Epílogo - Oito anos depois (Discurso - 2007)

ENCONTRO FMUL 2007
21 de Novembro de 2007
Sessão Solene de Abertura do Ano Académico 2007-2008

"Epílogo - Oito anos depois"
David Ferreira **

Colegas e Amigos,

Quando há oito anos atingi o limite de idade, isto é, o prazo de validade estabelecido por lei, aceitei o desafio pela prova final da última lição. Anúncio público do fim de carreira. Ponto final do percurso académico.

As designações que se usam para nomear este rito de passagem são ambíguas e de certo modo deprimentes: Lição de Jubilação? A que propósito? Quem é que se jubila perante o fim anunciado? Também limite de idade, reformado, aposentado, definem situações que tem implícitos sinais de incapacidade ou decadência. Assim se explica o desconforto daqueles que vivem uma despedida que não desejam e das saudades que já se anunciam. Foi o que senti.

A mágoa de partir foi porém ultrapassada graças à iniciativa, que o Professor Lobo Antunes promoveu, de associar à cerimónia a presença de colegas, colaboradores e amigos com quem partilhei décadas de vida profissional. Com os reencontros a festa instalou-se e são as recordações que guardo.

Foi tema da Lição as metamorfoses do microscópio ao longo de séculos e as metamorfoses do Instituto de Histologia e Embriologia que tive ocasião de testemunhar ou de viver. Um percurso iniciado pelo projecto-fundador de Augusto Celestino da Costa, que os seus sucessores prosseguiram e que foram modulando de acordo com os progressos da tecnologia e avanços da ciência.

Pretendi transmitir aos que me ouviram, com as memórias e vivências do passado, a mensagem de amor à Ciência transmitida pelos Mestres que tive.

Durante os últimos oito anos tenho acompanhado, na 'retaguarda', os progressos e sucessos do Instituto de Medicina Molecular, uma instituição que teve e tem raízes no Instituto de Histologia e Embriologia e no Instituto Gulbenkian de Ciência e que é hoje o 'braço armado' da investigação biomédica da nossa Faculdade.

O êxito deste projecto ultrapassou as expectativas mais optimistas. Foi solidamente consolidado pelos seus líderes e pelo engenho das equipas de investigação que nele se associaram. Uma geração de docentes investigadores cujos méritos e capacidades já foram testados, avaliados e muito premiados. Temos pois boas e fundamentadas razões para nos congratularmos e os felicitarmos pelo seu sucesso.

Quis mais uma vez a Faculdade testemunhar o apreço pelo trabalho que realizei, aliás no cumprimento das minhas obrigações. Uma lição de generosidade do Conselho Directivo e do Conselho Científico, que me surpreendeu e sensibilizou quando me foi anunciada pelo Director, Professor Fernandes e Fernandes. Mas se o momento é de gratidão o que vos digo é que grato estou eu aos Professores que me ensinaram, aos Mestres que me inspiraram, aos colegas e colaboradores e discípulos que me acompanharam e aos estudantes que me motivaram.

Grato ainda à Universidade de Lisboa e ao Instituto Gulbenkian de Ciência que me acolheram e que tive o privilegio de servir. É grande o prestígio dos que trabalham nas áreas do ensino universitário e da investigação. As motivações que os animam são, conforme escreveu George Steiner, 'muitas e diversas e até contraditórias', mas para quem ensina os Mestres são aqueles que souberam despertar poderes e sonhos além dos seus e induzir amor por aquilo que amam. A não esquecer.

* Discurso proferido aquando da atribuição da Medalha de Honra da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, em 21 de Novembro de 2007.
** Professor Jubilado da FMUL.
Recebido e aceite para publicação: 2 de Abril de 2008.
RFML 2008; Série III; 13 (2):.