Augusto P. Celestino da Costa. Reflexões sobre os objectivos da minha vida e os resultados obtidos (Palestra - 1998)

Simpósio Celestino da Costa em Biologia do Desenvolvimento

13 de Fevereiro de 1998

A. CELESTINO DA COSTA
REFLEXÕES SOBRE OS OBJECTIVOS DA MINHA VIDA E OS RESULTADOS OBTIDOS


1. Quis ser um homem de ciência, e contribuir com dados novos e ideias novas para o progresso da ciência, ter um nome honrado e honrar a minha escola e o meu País. Creio tê-lo conseguido na medida das minhas forças.

2. Quis que o ensino superior Português se tornasse digno do dos países civilizados; que ensino e investigação fossem inseparáveis, isto é, que os professores universitários e os candidatos a esta situação, se sentissem na obrigação de contribuir para o progresso da ciência, fossem investigadores. Só parcialmente deu resultado o meu apostolado nesse sentido (escritos, conferências, discursos, elaboração de regulamentos, o exemplo da minha própria carreira). Foi na Faculdade de Medicina de Lisboa que estas ideias foram mais seguidas, mas não por todos. Bastantes, por comodismo ou falta de interesse, abstiveram-se de entrar no movimento. Mas hostilidade franca só excepcionalmente e por razões pessoais se manifestam. Nas outras Faculdades de Medicina, nas de Ciências a investigação continuou a ser ocasional e só praticada por alguns. Mas nalgumas como na de Ciências de Lisboa, foi inegável a hostilidade ao principio, negando-se que o ensino universitário tenha o dever da investigação. Noutros casos o principio foi adoptado, mas só na aparência e a palavra investigação serviu para cobrir cursos inverosímeis.

3. Quis que a minha escola se destacasse entre as outras escolas superiores Portuguesas e adquirisse prestígio no País e no estrangeiro. Consegui-o, parcialmente, juntando os meus esforços aos de outros Professores, principalmente os da chamada geração de 1911. Nos primeiros dez anos após a criação da Faculdade, um certo número de laboratórios (ou institutos) tornaram-se centros de criação cientifica com repercussão além fronteiras. Nesse movimento ascensional a Faculdade adquiriu a consideração de uma boa Faculdade digna de ombrear com muitas boas escolas estrangeiras. Por outro lado o ensino clínico, principalmente na medicina interna modernizava-se consideravelmente. Após 1920, as dificuldades, que sempre tinham existido, começaram a agravar-se. Depois golpes vários atingiram a Faculdade, lentamente e por não ter havido uma nova camada com o prestígio da anterior, o prestígio da Faculdade baixou. Hoje é uma pálida sombra do que foi. Mas as bases deixadas pelos homens de 1911 permitirão que uma nova camada reerga o prestigio e a eficiência da Faculdade.

4. Quis que o serviço de análises clínicas dos hospitais civis se desenvolvesse e fosse inteiramente eficiente. Nomeado em 1919, só em 1927 consegui a criação dos laboratórios de hospitais. Rapidamente o serviço se desenvolveu mas sem que os recursos aumentassem correlativamente, os últimos anos foram de luta inglória, a falta de colaboração dos clínicos e incompreensão do enfermeiro-mor e do governo. Mas o que deixei feito contém todas as possibilidades do futuro.

5. Quis criar ou desenvolver em Portugal as sociedades e as revistas cientificas. Auxiliei Athias, na criação da Sociedade de Ciências Naturais e de Biologia - mais recentemente fundei a de Endocrinologia. Colaborei na fundação e manutenção de revistas cientificas. Esta obra de expansão, está de pé, a Sociedade de Ciências Naturais tornou-se finalmente de naturalistas e a de Biologia está bem assente. Neste capitulo não estou insatisfeito.

6. Quis que a ciência portuguesa aparecesse além das fronteiras e se tornasse conhecida. Dei o exemplo aparecendo regularmente em congressos e aceitando convites para conferências no estrangeiro. Trabalhei no intercâmbio intelectual entre Portugal e outros países. Essa obra vingou e continua já noutras mãos.

7. Quis que os Portugueses, principalmente a gente nova, tivessem a possibilidade de ir aprender no estrangeiro tudo quanto entre nós não encontrariam e que, de volta a Portugal, tivessem onde trabalhar e aplicar a aprendizagem efectuada. Foi esta a obra essencial da Junta de Educação Nacional e do Instituto de Alta Cultura. Essa obra, principiou, a realizar-se com a Junta, graças à actividade inteligente de Simões Raposo, continuou depois da morte dele. Mas depois a incompreensão do Estado e a politica reduziram tremendamente a acção da instituição. O êxito não foi, portanto, completo nem duradouro. Mas prestou-se, ao País e aos seus estudiosos, em todos os ramos de actividade relevantes serviços. Um dia pessoas mais felizes do que eu e os meus sucessores, poderão retomar o facho e recomeçar a acção da Junta.

Nota explicativa - O texto que se transcreve, foi extraído de um documento intitulado "História de uma experiência", esboço de autobiografia do Professor Augusto Celestino da Costa, cujo manuscrito original me foi oferecido pelo Professor Jaime Celestino da Costa, quando das comemorações do nascimento de seu Pai. Trata-se de um documento que traduz o projecto de vida do Universitário e Cidadão que, como disse Orlando Ribeiro, foi "exemplo não apenas de uma vida devotada à ciência mas também a um ideal de civismo servindo, através do trabalho cientifico a criação ou o revigoramento de uma mentalidade nacional". Encerra um pensamento e uma mensagem que pensamos adequado divulgar por ocasião deste I Simpósio em Biologia do Desenvolvimento, de que é, merecidamente, o patrono.


J. F. David-Ferreira