Entrevista com Karin Hildur Lindmark David-Ferreira

Entrevista com Karin Hildur Lindmark David-Ferreira

1 de Novembro de 2016

Entrevistador: Tiago Brandão - TB

Entrevistado: Karin Lindmark David-Ferreira – KLDF

Participação pontual de José Pedro David-Ferreira – JPDF

TB – Estamos aqui no dia 1 de Novembro, quase 15h, na casa da Karin Lindmark David-Ferreira, que gentilmente nos concedeu esta entrevista, para ver se nos dá aqui um pouco esta dimensão da vida do Prof. David-Ferreira. Eu começava então por pedir que nos contasse um pouco da sua vida, onde nasceu, como chegou à ciência, à microscopia, digamos, o trajecto antes de conhecer o José Francisco em Paris.

KLDF – ah... Eu estava a trabalhar no Hospital Geral em Malmo, como técnica assistente, e depois eu queria fazer um estágio em Paris. Havia dois laboratórios muito bons, para os quais o meu chefe escreveu, até lá... a perguntar se era possível arranjar um estágio para uma assistente de laboratório, para seis meses. Os três laboratórios responderam, que sim, de maneira que depois foi lá conciliado pelo meu director de instituto que o Villejuif seria melhor. O Instituto de Cancro dirigido naquela altura pelo Prof. Charles Oberling e o laboratório de Microscopia Electrónica era dirigido pelo Dr. William Bernhard. E, também, disseram que sim, que eu podia vir, com uma pequena remuneração, muito pequena... [risos] mas lá fui em Outubro de 1955, Outono... E consegui alugar um quarto na casa de um senhor advogado com acesso à cozinha e casa de banho. Não era muito muito longe do Instituto. Era em Villejuif,

TB – ...arredores de Paris...

KLDF – Arredores de Paris, sim. E comecei no laboratório de Anatomia Patológica porque era isto que eu sabia, não é...

TB – Mas a Karin já estava na carreira técnica, na área da Microscopia?

KLDF – Sim sim; mas Microscopia Óptica, mais nada... E depois aconteceu que um dia uma das técnicas ali ficou doente com uma tuberculose, então o Dr. Bernhard perguntou-me se eu estava interessada em aprender esta técnica. Eu disse que sim, mas não sabia muito bem do que se tratava, não é. No meu curso tinhamos visitado um laboratório em Lund, Universidade de Lund, ligada ao...

TB – O seu curso era sobre o quê?

KLDF – Curso de técnica de Laboratório. Era à noite... Eu trabalhava durante o dia e enre 20h e 23h tinhamos aulas na Universidade de Lund. E, então... assim foi, eu comecei a aprender a técnica, era Microscopia Electrónica, que naquela altura era muito difícil, porque não havia os aparelhos modernos. Nós usávamos facas de vidro, mas vinte anos depois havia aparelhos para fazer as máquinas, muito manipulado pelas pessoas, mas com certas regras... Talvez 70% das facas sairam bem. Quer dizer, com o gume muito afiado, etc., sem provocar estrias nos cortes. E...

TB – Era preciso dominar os processos todos, não é?

KLDF – Sim sim sim... Era muito complicado! Naquela altura...

TB – Hoje as coisas já estão também um bocadinho mais automatizadas...

KLDF – Uma diferença enorme... Porque o fixador era de ácido ósmico, que só fixava certas estruturas; depois muito mais tarde apareceu glutarldeído, que era o primeiro fixador que dava contraste. E ali fui aprendendo, e era um laboratório com um staff muito reduzido, o staff era tudo franceses.

TB – E quando foi essa conversa que teve, se queria substituir a técnica francesa, e isso foi mal chegou, foi um ano depois?

KLDF – Sim, foi uns meses depois...

TB – A perspectiva era ser um estágio curto?

KLDF – Era, para ser só seis meses. Mas depois, os outros meses, passei pelo laboratório de Microscopia Electrónica, e então depois apareceu o meu marido... [rsrs]

TB – Já tinha tido o convite para estar lá mais tempo, quando conheceu o José Francisco...

KLDF – Tenho impressão que não, não tinha tido ainda o convite. Mas, depois, ele apareceu, e depois, enfim, simpatizámos, e ele disse, no laboratório, “aí a menina ainda vai ser minha técnica em Lisboa” [risos]; eu ri às gargalhadas [risos]. Então começámos a sair juntos, a namorar... E depois o meu marido estava nos dormitários lá na universidade, como se chama? A cidade universitária, na casa espanhola...

JPDF – Não havia casa portuguesa ainda, acho eu...

KLDF – Não, não havia não. Ele estava lá. Dividia apartamento com um senhor espanhol, que era pintor. Que pintava uns quadros horrorosos. [risos] Ainda fui lá visitar. Depois havia a cantina. Havia lentilhas todos os dias. [risos] Servido em pratos de aluminio, aqueles divididos em quatro.

