1º Simpósio em Biologia do Desenvolvimento (Discurso de Abertura - 1998)

J. F. David-Ferreira

Discurso de Abertura no I Simpósio em Biologia do Desenvolvimento

13/02/1998


Minhas Senhoras e meus Senhores

 

D1. Em nome dos promotores e participantes do I Simpósio em Biologia do Desenvolvimento cabe-me o privilégio de dar início aos seus trabalhos. Serei breve. Começarei, como é devido, por cumprimentar convidados, professores, colegas e amigos que nos quiseram honrar com a sua presença nesta sessão de abertura, nomeadamente...

E dar as boas-vindas aos participantes que se associaram a esta iniciativa muito especialmente a todos que vindo de outros países e instituições se disponibilizaram em compartilhar connosco a sua experiência e resultados.

Finalmente agradeço aos que através das instituições que representam tornaram possível este Simpósio:
- Fundação da Universidade de Lisboa
- Fundação para a Ciência e Tecnologia
- Fundação Calouste Gulbenkian
- E também a Faculdade de Medicina que me apoiou e acolheu

Congratulo-me que o organizador do programa, o Doutor Domingos Henrique tivesse associado a esta realização o nome de Celestino da Costa, de quem me orgulho de ter sido aluno e discípulo, o que aliás justifica esta minha intervenção inicial.

 

D2. Há 50 anos eu era um jovem estudante na Faculdade de Medicina de Lisboa e Augusto Celestino da Costa o experiente professor de Histologia e Embriologia, criador de um Instituto que liderou durante mais de 40 anos, deixando um rastro de discípulos que se distinguiram em vários ramos do saber.

O seu ensino e a sua acção que se iniciou num período particularmente brilhante da Faculdade (de que também foi um dos promotores) marcaram uma época e influenciaram colegas e gerações de estudantes que seguiram os seus cursos, ouviram as suas conferências ou leram os seus escritos.

Director do Instituto de que foi o criador conseguiu criar, apesar das dificuldades da época e das contrariedades do meio, pouco propício ao desenvolvimento da Ciência, um Centro de excelência que foi exemplo e pólo de atracção para muitos que se iniciaram na investigação científica.

As duas áreas disciplinares que ocuparam o seu labor científico foram a Histologia e a Embriologia, mas a sua acção e influência ultrapassaram largamente as fronteiras da sua actividade como professor e investigador. Celestino da Costa que, desde muito jovem, se deu conta das insuficiências do ensino médico, foi um dos elementos mais activos da chamada geração de 1911, que promoveu a reforma da Escola Médica e inspirou o movimento de modernização da universidade portuguesa.

Culto e informado pugnou pela introdução no nosso Pais do modelo de Universidade preconizado por Humboldt, que já estava em prática noutras paragens mais afortunadas da Europa.

É o que resumidamente comenta nas reflexões finais do seu esboço de autobiografia:
"Quiz que o ensino superior português se tornasse digno do dos Países civilizados, que ensino e investigação fossem inseparáveis, isto é que os professores universitários e os candidatos a esta situação, se sentissem na obrigação de contribuir para o progresso da Ciência e fossem investigadores".

Foi um objectivo que prosseguiu toda a vida através de conferências, escritos e da sua acção quando ocupou cargos directivos na Junta de Educação Nacional, de cuja criação foi um dos inspiradores e mais tarde no Instituto de Alta Cultura de que foi Presidente até 1942.

O seu desígnio era criar condições para que Portugal ultrapassasse o hiato científico e cultural que nos separava da Europa.

Conforme o testemunho de Prof. Jaime, num sessão aqui realizada, "foi uma espinhosa acção a do fomento da investigação e da expansão cultural. As lutas de Celestino da Costa, neste campo, não são conhecidas no País porque não vieram nos jornais, não foram lutas politicas, nem notícias desportivas" e mais adiante "sofreu seriamente, espartilhado como estava entre a sua isenção e as suas convicções profundas, por um lado, e, por outro, a mesquinhez restritiva e progressivo sectarismo dos nosso dirigentes de então".

Também em meu entender a dimensão nacional de Celestino da Costa não ocupa ainda na memória cultural da Universidade e do País o reconhecimento que por grande mérito lhe é devido.

Não faltaram porém ao longo da vida as homenagens e manifestações de apreço por parte de colegas nacionais e estrangeiros que apreciaram o seu trabalho conforme se pode constatar nos muitos artigos que lhe foram dedicados em várias ocasiões da sua vida e carreira.

Na actividade científica destacou-se e adquiriu projecção internacional pelos seus trabalhos sobre a histofisiologia das glândulas endócrinas nomeadamente a supra-renal que serviu de tema ao seu primeiro trabalho em 1904 (intitulado sobre alguns pormenores de estrutura da cápsula supra-renal) e à sua dissertação inaugural ("Glândulas supra-renais e suas homólogas. Estudo Citológico") defendida em 1905 na ainda Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.

A sua obra na histofisiologia das glândulas endócrinas foi complementada pelos trabalhos do discípulos que orientou para temas de endocrinologia.

