Reflexões sobre a Vida e a Obra de Augusto P. Celestino da Costa (1884-1956) (Palestra - 1985)

Reflexões sobre a Vida e a Obra de Augusto Celestino da Costa

J.F. David-Ferreira (1985)

(Transcrição Integral)

Point n'est besoin d´esperer pour entreprendre,
ni de reussir pour perséverer
Guilherme, o Taciturno

O privilégio que hoje me honra de falar nesta sessão e de juntar algumas reflexões ao testemunho de homens tão credenciados como Orlando Ribeiro e Jaime Celestino da Costa tem as suas raízes há mais de trinta anos e é fruto de outros privilégios: ter sido aluno da Faculdade de Medicina de Lisboa, ter contado entre os meus professores alguns dos nomes que mais ilustraram e ilustram a medicina portuguesa, ter frequentado desde muito jovem o Instituto de Histologia e Embriologia.

Para me situar em relação ao Mestre, cujo centenário celebramos, terei que desfiar algumas recordações, falar de mim, mas serei breve nessa introdução.

"Quando o conheci era um jovem estudante com 19 anos e Augusto Celestino da Costa um professor amadurecido por uma longa experiência, respeitado por uma sólida carreira científica, consagrado pelos muitos serviços prestados à sua Universidade e ao País. Vi-o pela primeira vez no velho anfiteatro de Histologia e comecei desde esse dia a descobri-lo. O seu aspecto físico era frágil mas a sua têmpera seguramente rija pois nem golpes nem desilusões, alguns bem recentes, tinham diminuído o entusiasmo que punha na sua profissão difícil e, na época, até perigosa. No seu discurso não transparecia nem cansaço nem desencanto. Fascinava pela simplicidade. Era genuíno, não tinha complexos de «prima-dona». Nem o discurso empolado pelo estilo que Sílvio Rebelo classificava de «médico-cirúrgico». De palavra sóbria e de ideias sólidas, dominava essa arte de estar e de ser professor. A tudo se acrescentava aos nossos olhos de estudante essa auréola ainda fresca de uma depuração injusta. Mas para se ver é preciso, estar preparado e alguns de nós já estavam pelo menos sensibilizados para identificar pelo discurso um professor de experiência vivida, apurada pela reflexão.

Antes de entrar na Faculdade de Medicina, na Escola Médica, como então ainda muitos lhe chamavam, tinha frequentado o liceu de Camões e o acaso das pautas e da distribuição por turmas tinha-me proporcionado um Professor: o Doutor Rómulo de Carvalho. Hoje o nosso bem vivo poeta António Gedeão. Foram as suas aulas de física e as leituras extra-escolares que nos recomendava que despertaram em mim, como em muitos dos seus alunos, o primeiro interesse pelas coisas de ciência. Além disso ele foi desde então um primeiro marco de qualidade.

Após o liceu, no curso preparatório na Faculdade de Ciências, que era uma ante-câmara de entrada na Faculdade de Medicina, mais uma vez o bom destino nos concedeu a graça de outro grande professor: o Doutor Manuel Valadares. E digo graça porque alguns meses mais tarde, ainda no final desse ano lectivo de 1947, Manuel Valadares seria afastado para sempre do ensino e do País.

Mas a recordação das suas aulas, além dos ensinamentos, representaram a identificação de padrões de qualidade que não se esquecem.

No curso do FQN aconteceu ter como colega o meu amigo Luís Oswaldo Dias Amado. Foi a oportunidade de vir a conhecer de perto o seu pai, o Professor Dias Amado, então um prestigiado assistente da Faculdade de Medicina e discípulo de Celestino da Costa. Dias Amado já não viria a ser meu professor porque também ele foi afastado definitivamente da Universidade por esse processo expedito que, na época, ainda não se chamava «saneamento». No primeiro ano do seu afastamento, Dias Amado procurou manter com os estudantes um diálogo rejuvenescedor e, assim, um grupo de colegas do filho teve o privilégio de o ter como «professor clandestino» de Histologia no seu laboratório da Rua Castilho.