TB – Só voltar um bocadinho atrás antes deste moment em que conheceu o Prof. David-Ferreira. Qual o enquadramento familiar que tinha na Suécia, os seus Pais, apoiava o seu estágio, a sua ida para Paris...

KLDF – A minha família? Sim sim. É preciso não esquecer que era 1950 e tal, libertação da mulher, libertação sexual, pilular, etc.. O que dava uma liberdade muito maior, daquela que as meninas vinham tendo até então.

TB – Sentia-se isso muito forte...

KLDF – Sim sim. Mas eles apoiavam, sim. Depois então, meu marido foi viver comigo ali. Havia discussões políticas, à noite, entre o advogado e o meu marido. [risos] Porque naquela altura era guerra da Argélia. Entretanto, fazíamos o jantar, meu marido fazia-me filetes de bacalhau e iscas à portuguesa. [risos]

TB – A primeira vez que comeu iscas à portuguesa, foi feitas pelo José Francisco [risos] ... E recorda-se qual foi a primeira impressão que teve dele? Essa histórica é engraçada, o ele ter logo antecipado que queria contar consigo...

KLDF – ah, Ele conquistou-me completamente em pouco tempo. Tinha muito charme e era um homem bonito. Tinha  muito sentido de humor. Imenso, toda a vida. Mesmo...

TB – Foi mais ou menos em 1955, que o conheceu?

KLDF – Sim.

TB – E qual foi a sua primeira vinda a Portugal, recorda-se?

KLDF – Foi no Natal de 1956. Daí depois, entretanto, o meu estágio foi prolongado. Ficámos lá dois anos e tal.

TB – E conheceu família dele?

KLDF – Depois viemos passar aqui o Natal, em 1956. Não, não conhecia ninguém. Meu marido foi educado pelos Tios. Desde os quatro anos de idade. Porque o Pai dele tinha falecido, e eles seis / sete irmãos. Entretanto, meu marido foi ao barbeiro cortar o cabelo e o barbeiro lhe cortou um bocadinho do couro cabeludo, que infectou. E foi a Lisboa, a um conhecido médico, que se chamada Fernando da Fonseca. Ele depois então, a estadia prolongou-se e ele ficou em Lisboa.

TB – Tudo por causa dessa infecção no couro cabeludo.

KLDF – Sim, pois foi.

TB – Nessa primeira vinda a Portugal, conheceu os familiares, os irmãos, a Mãe e os Tios...

KLDF – Sim, conheci os Tios. A Mãe não, a Mãe parece que já tinha falecido. Conheci os Tios, simpatizámos muito. Eu não sabia falar português. Ela só sabia português e o Tio sabia francês.

TB – Luiz Vieira?

KLDF – Exactamente. Mas a Tia estava cheia de ciumes [risos] que alguém ia tirar o menino dela, ainda por cima uma estrangeira! Que nem sabe falar português...

TB – Imagino...

KLDF – [risos]

TB – No Portugal de 50, então...

JPDF – E de calças! [risos]

KLDF – Não, naquela altura ainda não. Isso foi mais tarde [risos]

TB – Abertura, mas não tanto...

KLDF – Ela ficou de tal maneira ciumenta... Estávamos instalados em casa deles – num quarto independente, como se chamava na época. De modo que tivemos que ir para uma pensão. [risos] Enfim...

TB – Essa foi só uma visita temporária? Depois quando é que veio já com a perspectiva de ficar a viver em Lisboa permanentemente...

KLDF – Depois voltámos para Paris, trabalhámos, entretanto eu engravidei, casámos, no 25 de Abril de 1957, no XIV Arrondissement ... E depois ficámos até Agosto, reunimos toda a nossa bagagem e fomos até à Suécia de Comboio. Visitar os meus Pais.

TB – Foi a primeira que o David-Ferreira conheceu a sua família?

KLDF – Foi sim. Ficámos ali 8-10 dias. Depois então voltámos então por Copenhagen para Lisboa. Muitas horas, muitas horas... E eu quase oito meses grávida. É uma coisa que hoje ninguém pensa fazer. Não é, hoje em dia...

TB – Pois é...

KLDF – Mas o meu cunhado teve pena de mim, que a gente naquela altura tinhamos mesmo pouco dinheiro. Ele pagou-me um bilhete, chamava-se ‘couchete’, que é uma carruagem em que se podia deitar.

TB – Mais confortável...

KLDF – Facilitou um bocado. Chegámos a Lisboa dia 29 de Agosto de 1957, com 39º de calor... Eu não sabia o que era ...

TB – 39º ...

KLDF – E não havia ar condicionado, naquela altura, nem pensar...

TB – E estava satisfeita com a perspectiva de mudar para Lisboa.