O primeiro embriologista português e durante muito tempo o único da Península Ibérica. Do seu labor nesta área temos o registo de cinco dezenas de trabalhos e comunicações na sua maioria em francês. Há ainda numerosos artigos de divulgação científica avançada e várias versões de um livro didáctico  um Manual de Embriologia – que além das edições em português teve uma versão em espanhol publicada na Argentina e duas edições em Francês publicadas em Paris pela Masson e que serviram como livro de texto no ensino universitário francês e uma edição póstuma actualizada pelo seu discípulo Xavier Morato.

Fez-se embriologista sem guia nem mestre. Aprendeu em directo com os embriões que estudava, tendo como orientador a embriologia de Albert Brachet, a correspondência e as visitas e congressos.

Como relata o Prof. Xavier Morato, que foi seu assistente e sucessor na Cátedra e na direcção do Instituto (e também meu professor) "Celestino da Costa cedo se apercebeu que lhe faltava experiência na área de embriologia, pôs-se ao trabalho e durante cinco anos pouco publicou; durante esse tempo foram executadas milhares de preparações de embriologia de mamíferos que ele estudou atento e entusiasmado."

"A partir de 1916, os trabalhos sobre temas embriológicos sucedem-se: estuda o desenvolvimento da supra-renal do gato (1916), o desenvolvimento da supra-renal e dos sistema nervoso simpático e parassimpático (1918), a amniogénese nos mamíferos em particular nos morcegos (1919, 1920, 1923, 1925). Frequentemente retoma o problema do desenvolvimento da supra-renal e dos paragânglios (1926, 1935, 1936, 1940) e do sistema paraganglional (1947).

Interessou-se ainda pelos problemas respeitantes à crista ganglionar craniana, origem dos gânglios nervosos cranianos e mesenquina cefálico (1920, 1923, 1927, 1930, 1931).

O problema dos gonocitos primários nos mamíferos também chamou a sua atenção (1932,1937) assim como o dos prónefros na cobaia (1929) e a citoquímica das ribocleoproteína nos esboços embrionários (1948)."

 

D3. Já jubilado atribuíram-lhe os seus pares da Association des Anatomistes a honra de organizar na sua cidade e na sua Faculdade a reunião anual da Associação:
Assim há 46 anos, no dia 26 de Março de 1956, iniciou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa a 43ª Reunião Anual da Association des Anatomistes. Presidiu à sessão de abertura o Eng.º Leite Pinto que era Ministro da Educação, e grande admirador de Celestino da Costa, desde os tempos em que trabalhava sob a sua direcção como 1º Secretário da Junta de Educação Nacional.

O Prof. Celestino da Costa, que era Presidente do Congresso, fez o discurso inaugural e apresentou um extenso e bem documentado relatório sobre "L'embryologie du sympatique et ses derivés", recheado de observações pessoais.

À noite assistiu a um concerto no Palácio Foz, em honra dos congressistas, e no dia seguinte já não estaria connosco.

A morte que o surpreendeu em plena acção impediu-o de completar alguns dos projectos que ainda acalentava, entre os quais uma autobiografia intitulada "História de uma Experiencia", uma cópia que me foi oferecida pelo Prof. Jaime Celestino da Costa e da qual extraí o trecho final intitulado "Reflexões sobre os objectivos da minha vida e resultados obtidos". É o balanço de uma vida que encerra um pensamento e uma mensagem que considerámos adequado divulgar por ocasião deste simpósio.

Cabe aos jovens investigadores reflectiram sobre a lição de uma vida cujos propósitos extravasam os limites do "eu" e que este texto tão bem reflecte.

É também o espírito de uma época em que nem os idealismos nem os ideologistas estavam mortos.

 

D4. Em comemorações que assinalaram o centenário do seu nascimento tive então oportunidade de tecer algumas reflexões sobre o pensamento e acção de Celestino da Costa e de recordar a esse propósito o seguinte episódio:
"Ainda estudante topei um dia num dos seus escritos, o discurso de abertura do ano académico de 1946 da Sociedade de Ciências Médicas, de que era então Presidente, com este Parágrafo:
"Atribui-se a Guilherme o Taciturno uma divisa que sempre considerei como das mais estimulantes entre as que habitualmente se propõem para animar o esforço do homem: Point n'est besoin d'esperer pour entreprendre ni de reussir pour preséverer.

Para começar tropeçou nele o meu francês liceal, depois confundia-me na tradução o sentido paradoxal: Empreender mesmo sem esperança? Prosseguir mesmo sem êxito? Só progressivamente comecei a descortinar-lhe o sentido e anos mas tarde concluí que revelava muito sobre Celestino da Costa. Um homem capaz de empreender mesmo sem esperança e de prosseguir mesmo sem êxito.

Os tempos são outros, mas as dificuldades também e talvez haja hoje no nosso País mais facilidade para obter meios e mais oportunidades para seguir uma carreira cientifica, mas a natureza do trabalho que realizam os investigadores continua a exigir a mesma "endurance", a capacidade de empreender mesmo sem esperança e de prosseguir mesmo sem êxito".

Para as jornadas de hoje os meus votos são que tenham êxito.
Desejo também que perdure na vossa memória o exemplo do nosso patrono, alguém que quis ser e foi um homem de Ciência, que contribuiu com dados e ideias novas para o progresso e que honrou com o seu trabalho a sua Escola e o seu País.