Foi o meu primeiro encontro com a Escola, deveria dizer escol, de Histologia de Lisboa. Anos mais tarde foi um dos maiores discípulos de Celestino da Costa, o Professor Xavier Morato, de quem fui aluno e assistente, que daria a orientação profissional que me fixou definitivamente à Histologia."

Posto o parêntesis e as credenciais retomo o discurso. Quando conheci Celestino da Costa como meu professor já tinha padrões de qualidade por onde aferir o Mestre. Ele era um grande Professor e das muitas lições que recebi algumas foram-no nesse ano lectivo de 1947-48. A naturalidade da exposição, a documentação objectiva e pessoal com que ilustrava as aulas, a forma como, sem se esquivar ao rigor e à precisão, sintetizava os temas.

Era um professor culto e se como nos diz António Sérgio «cultura é uma certa maneira de saber as coisas» poderemos acrescentar que é também um certo modo de transmitir o saber. Cultura nunca foi erudição e Celestino da Costa, que era um homem erudito, não nos esmagava com factos e dados. Poupava-nos ao detalhe tantas vezes inútil. Dava vida aos textos, não os repetia, enriquecia-os.

Recordo a este propósito a sua última aula do meu primeiro ano ao terminar o curso de Embriologia, a disciplina mais do seu agrado e em que a sua competência, que se espraiava em numerosos trabalhos originais, era há muito reconhecida internacionalmente. A aula tratava das anomalias do desenvolvimento e ele descrevia as variadas formas de monstros duplos e as designações que lhes correspondem. Era uma longa lista de termos arrevesados que desencorajavam a nossa memória já penalizada pela Anatomia. E então, já no final da aula, surge o professor-pedagogo a aliviar com a juventude do seu humor tão indigesto tema.

Foram duas curtas histórias. Numa, era relatado o desabafo de um engenheiro francês que, tendo vindo a Portugal colaborar na construção de uma ponte, começou a constatar com surpresa que os engenheiros portugueses, seus colegas, não consultavam tão frequentemente como ele as indispensáveis tabelas. Mas a sua surpresa tomou-se ainda maior quando descobriu que sabiam de cor muitos dos índices que ele laboriosamente procurava. Surpreendido, deixa escapar no seu português arrevesado: «Oh lá! lá! Portugueses ter muitas chifras na cabeça»!

E a rematar, uma outra. Tratava-se agora de um professor de Geografia que fazia exame a um dos seus melhores estudantes e que surpreendido pela categoria do examinando foi tornando o interrogatório cada vez mais apertado. Era sob a topografia de um lugar mas a partir de certa altura eram os detalhes dos caminhos, a situação dos fontanários. 0 aluno emudeceu. Um fracasso para terminar. Findo o exame o aluno verifica porém que lhe tinha sido atribuída a mais alta classificação: 20 valores. Ao manifestar ao mestre a sua surpresa agradecida, teve a explicação: Pois é, você teve 19 valores pelo que sabia e mais um pelo que não sabia.

Para jovens estudantes de medicina, já então vergados pelo peso da memorização, ali estava o perfil do professor. Terminou com a juventude do humor e a sabedoria. Ficaram as histórias e ficou a lição.

Anos mais tarde, ainda estudante do terceiro ano, comecei a frequentar o Instituto de Histologia e a aprender técnica histológica, primeiro como estagiário e depois como bolseiro do Centro de Estudos do Instituto de Alta Cultura que o Professor Celestino dirigia.