KLDF – Estava cheia de felicidade, não é, estava feliz, estava à espera do filho do homem que eu amava muito. E na Estação de Santa Apolónia estava o médico colega do meu marido, o Dr. Mendonça...

TB – À espera...

KLDF – À espera com uma grande notícia, que tinha arranjado um apartamento para nós, na Av. Estados Unidos da América, tudo novinho, com renda limitada, 790 Escudos / mês. Lindíssimo.

TB – É uma boa zona...

KLDF – Muito. Um segundo andar, muito bonido. O apartamento era o prédio todo, de um lado para o outro. Depois então, ficámos instalados em casa dos Tios. Ali a Tia já estava mais simpática [risos], encheu-me de mimos, boa comida, fartou-se de falar de filhos, de família, aquele, aquela lá, etc.. E eu só sabia dizer ‘sim’. Não precisa nada, não é. Entretanto, meu marido mobilou o apartamento, com tudo o indispensável.

TB – Só então se mudaram?

KLDF – Só mudámos três ou quatro dias depois do Zé nascer. Mudámos directamente da Maternidade para lá. Entretanto, a família do meu marido tinha arranjado uma empregada doméstica.

TB – Estava com quantos meses quando chegou a Santa Apolónia?

KLDF – Oito.

TB – Ainda ficou um mês na casa da Senhora...

KLDF – 29 de Agosto cheguei e o Zé nasceu a 4 de Outubro. Mas correu tudo bem. O parto foi fácil. Foi um dia de Outono lindíssimo.

TB – E como é que a questão do regime, isto era o período do Estado Novo, sentiu alguma diferença em relação a Paris, à Suécia, enfim, o ambiente...

KLDF – Pessoalmente não posso dizer, não. Depois mais tarde eu percebi, não é. Quando iamos passear com os Tios. O Tio tinha um espelho, que eu não estava a perceber porque é que constantemente se estava vendo no espelho. Estava na verdade a ver se alguém ouvia a nossa conversa.

TB – Se não havia um esbirro da PIDE...

KLDF – Não conhecia este truque [risos]

TB – Claro... [risos] Engraçado!

KLDF – Então... Mas, são coisas insignificantes, mas... O Director de Histologia era o professor Xavier Morato e proibia as pessoas entrarem com camisolas de gola alta, não se podia usar...

TB – Não se podia?

 KLDF – Só camisa e gravata. E aquele casaco que te capucho, com botões de madeira...

TB – Não deixava isso?

KLDF – Não não [risos]. Era moderno demais...

TB – Devia ser muito forte a questão das hierarquias, das formalidades... aqui em Lisboa...

KLDF – Sim...

TB – Mais do que em Paris... No meio acadêmico, sobretudo...

KLDF – Sim, em Paris não. A gente não se sentia, não notava. Perfeitamente livros. Apenas o respeito. As pessoas muito bem educadas. Quando iamos fazer compras, as pessoas, como eu estavam muito grávida, davam-me lugar na fila, primeiro... Muito bem educados, e bem me lembro. Não sei se já contei, aquela troca das camas? Tem graça, lá no apartamento, e nos prédios havia naquela altura um ‘consierge’. Sabe o que é?

TB – Sim, um porteiro...

KLDF – Sim sim, um porteiro. Ela simpatizou muito connosco, limpava o nosso quarto, lavava as camisas, blusas, engomava, sem a gente pagar, porque não tínhamos dinheiro. E... quando ela descobriu que eu estava à espera do bebe, ela não fez mais nada: trocou a cama do dono da casa, que era para duas pessoas, com a nossa... [risos] Sem perguntar, sem autorização, sem nada...

TB – Sem dizer nada a ninguém [risos]

KLDF – Mas o senhor achou muito bem.

TB – Karin, desse tempo de Paris, estamos pós-guerra, com o ambiente de reconstrução europeia, devia ser muito marcante... Como é que viveram isso, deviam ser tempos novos... mentalidade renovada, depois daquelas anos da guerra... Como é que acompanharam esse optimismo, como é que o José Francisco via esse clima de entusiamos europeu...

KLDF – Havia as discussões lá no laboratório. Mas eu, confesso, não fazia parte disso: sabe, eu estava muito politicamente inconsciente, naquela altura... Eu tinha 24 anos, não é...

TB – Pois...

KLDF – Hoje é diferente, né. Uma pessoa com 24 anos hoje está mais evoluída.

TB – E aproveitavam a cidade, a oferta cultural de Paris...

KLDF – ah sim!

TB – O que é que faziam, cinema, teatro...

KLDF – Teatro não, cinema... Mas também o tempo era pouco, sabe. Eu trabalhava no Sábado, trabalhávamos no Sábado até 13h.

TB – Só o Domingo é que era livre?

KLDF – Exatamente. E... muitas vezes, o jantar eram aquelas baguetes...

TB – Pão francês, pois...

