes de então. Simões Raposo e Dias Amado e para o próprio Celestino. Felizmente, a minha entrada para o elenco do Instituto coincidiu com a compra dum aparelho moderno de lâmpadas; cada mudança de projecção era anunciada de violenta pancada com o ponteiro no chão.

Ao aproximar-se do fim da lição, em que tinha o condão de dar uma dose apreciável de matéria, baixava o tom de voz, com gestos lentos recolhia o relógio à algibeira do colete depois de cuidadosamente o ter colocado de novo na corrente; introduzia o sumário na algibeira, anunciava rapidamente o tema da lição seguinte e saía bruscamente com a mesma rapidez com que havia entrado.

Ao chegar ao seu gabinete, dava sempre mostras de cansaço, não era consequência de esforço físico; era sim o resultado da emoção que nele sempre causou a aula teórica.; Essa emoção confessava-a ele, de resto sem escrúpulos ."

Parte da extensa correspondência que durante a sua longa carreira manteve com colegas nacionais e estrangeiros e amigos foram após a sua morte escrutinadas e analisadas pelo seu filho que no artigo comemorativo do nascimento do seu Pai, já referido, extraiu e sublinhou as seguintes passagens da correspondência recebida dos seus amigos e companheiros de luta que tiveram, como diz, "uma indissociável acção de grupo no desejo colectivo de transformação". Assim numa carta de Sílvio Rebelo para Berlim, onde meu Pai se encontrava, dá-nos o ambiente da época (2/2/1907): "como sabe havia já um projecto de reforma que o conselho (vá lá com c pequeno) havia submetido ao governo (com g pequeníssimo). Ontem reuniu o conselho e o Bombarda e o Gentil disseram que o João Franco estava disposto a reformar a Escola tão largamente quanto ela o desejasse, far-se-iam concursos por uma reforma transitória. O Bombarda que sempre se opôs a reformas – v. "A Medicina Contemporânea": o perigo da especialização (!!!) – é favorável desde que se fale em cadeira de Psiquiatria. E assim teríamos concursos no começo do próximo ano lectivo para um grupo de Fisiologistas e Histologia e Fisiologia Especial; Medicina Legal e Anatomia patológica; Higiene e Patologia Geral; Patologia Interna, Clínica Médica e Terapêutica...
Eu irei ao grupo de Patologia Interna onde há apenas uma vaga de substituto. O Athias creio eu, irá à mesma secção que tu?
Trabalha aí mesmo. Faz a tese necessária e prepara-te. Nós cá ir-te-emos pondo ao corrente. Conta connosco como amigos certos que te desejam e asseguram triunfos. Eu ando já a trabalhar na minha tese "seroterapia do Bócio exoftálmico" (executados no Instituto Câmara Pestana graças ao acolhimento do Aníbal Bettencourt)".
Alguns dias depois (13/02/1907) Athias escrevia ao meu Pai: "Acho que v. faz bem em pensar em concorrer; a ocasião é única. Vai o França e eu, estudamos juntos se você quiser, quando vier entra para o grupo, há toda a vantagem em não nos guerrearmos, antes nos auxiliarmos, para ficarmos os três."

"O Gentil lembrou logo o seu nome como um dos candidatos e todos aceitaram bem a sua ida, sabendo que v. é estudioso, sabedor e inteligente; novo como é [tinha 23 anos] e bem orientado, a sua candidatura não pode deixar de ser vantajosa para a Escola e portanto bem recebida... Acho que uma tese sobre secreções internas é muito interessante... Teria tempo? É assunto externo e difícil de condensar."

Entretanto já em Paris, Celestino escrevia (20/04/1907): "Meu caro Athias vigie-me o que faz a gente da Escola com respeito à reforma da dita. Não imagina a pena que tenho de não poder fazê-los pensar como eu penso. Repito que estaria muito à vontade num lugar equivalente aos "privat-dozent" e assim haveria muita gente aproveitável, gente que está como eu, verde para professor".

E Athias (em 09/05/1907): "A respeito de concursos nada há por enquanto. Não se sabe ainda se haverá 2 ou 3 vagas no mesmo grupo. O França vai mesmo que só sejam essas as vagas, podemos ir os 3, indo um de nós para o olho da rua. Irei eu? Credo! Que quando penso nisso põem-se-me os cabelos, digo, a careca em pé! Pouco tenho estudado e francamente se me vir mal preparado, prefiro que vocês e eu desisto de ser catedrático; já estou velho para apanhar chumbos e repetir concursos".

Resposta de meu Pai em 19/05/1907: "Quanto ao lugar da Escola não me comoveram as suas notícias. Se houver só 2 vagas não concorro. Vá v., vá o França e está certo. Só o que desejo é que a Escola venha algum dia a achar que um professor substituto para a Histologia e fisiologia não é luxo. Nesse caso apresentar-me-ei".

O que aconteceu, explica Jaime Celestino: "Com a reforma a Histologia e Embriologia foram a que concorreu meu Pai, e, à Fisiologia, concorreu Athias, Sílvio concorreria à Matéria Médica e Terapêuticas e criaria em Portugal esta disciplina como Celestino criou a Embriologia."

Na impossibilidade de se transcrever toda a conferência em que ele revela todos estes factos – por razões de tempo não posso deixar de comentar que esta correspondência é "reveladora de uma seriedade de propósitos em torno de uma ideia de uma Universidade Portuguesa que pudesse integrar-se no mundo científico mundial com o mesmo nível e a mesma linguagem".

E conclui: "Em todos esses documentos (e outros publicados) se demonstra duma forma clara e irredutível que a geração de 1911 produziu por dentro uma reforma – uma auto-reforma – que é apenas possível quando um grupo válido e unido faz, com determinação, esse esforço decisivo."

A esta observação acrescenta ainda: "Outro elemento muito importante e significativo desta fase heróica da Faculdade de Medicina de Lisboa foi a transferência (que não deixou de levantar resistências) de professores de outras Escolas, personalidade ilustres que vieram enriquecer e constituíram um dos factores decisivos de seu período glorioso. A primeira transferência, a de Ricardo Jorge vindo do Porto..."