A partir de certo momento essa introdução à investigação começou a processar-se num pequeno recanto laboratorial cujo acesso se fazia pelo próprio gabinete do Professor. Foi outro privilégio do destino, destas coisas boas de que se tem saudades. Tive acesso ao homem. Conheci-o de perto. No laboratório ele era o mesmo que conhecera alguns anos antes no anfiteatro. O professor que não cultivava distâncias artificiais nem com os seus alunos nem com os colaboradores. O hiato das gerações desaparecia. Ele era um homem moderno em permanente busca, o professor que aprende actualizando-se por uma leitura e observação atenta do que se passa no mundo e à sua volta. Fascinava pelo «charme» quando nas breves pausas das suas ocupações sacava do fundo da memória o episódio, a situação apropriada, a pequena história que quase sempre encerrava uma lição. Além dos seus conselhos e comentários, foi também o acesso ao mundo que era aquela biblioteca, parede meias com o seu gabinete de trabalho, e onde havia de tudo sobre histologia e embriologia, e não só.

Foi através dos seus comentários e dos seus escritos que comecei a reconstruir a história da minha Faculdade. Através dessa parcela da sua obra que são os documentos em muitos aspectos únicos de situações e de vidas de colegas e de contemporâneos. Foi através desses escritos que comecei a descortinar a saga da «geração de 1911» que semeou e cultivou o campo onde viria a florescer um dos períodos mais brilhantes da ciência em Portugal. São dessa época as minhas primeiras reflexões sobre a vida e a obra de Celestino da Costa. Ele iluminou a minha compreensão para muitas grandezas e misérias da escola e da nossa terra.

A ele bem se aplicava um comentário seu sobre Cajal: «bastava ouvi-lo para reconhecer nele o homem sincero, o cultor entusiasta e inteligentíssimo da Ciência, o patriota fervoroso, o exemplar simpático, entre todos, dum dos melhores tipos da humanidade: o sábio».

Patriota fervoroso. O pensamento e a obra de Celestino da Costa reflectem o homem e uma época. Época em muitos aspectos conturbada, em que a confiança de um povo nas suas instituições foi abalada e em que as suas elites buscam, por vezes desajeitadamente, um caminho que regenere virtudes antigas ou restaure a grandeza do passado. Busca simultânea da identidade nacional no passado e tentativa de identificação com essa Europa que se escapava para o futuro, acelerada pelo século XIX. É a tentativa de corrigir erros antigos e de abrir novas fronteiras.

(...)

Sem dúvida que são necessários, mas a sua qualidade devia ser garantida. Para começar, devem representar a continuação adequada de um bom ensino graduado, não o substituem. Sem bom ensino graduado não há mesmo post-graduação de qualidade. Infelizmente em nome de uns degradam-se os outros.

Recordo o conselho, ainda recente, que me dava um colega mais administrativo, quando me queixava da falta de meios com que lutava na tentativa de modernizar o ensino da cadeira de que sou responsável: Mas V. tem uma maneira muito simples de conseguir os fundos de que necessita, dizia-me ele. Há um orçamento especial para cursos de post-graduação e as verbas até têm sobrado. Pois é, não havia 100 para 200 alunos mas havia 1000 para 20. E a verdade é que não pode haver ensino post-graduado de qualidade sem bom ensino de graduação.

Para fomentar a investigação é preciso antes de mais preparar os investigadores, descobrir vocações e é nos laboratórios que se revelam, não nos recitais de erudição e memória a que nos vamos limitando e habituando...

Também a investigação científica não se cultiva só com projectos ambiciosos ou de interesse prático imediato. Há que semear e cultivar. Dar aos jovens no momento próprio da vida oportunidades para confrontarem os seus anseios românticos com a realidade do trabalho laboratorial. Criar oportunidades para as vocações se revelarem e para os oportunistas se escaparem para tarefas mais apropriadas.

Como há quase 40 anos recomendava Celestino da Costa: «Devemos nós os professores, responsáveis pela formação das novas gerações, estar atentos às qualidades dos nossos alunos, indagar dos seus desejos de trabalhar, espreitar a sua vocação, pacientemente, sem pressas, sem querer forçar, nem tomando esta por confirmada, quando não passa de veleidade, nem negando-a, quando, por timidez, ou outra circunstância, tarda em manifestar-se. O papel do professor é, nesta matéria, de uma dificuldade extrema, roçando constantemente pelo perigo de mal julgar, de dar um passo em falso, de inutilizar uma possível carreira científica ou de perder o tempo com o que Nicolle chamava falsa vocação. Mas essa dificuldade não nos deve fazer recuar. O homem que não age por medo de se enganar não presta».