KLDF – Com aquele pão maravilhoso, e fiambre e queijo, e algum vinho, barato! [rsrs) Vinho espumante, que uma vez saiu pelo quarto todo, pelas paredes [rsrs] Mas não passávamos mal. E já havia aquelas lojas só de queijo, em Paris.

TB – Lojas gourmet, como se fala hoje...

KLDF – E só de saladas, maravilhosas, e havia os frangos grelhados, também.

TB – Nem um nem outro eram muito de cozinhar? Eram mais de pequenas refeições...

KLDF – Não! Comprávamos quase sempre tudo feito...

TB – Sim, estou a ver, coisa de cientistas e intelectual [rsrs] não são de cozinhar muito...

KLDF – Naquele já havia aquecimento eléctrico nas ruas. Pelas mesas, para as pessoas que sentassem no exterior...

TB – É muito frio o Inverno em Paris...

KLDF – É, e muito abafado no Verão. Nós não tinhamos frigorífico. A pessoa ia todos os dias a compras. Nem tinhamos gelo. Chegou a estar 30-35º, num fim-de-semana em Paris... Até as lojas vendia gelo, a quilo, avulso. Mas uma vez até o gelo acabou. Todas as bebidas.

TB – Eu vi, de acompanhar outros momentos da vida do Prof. David-Ferreira que ele gostava muito de viagem, de fotografia, nessa altura chegaram a fazer alguma viagem? Por França...

KLDF – É, fomos na Lua de Mel fomos ao Chateau de La Loire, foi muito muito bonito, gostámos imenso... Havia aqueles espectáculos à noite, de som e ‘lumière’, onde eles contavam a história do castelo – foi muito interessante... Mas eu tenho impressão que foi naquela viagem que fomos à Ilha de Saint Michel. Conhece?

TB – Nunca tive lá, mas já ouvi falar. Muito famoso!

KLDF – Muito lindo, muito bonito.

TB – Apanharam a maré baixa?

KLDF – Não me lembro! [rsrs] Possivelmente foi...

TB – Vamos então voltar aqui um bocadito a Lisboa. Vi a menção a uma Tia Joaquina Maria, da família do José Francisco, que teria morado também em França, mantiveram contactos com esse familiar do seu marido.

KLDF – Não, eu tenho impressão que ela foi para França mais tarde. Ela foi lá com o marido trabalhar, numa quinta, na agricultura... Esteve lá muitos anos.

TB – E em termos de relações com a comunidade portuguesa em Paris.

KLDF – Não, nada que eu lembre, não. Isto foi antes da grande leva de imigração portuguesa, que foi nos anos 60.

TB – É verdade... Então, quando a Karin veio para Lisboa, o Pai do José Francisco já tinha falecido, e a Mãe?

KLDF – O Pai faleceu quando ele tinha 4 anos. E a Mãe quando ele tinha 17 anos. Parece... Foi em Abril, lembro-me de ele me ter contado que aconteceu quando estava a estudar para o exame de Anatomia, naquela altura um estudo enorme, dificílimo...

JPDF – O Testud...

TB – Pois, o Manual de Anatomia

KLDF – Era uma coisa grotesta...

TB – Hoje em dia já não usam esse manual, mas continua a ser uma coisa insana... é verdade... O Prof. Celestino da Costa é que dizia quem faziam esse exame chegava lesado à universidade, porque já não conseguia mais fazer seja o que fosse de interessante... Então, sobre esse primeiro período em Lisboa, em que estiveram a viver na Av. Estados Unidos da América, tiveram aí antes de ir para os Estados Unidos, propriamente, não foi, ainda uns dois anos?

KLDF – Não chegámos... Entretanto, começámos a montar o laboratório a partir de 1 de Janeiro de 1958, a encomenda do Microscópio, de todos os aparelhos, porque não havia nada... Era no Piso 0.1, do Hospital Santa Maria, porque naquela altura era obrigatório um piso muito estável, para a instalação dos microscópios...

TB – Isto foi 1958, 1959? Foi em 1962 que foram para os Estados Unidos?

KLDF – Nós ficámos até Agosto de 1962, Agosto de 1962 fomos embora.

TB – Portanto, ficaram aqui ainda 4 anos em Lisboa?

KLDF – Então, montámos o laboratórios, tivemos estagiários, mas depois o meu marido e o Prof. Morato não se davam bem... Não se dava bem com o Prof. Morato: ele era muito boa pessoa, bom professor, bom profissional, mas tinha um grande defeito... Nunca mais me esqueço: na hora do almoço ele chamava a todas as pessoas, médicos e assistentes, para virem fazer a corte ao Prof. Morata. Podíamos dizer coisas boas, que ele era bom, formidável... Sabe o gênero de pessoas que ele atraia...

TB – Pois...