Muitas vezes se tem falado nos últimos anos nos chamados serviços à Comunidade como forma de mobilizar fundos necessários para o ensino e para a investigação universitária. Pois também o que o meu bem intencionado colega me sugeriu. Passávamos a fazer um determinado tipo de análises e assim obtínhamos os meios para a nossa actividade de ensino. O problema óbvio era que a partir do momento em que nos envolvêssemos nessa actividade comercial, já pouco tempo sobraria para a nossa actividade universitária.

É o momento pois de recordar o que escreveu Celestino da Costa em 1940: «Um dos maiores obstáculos que se levanta à ciência entre nós, que encontraram também pela frente os nossos microscopistas, é que só se respeitam os resultados de imediata utilidade individual ou, colectiva, isto é, só se considera a ciência aplicada. Ignora-se que a ciência é, acima de tudo, a procura e descoberta da verdade, a resolução de problemas do conhecimento, que em si próprios têm seus objectivos e que não há aplicações possíveis se não existirem as bases».

Aqui, portanto, muito cuidado. Se é certo que a Universidade pode e deve colaborar na solução de alguns problemas da comunidade, essa colaboração deve ser feita sem se desviar dos seus objectivos fundamentais e da sua vocação. Tanto mais que já existem, muitas vezes para esses fins, Institutos próprios do Estado.

Não nos esqueçamos também de lembrar que o nosso serviço à comunidade é a formação de profissionais competentes e que para isso são precisos meios humanos e materiais adequados. A crise económica não justifica as nossas sucessivas imprevidências nesta área. E bom recordar o que fizeram no passado outros povos em crise, e que a única forma de sairmos da «crise crónica» que nos aflige há muitas décadas, é o investimento na inteligência e na imaginação.

Mas como conseguiu ultrapassar Celestino da Costa a incompreensão do meio pelas coisas da Ciência, os maus hábitos de trabalho da sociedade que o rodeava, a pobreza do convívio intelectual adequado, sobretudo a partir de uma época em que a vida ou a morte desfizera esse núcleo de excepção dos anos que qualificou de «felizes e fecundos»? Como sobreviveu Celestino da Costa ao isolamento?

Celestino da Costa movia-se com uma agilidade surpreendente numa época em que viajar não era conforto e em que não era possível obter de entidades apropriadas subsídios para viagens. Apesar disso, desde o seu memorável estágio em Berlim com Hertwig e Krause, em 1906, que Celestino da Costa não pára.

São estágios curtos em laboratórios famosos, reuniões, Congressos, visitas a bolseiros, Conferências...

Não eram passeios de turista, eram expedições de trabalho, em que aproveitava para confrontar os seus resultados com os colegas mais afortunados e para respirar cultura. Foi o embaixador-itinerante da ciência portuguesa pela Europa culta e mais tarde pelo Brasil.

Todas essas viagens estão anotadas no seu esboço de autobiografia, com nomes de portugueses que o acompanharam, de colegas com quem contactou e trocou impressões. Às reuniões anuais da conceituada Association des Anatomistes, que nessa época também era o fórum dos histologistas, assistiu e participou de 1920 a 1956 a um total de 26 reuniões. Não espanta, pois, que anos mais tarde um colega francês, ao fazer o seu elogio, dissesse: «ele é a primeira andorinha a chegar de Portugal».

Ele bem sabia qual era a terapêutica para o isolamento, escreveu-a em 1946:

«A investigação científica exige um meio, um ambiente receptivo e estimulante. Mas esse meio não aparece feito, cria-se pelo exemplo, pelo convívio, a acção constante dos investigadores. Repetidas viagens a Centros estrangeiros, contacto estreito com especialistas de outros laboratórios e de outros países, por visitas, ou por correspondência, intercâmbio de conferentes, organização e participação em colóquios, sessões de sociedades científicas e congressos, publicação em revistas da especialidade e troca de respectivas separatas e, ao mesmo tempo, acção sobre o público por conferências, artigos e livros de vulgarização e de expansão universitária, eis alguns dos processos que ajudarão a criar o ambiente e a combater esse terrível inimigo da investigação científica que é o isolamento».

E o que escreveu sobre Congressos:

«...Congressos que põem em contacto homens de diferentes escolas, de diferentes terras e nações; que permitem a cada um avaliar melhor do que valem os outros, ouvindo-os falar, assistindo às suas demonstrações, examinando os seus documentos, apresentando-lhes críticas e escutando-lhes as respostas, e isto não só nas sessões propriamente ditas, mas em todas as ocasiões em que se encontram, durante os tais banquetes e os tais passeios que escandalizam, tão boas almas, mas proporcionam tão excelentes ocasiões de se travar conhecimento e estabelecer sólidas amizades entre esses homens, como os sábios, para os quais o isolamento constitui um dos maiores perigos da sua carreira».

Celestino da Costa um estrangeirado? O qualificativo não já conotação imediata na nossa época de comunicação rápida, de migrações contínuas de ideias e pessoas, o mesmo significado da expressão utilizada para qualificar os nossos intelectuais do século XVIII. Sofreu com o tempo e o uso de muitos abusos. E então nos nossos dias! Às vezes são só turistas de cá e de lá. Dizer-se estrangeirado tornou-se mesmo uma forma de estar e de ser bem castiça. Mas os homens de ciência como Celestino da Costa são por natureza estrangeirados. Para começar, a ciência não tem pátria nem língua própria: foi o grego, o latim, o francês, o alemão, é agora o inglês. Depois há a prática profissional. A atitude de estar dentro e de ver de fora. Essa capacidade de «estrangeirar-se», como diria Coimbra Martins, é própria ao homem de ciência. E Celestino da Costa sabia estrangeirar-se, estava dentro e via de fora. Mas viu sempre as qualidades e defeitos da sua terra com amor.

Essa também uma característica do homem, não tão frio como alguns observadores pretendem. Ele amou a sua pátria, amou a cidade onde nasceu, a sua profissão, a sua Universidade, a sua Escola, o seu Instituto e os seus alunos. E não era um sentimento piegas, era um sentimento-acção. Amou servindo.

O cumprimento do seu programa de vida conduziu-o a ocupar lugares importantes na sociedade e na hierarquia da escola e da Universidade. A este propósito queria sublinhar dois tópicos para reflexão. Primeiro, é que nenhum desses lugares o afastou da sua profissão-vocação. Celestino da Costa não se deixou amolecer nas poltronas nem corromper pelo sistema. Não há hiatos na sua actividade de docente e de investigador. Preparava as aulas, escrevia os seus artigos e livros, dirigia o Instituto e cumpriu sempre as obrigações implícitas nos cargos que ocupava. Só uma capacidade de trabalho excepcional e uma tenacidade rara podem explicar que não se tenha deixado dissolver nem pela brandura do clima nem dos costumes...

Apesar dos contactos e proximidade com o poder, não se deixou envolver pelas teias da política nem pelos aspectos mesquinhos dessa importante actividade. Não utilizou cargos como meio de promoção pessoal, mas para servir com independência o ensino e a ciência. Servia altos interesses. Escolhido pela sua competência e projecção do seu trabalho, soube manter do poder a distância da sua independência crítica e também não se deixou embalar ao chamamento de consciências mais políticas que a sua. Ele sabia que a sua missão não permitia distracções. Isto sem relembrar a amarga experiência da sua juventude em que foi testemunho doloroso do assassinato do seu director, o Professor Miguel Bombarda e de seu pai, o Coronel Pedro Celestino da Costa.