KLDF – Que infelizmente não é os mais competentes. Isto levava muito tempo, chegava a 45 minutos e eu ali à espera, à espera... Então naquela altura nós iamos almoçar a casa. Fazer companhia ao Zé e tinha lá a nossa empregada, que era muito boa cozinheira. [rsrs]

TB – Normalmente ia almoçar a casa?

KLDF – Naquela altura sim...

TB – E onde é que era este laboratório que estavam a montar?

KLDF – Em Santa Maria, no Piso 0.1...

JPDF – O Instituto...

TB – O IHE, ok... do Celestino e do Prof. Morato.

KLDF – Entre... ah, isto já foi em Paris, quando na hora do chá, apareceu o Prof. Bernhard, com o Le Monde, o jornal, disse: “- oh David-Ferreira, está aqui uma notícia que lhe vai interessar, um senhor que se chama Calouste Gulbenkian faleceu e vai montar-se uma grande fundação em Lisboa”.

TB – Engraçado...

KLDF – E assim foi...

TB – E assim foi...

KLDF – E depois se tentou aproximar o Prof. Morato.

TB – Foi a primeira vez que ouviram falar da iniciativa da Fundação Gulbenkian...

KLDF – Sim sim sim.

TB – E quando chegaram cá, fizeram contactos para acompanhar a situação?

KLDF – É, exactamente. O Prof. Morato fazia, para obter dinheiro para montar o laboratório. Mas isso correu muito bem.

TB – Então essa parte da relação com o Prof. Xavier Morato correu bem. No dia-a-dia é que era mais complicado...

KLDF – Porque ele não fazia ideia nenhuma o que era a Microscopia Electrónica. Depois fazia uma lista do que gostava que o meu marido estudasse... Estou a exagerar um bocadinho, mas escrevia: ‘rim’, ‘rim’! Quer dizer, nós estudamos um tipo de célula... minúscula, ou parte da célular... Isso dali não havia hipótese...

TB – Pois...

KLDF – Mas tinha uma mulher encantadora, D. Maria Amélia...

TB – O Prof. Morato?

KLDF – É, muito simpática. Depois um dia o meu marido chegou lá e disse que se iria demitir, que tinha uma bolsa para os Estados Unidos, para trabalhar. Ficou muito triste, o Prof. Morato, aborrecido. Porque ia perder um grande colaborador. E a senhora também; depois foi lá a casa pedir, mas não...

TB – Então, não houve nenhum episódio, nenhum desaguisado especificamente com o Prof. Morato? Só o convívio que, aquela dinâmica de outro tempo...

KLDF – Não, não houve. Não foi violento, não. Mas ele ficou muito decepcionado, desiludido né...

TB – Pois...

KLDF – Mas...

TB – Eles mantiveram contacto nessa altura, por correspondência?

KLDF – Pouco, tenho impressão...

TB – Nesse período, essas quatros anos antes de ir para os Estados Unidos, a Karin chegou a conhecer Portugal, o País, com o seu marido?

KLDF – Sim, o Prof. Morato, por exemplo, foi extremamente gentil comigo. Fomos passear várias vezes durante o fim-de-semana. [risos] Eu tinha percebido, aqui ao pé, que era ‘a volta dos turistas’, mas não, era a ‘volta dos tristes’ [risos]. Tipo de coisa que acontece quando uma pessoa não sabe a lingua. Outra coisa: ouvia sempre falar do ‘senhorio’ e eu pensava que era um senhor que se chamava ‘rio’. [risos] Pequenos pormenores.

TB – Quando é que começou a falar português?

KLDF – Nós falávamos francês, durante um bom bocado de tempo, em casa. Tenho que dizer que aprendi com a minha empregada, como eu estive três meses em casa, com o Zé bebé. Ela não falava, como a maioria dos portugueses, qualquer lingua.

TB – Aí começou a aprender uns rudimentos do português...

KLDF – A dada altura o Prof. Morata arranjou-me uma professora de português, pois tinha medo que a Luísa, a empregada, me ensinasse coisas erradas [risos]. Depois deixei, e a pouco a pouco... sim, foi mais fácil porque eu falava francês. Senão tinha sido muito difícil.

TB – Falava-se muito francês em Portugal...

KLDF – Mas mesmo assim é uma língua que não é muito fácil não...

TB – E o Prof. David-Ferreira nunca arranhou o sueco?

KLDF – Não, não... Ele só sabia ‘[palavra em sueco]’ [risos], pouco mais...

TB – Então, temos...

KLDF – Posso fumar um cigarro?

TB – Por mim com certeza, os meus Pais são fumadores... [rsrs] Eu não me incomodo.

Ah, então depois abre-se aqui este período em que se mudam para os Estados Unidos, imagino que o José Pedro tivesse aí 4 / 5 anos. E foram para lá com a perspectiva de se calhar ficar lá mais tempo?

KLDF – Quer dizer, nós tinhamos escrito a três laboratórios: Universidade de Harvard, Rockefeller Institute e National Institutes of Health – Instituto de Cancro. Os outros só aceitavam estagiários dois anos depois...

TB – Submeteram aplicações os dois, ou foi só o Prof. David-Ferreira?

KLDF – Desculpe?

TB – Se a Karin também se submeteu uma aplicação para técnica assistente de laboratório?

KLDF – Não, foi só o meu marido. 10 000 mil USD por ano, que eles pagávam lá.

TB – Foi aceite nos três e escolheram este dos National Institutes of Health?

KLDF – Na verdade nós não tínhamos escolha porque era o único que nos receberia imediatamente...

TB – Ok...

KLDF – Portanto, no mesmo ano. Fomos lá, fomos muito bem recebidos. O director de departamento chamava-se Jack Dalton, como os irmãos Dalton [rsrs]. Foi um ambiente muito agradável, bem recebidos, um gabinete.

E alugámos uma casa. Este Instituto situa-se em Bethesda. Nos arredores de Washington. Alugámos uma casa, muito simpática...

JPDF – Foi o hospital onde morreu o Kennedy?

KLDF – Não, isto foi o hospital da Marinha...

JPDF – Pensava que era...

KLDF – Não... ah, uma casa muito simpática, ‘red brick’, em Bethesda, Holling Lane, 14. E com todos os supermercados que já havia lá. Aqui não. Muito perto. Lá instalámos. Ficámos lá o tempo todo.

TB – Muito diferente de Lisboa? E de Paris?

KLDF – Sim... [imperceptível] tinhamos jardim, com árvores, arbustos com frambosas, e depois havia uma escola experimental que se chamava Lindbrock School, muito boa escola, onde o Zé começou... E aprendeu inglês rapidamente. Ficou ali até nós irmos embora.

TB – Ficaram lá dois anos?

KLDF – Dois anos e oito meses. Entretanto, o Instituto, porque entretanto tinha surgido a ideia do Instituto...

TB – O IGC, não é?

KLDF – Gulbenkian de Ciência, sim. Havia quatro pessoas encarregues de... era o meu marido, Horácio Menano, Nicholas van Uden e Fernando Peres Gomes, e...

TB – E o Flávio Resende, não era?

KLDF – Sim, ele era suposto ser director, mas depois faleceu, de cancro...

TB – Enquanto o David-Ferreira estava nos Estados Unidos, ou foi já depois?

KLDF – O quê, o falecimento? Ah...

TB – O Flávio Resende faleceu em 1966...

JPDF – Quando ele faleceu já estavam em Portugal.

KLDF – Nós voltámos em 1965.

TB – Mas o Prof. David-Ferreira já estava envolvido com os trabalhos dessa comissão, não é?

KLDF – É, é, exactamente. E depois Fernando Peres Gomes, que era farmacólogo...

TB – Era o mais próximo do David-Ferreira?

KLDF – Sim, era também nosso amigo...

JPDF – E também esteve nos Estados Unidos.

KLDF – Sim sim, teve em Filadélfia. Mas ele entretanto ia escrevendo os Relatórios, a construção do Instituto e depois ele foi obrigado a meias mentiras, porque isto levou muito tempo, levou imenso tempo, de tal que quando nós chegámos...

TB – Ainda não estava pronto?

KLDF – ...ainda levou mais um ano... Meu marido ficou furioso [rsrs]

TB – Imagino... e ele tinha perspectivas de ficar lá nos Estados Unidos?

KLDF – Tinha, tinha... Lá naquela sítio não, mas em outros sítios, em Rochester, escola dentária, tinha vários sítios, porque a Microscopia Electrônica era muito muito novo, estava nos princípios...

TB – Enorme procura... muito solicitada...

KLDF – Exatamente, não era muito difícil arranjar um lugar

TB – E a Karin arranjou algum emprego na altura que esteve lá...

KLDF – Sim, quer dizer, a partir do momento que nos encontrámos em Paris, no laboratório Bernhard, fiquei a trabalhar com o meu marido mesmo. Até, todo o tempo...

JPDF – Até 1994...

KLDF – Estou reformada à 23 anos...

TB – Então era mesmo assistente técnica dos trabalhos do Prof. David-Ferreira, desde então...

KLDF – Sempre trabalhei com ele.

JPDF – E... como se chama aquela bebida?

TB – É verdade, o José Pedro estava-me a contar como fazia aquela bebida...

JPDF – A história do ‘egg nog’!

KLDF – ah, tá bem... A primeira história foi com o Dr. Dalton, na altura do Natal. Fazia uma bebida, clandestinamente, na câmara escura: ah, ‘fisherman’s punch’ [risos] Era uma coisa diabólica, era com gin, um monte de coisas.

TB – Faziam isso nos Estados Unidos?