Sem aprofundar o tema, há dois escritos que não posso deixar de referir porque são a chave do seu posicionamento. Ouçamo-lo, sem esquecer de lhes dar o enquadramento da época em que são feitos, em 1931, no seu discurso «Sobre educação do médico» ao Congresso conjunto das Associações Portuguesa e Espanhola para o Progresso das Ciências:

«Pertenço ao número, já hoje reduzido, dos liberais, sou dos que julgam que a liberdade do trabalho, como a da expressão do pensamento são igualmente necessárias para que a humanidade possa viver feliz e nas condições da nossa civilização; sou dos que pensam que o uso dessas liberdades é perfeitamente compatível com um governo inteligente dos povos».

Cinco anos mais tarde, em Novembro de 1936, isto em plena guerra de Espanha, na Academia de Ciências, em resposta ao discurso de Antero Seabra, sucessor do naturalista Silva Tavares, falou assim a propósito da perseguição sofrida pelos Jesuítas-naturalistas nos alvores da primeira República:

«...destruíram-se, em parte, as suas colecções e para alguma coisa se salvar foi preciso que a Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, onde aliás havia homens de crenças políticas e religiosas diametralmente opostas, protestasse contra o que se fizera e reclamasse medidas de protecção à obra científica dos exilados. Reconheça-se, como é justo, que apesar da ruindade dos tempos foi possível protestar e que o protesto foi ouvido e em parte atendido».

E mais adiante: «A sanha então votada contra os jesuítas portugueses, o nenhum respeito pela sua obra científica e a leviandade com que se privou o País de homens que tão eficazmente concorriam para o estudo sistemático da fauna e da flora nacionais e cuja falta ia ser insuperável, não são desgraçadamente casos raros, nem exclusivos de qualquer país ou situação política. Não estamos assistindo hoje à expulsão em massa, dum grande país culto, dalguns dos maiores valores científicos mundiais, só porque pertencem a certa raça sem nenhuma consideração pelos serviços prestados quer à Ciência, quer ao seu País».

Referia-se à expulsão dos judeus na Alemanha Nazi. E conclui: «A nossa terra é pobre de homens de valor e de competência, que a morte os vá levando mais ou menos cedo é desventura inevitável, mas que as paixões políticas ou mesquinhas dificuldades afastem esses raros é imperdoável e muitas vezes irreparável. Quando se convencerão os portugueses de que homens desses devem ser cuidadosamente poupados às vicissitudes da política?».

O perfil de intelectual de Celestino da Costa, a sua independência e isenção crítica não eram do agrado do regímen e de alguns dos seus servidores. Era suspeito para uma classe que defendia outro tipo de interesses e valores. Não lhe perdoavam, e por duas vezes lho fizeram sentir duramente. A primeira quando na sequência de uma Conferência que fez na Câmara Municipal de Lisboa, em 1941, teve a ousadia de afirmar:
«...a ideia de Universidade ligou-se de tal maneira à ideia de Coimbra que ainda hoje há espíritos que não conseguem dissociá-las. Parece que só aí se conhece verdadeira ciência, que o Espírito Santo só desceu em línguas de fogo sobre as margens do Mondego e que por Lisboa ou pelo Porto só há medíocres imitações que talvez se não devessem tolerar. Não estou exagerando, sei muito bem o que digo».

Foi talvez um pretexto para o afastar de Director da Faculdade de Medicina e de Presidente do Instituto de Alta Cultura, dois cargos que servia com eficiência e abnegação. Mais tarde, em 1947, o seu nome também faz parte desse crime que feriu a Universidade Portuguesa. Valeram-lhe então alguns admiradores mais pragmáticos, que também os tinha na esfera do poder. Devolveram-no ao seu Instituto e à sua Faculdade meses depois. Regressou, seguramente triste e talvez humilhado mas, para ele, o que contava não eram as vicissitudes era a sua missão, e prosseguiu como sempre sem espalhar desânimos à sua volta. Não se tivesse dado a sua reintegração e seriam mais umas centenas de estudantes da minha geração que não teriam tido a oportunidade de o ter como professor exemplar.

Ainda estudante topei um dia, num dos seus escritos, o seu discurso de abertura na Sociedade de Ciências Médicas, de 1946, sobre: «A evolução das Ciências Médicas em Portugal» com este parágrafo:
«Atribui-se a Guilherme o taciturno uma divisa que sempre considerei como das mais estimulantes entre as que habitualmente se propõem para animar o esforço do homem: «Point n'est besoin d'esperer pour entreprendre ni de reussir pour perséverer».

Para começar tropeçou nele o meu francês de liceu, depois confundia-me na tradução o seu sentido aparentemente paradoxal: Empreender mesmo sem esperança? Prosseguir mesmo sem êxito? Só progressivamente comecei a descortinar-lhe o sentido e anos mais tarde concluía que a sua leitura revelava muito sobre Celestino da Costa.

Era a têmpera do homem, a atitude do cientista, o conhecedor-amante da sua terra, o apóstolo. Foi assim até ao fim. Fez sempre projectos de futuro. Lembro-me de já no final da sua carreira confidenciar alguns. Foi o projecto de um laboratório de investigação a montar no edifício do Campo de Sant'ana depois da transferência da Faculdade para o novo edifício da cidade universitária, e onde projectava instalar o Centro de Estudos do Instituto de Alta Cultura que dirigia. Eram os seus planos para reformar a Academia de Ciências de que era Presidente da Classe de Ciências e que em seu entender estava obsoleta e a precisar de revitalização. Esperava ansiosamente rever colegas e amigos numa viagem já marcada ao Brasil e onde iria realizar conferências em várias Universidades...

No dia 26 de Março de 1956 iniciou-se nesta sala a 43ª reunião da Association des Anatomistes. Presidiu à sessão solene o Professor Leite Pinto que era na altura Ministro da Educação Nacional e grande admirador de Celestino da Costa desde que trabalhara sob a sua direcção na Junta de Educação Nacional (Fig. 1).
Nessa manhã Celestino da Costa, que era Presidente do Congresso, fez o discurso de boas-vindas e apresentou um extenso e bem documentado relatório sobre: «L'embryologie du sympatique et de ses derives», relatório recheado de observações e dados pessoais. Nesse mesmo dia à noite assistiu a um concerto no Palácio Foz em honra dos Congressistas (Fig. 2). No dia seguinte não estaria connosco, a morte surpreendera-o a trabalhar.

Dizia-me há dias um amigo a propósito da nossa sessão de hoje: Mas V. não acha que entre nós se comemora a propósito de tudo e de nada? Até talvez este meu amigo tenha razão. Sobretudo quando se comemora o passado para esquecer a crise do presente ou iludir o futuro. Mas perdidos estão os homens e as suas instituições quando não são capazes de identificar os seus melhores valores. Quando não sabem distinguir na massa de efemérides de uma história longa e rica, «as pedras vivas» da sua memória. Quando não sabem destilar do «anedotário» de percurso os valores permanentes que lhes servem de referência.

Comemorar não é neste caso mais um acto de folclore. É uma pausa para reflectir, para analisar uma experiência e sonhar o futuro. Futuro que, bem ou mal, já está a ser preparado nos bancos e nos laboratórios das nossas escolas por essa juventude que nos procura ávida de se identificar com os nossos maiores valores. E é por isso que comemorar é hoje um acto de alegria e de esperança. Os padrões que Celestino da Costa estabeleceu como professor universitário perdurarão mesmo quando tiver morrido a saudade dos que o conheceram. Na sua obra legou-nos o pensamento de um homem seguro das suas convicções e certo da sua missão. Um homem que não precisava de esperança para empreender nem de êxito para prosseguir.