KLDF – Era aí que faziam, que era estritamente proibido, bebidas alcoólicas, nos laboratórios, tudo.

TB – Os Estados Unidos têm muita coisa da ‘lei seca’...

KLDF – Naquela altura havia pessoas que até bebiam alcool etílico, que nós usávamos para o laboratório, não é... Estava tudo fechado à chave, [risos]... mas correu tudo bem! Ninguém descobriu, foi uma grande festa.

TB – Então davam-se bem com o Prof. Dalton?

KLDF – Eu tenho impressão que a Luisa fez pasteis de bacalhau, para a festa

JPDF – Mas o ‘egg nog’?

KLDF – Sim, isso vem depois.

TB – ah, primeiro, a primeira bebida laboratorial foi a receita do Prof. Dalton?

KLDF – E depois também. Havia uma coisa muito atraente, porque uma vez por semana, tenho impressão que era uma Sexta-feira à tarde, nos bares, havia uma coisa que se chamada ‘happy hour’

JPDF – [risos] É o que agora fazem!

KLDF – Pois... todas as bebidas eram metade do preço, então iamos lá [risos]

TB – A equipe toda....

KLDF – Tudo. Depois é que é o ‘egg nog’. Havia uma senhora virulogista, que se chamava Stewart, muito simpática... fazem muitas festas na altura do Natal, barbecue, ‘christmas party’, e fomos convidados, e depois ela tinha aquela bebida ‘egg nog’, que nós não conhecíamos, e gostámos imenso. Entretanto, como o Peres Gomes estava na Filadélfia resolvemos convidar a família para vir passar o Natal e o Ano Novo connosco. E eles vieram...

TB – Estamos em 1963, mais ou menos... por aí...

KLDF – No mesmo ano que o Kennedy faleceu, já tinha morrido em Novembro... Em 1962 foi quando o meu irmão faleceu. No mesmo mês de Agosto que nós chegámos... Em todo o caso, fizemos uma grande festa de Natal e no Ano Novo, com muitas prendas, e a árvore de Natal, e eu tinha pedido a receita dele – toda a gente gostava imenso! E depois, uns dias, quanto eles tinham voltado a Filadélfia, a Madalena telefonou, e disse: ‘oh Karin, nós queríamos a receita de ‘egg nog’, nós pedimos aqui a de ‘milk man’”; porque eles vendem os ovos batidos, com leite, natas... Karin: “tá bem”... “É que estava muito diferente do seu”... Eu disse: “Vocês não se esqueceram de juntar wiskey?”... Sim! [risos] Então daquela forma era só uma bebida de bébe. [risos] Já conhece, ‘egg nog’?

TB – Não [risos] Então, é ovos, leite batido...

KLDF – Gema de ovos, batido com açúcar, leite, wiskey, q.b., e natas batidas por cima e uma especiaria, ‘nut meg’...

TB – Nunca tinha ouvido falar... mas soa bem! [risos]

KLDF – Aí, muito bom, é óptimo!

TB – E bebe-se frio, ou temperatura normal...

KLDF – É frio! [risos] E então, quando começámos a trabalhar aqui, o primeiro ano [risos], fizemos em todo o Instituto [Gulbenkian de Ciência] o ‘egg nog’, mas não caiu muito bem, porque leite com wiskey achavam muito estranho. [risos]

TB – As pessoas aqui não gostaram...

KLDF – Mas eu depois fazia todos os anos, no laboratório, numa taça muito linda, que era uma oferta do meu casamento, ‘danish design’, preto e vermelho por dentro... lindíssima.

JPDF – Tu deste-me!

KLDF – Está em casa do Zé agora, com certeza nunca usou! [risos]

JPDF – Ainda não.

KLDF – E fizemos, todos os anos, grandes festas de Natal. Cada pessoa trazia o que sabia fazer ou comprava feito.

JPDF – Podias contar é a história da viagem que fizeram nos Estados Unidos.

 KLDF – Ah, tá bem. Sim...

TB – Pois, eu vi que há várias fotografias...

KLDF – É é, nós, tenho impressão que foi 1963 ou 1964. O meu marido tinha estudado geografia dos Estados Unidos, os parques nacionais, os rios, eu tinha feito um mapa com uma viagem que gostava de fazer, e assim foi. Foi durante o mês de Agosto...

JPDF – De que cor era o carro?

KLDF – Ah, era um carro comprado em segunda ou terceira mão, um Wolkswagen...

TB – Só para fazer a viagem?

KLDF – Não não, era para nós usarmos lá, porque a gente não tinha... O carro ia abaixo todos os dias de manhã, quando estava muito frio. Então tinhamos uma amiga do laboratório que vinha, ela carregava o carro e ia outra vez. Em todo o caso fomos e tivemos fora 25 dias.

TB – Conseguiram tirar bastante tempo!

KLDF – Fomos até, como se chama? Grand TItan Park... Não chegámos até à Califórnia, mas não faltou muito. E atravessámos Texas, que eram enorme, parece que nunca mais tinha fim, fomos às Rocky Mountains...

TB – Atravessaram o País todo então...

KLDF – Rocky Mountais, como se chama? Onde desce até o Rio... Colorado! Como se chama?

JPDF – O maior parque do mundo...

TB – O Grand Canyon?

KLDF – O Grand Canyon! E por ali foi...

TB – Muito calor nessa altura?

KLDF – Sim, foi... Atravessámos o Arizona com uma tempestada, que tivemos medo. Trovoada. Não havia nenhum sítio para parar... mas correu bem.

TB – E fizeram os três, o José Pedro também fez convosco?

KLDF – E a nossa empregada também foi connosco. Eramos quatro [risos], o Zé dormia naquele sítio atrás, de dia, no Wolkswagen, fazia uma cama ali...

JPDF – E o Dr. Dalton?

KLDF – Nós ficámos em sítios muito baratos, dos camionistas, um dólar por noite. Sítios onde... uma vez estávamos a dormir e havia um rato... mas enfim, não fez mal. E a cada sítio nós chegámos e o Zé perguntava ao dono: “- Do you have a swimming pool” [risos] Mas apanhámos muito calor. Meu marido chegava a guiar 700kms por dia. Eu não guiava. Então nós almoçávamos durante a viagem, género, doce, marmelada, banana... coisas fáceis que se podia comer no caminho. Mas depois quando voltámos apanhámos um grande raspanete do Dr. Dalton...

TB – Foi?

KLDF – Nós não tinhamos lembrado de telefonar ou mandar um postal, nada.

TB – Mas ele sabia que iam fazer a viagem?

KLDF – Ele sabia, e sabia onde, também. Mas que havia sítios lá no Arizona, no deserto, que se podia perder. Talvez passasse um carro por dia, nem um por dia.

TB – Pois, podiam ter-se perdido...

KLDF – Uma pessoa se perde ali não há hipótese...

JPDF – Quando fomos à reserva dos índios? E começaram a atirar pedras...

KLDF – Ah, é verdade, fomos à reserva dos Índios, como é que eles se chamam? Uma grande reserva índica, em Wyoming. Se eu não estou enganada... A maior reserva de Índios na América.

TB – Então a Karin tem boa memória desses estágios fora, tanto em Paris como nos Estados Unidos.

KLDF – Tenho, tenho, em geral tenho muito boa memória...

JPDF – Mal dela é às vezes ter boa memória demais [rsrs]

TB – E gostou, foi uma boa fase, essa fase das estadias fora, porque há pessoas que não se dão muito bem por estar fora do País...

KLDF – Ah, não, estava óptimo. Muito bom.

TB – Habituaram-se também à lingua, sem problemas?

KLDF – Sim sim sim

JPDF – Bebíamos Coca-Cola [rsrs] Iamos ao primeiro hipermercado, o ‘Super Giant’, o primeiro hipermercado no mundo onde se compravam automóveis, isto nos anos 1960.

KLDF – E bacalhau! [risos] Quer dizer, havia tudo, é verdade. Um grande acontecimento... [risos]

TB – E em relação à Suécia, durante estes anos? Foram lá, Natal, os seus Pais, por exemplo...

JPDF – Foram de carro...

KLDF – Enquanto estivemos nos Estados Unidos, fomos uma vez à Suécia, em 1964... se eu não estou enganada.

JPDF – E foram de carro à Suécia?

KLDF – Fomos até Lisboa, visitar os Tios e depois fomos de carro, é...

TB – De Lisboa até à Suécia?

KLDF – Até à Suécia...

TB – Em Malmo é que estava a sua família?

JPDF – Num Wolfkswagen.

KLDF – Era em Malmo.

TB - Mas essa viagem de carro foi nos anos 1960 ou mais para a frente?

KLDF – Em 1964. Tenho impressão...

TB – ah, vieram dos Estados Unidos a Lisboa e depois pegaram o carro...

KLDF – Exactamente.

JPDF – E passaram em Paris, foram ao Villejuif, não foi?

KLDF – ah, também fomos...

JPDF – Visitaram os laboratórios todos pelo caminho...

KLDF – É, fomos lá visitar o laboratório do Dr. Bernhard.

TB – E a sua família acolheu bem o Prof. David-Ferreira, mais um cientista, da área da microscopia...

KLDF – Sim sim. Simpatizaram muito com ele. Minha Mãe simpatizou muito com ele [risos], só por gestos né.

TB – A questão da lingua né... Os seus Pais faleceram em que ano?

KLDF – A minha Mãe em 1970, o meu Pai 1972...

TB – Tinha irmãos?

KLDF – Eu tinha uma irmã, dez anos mais velha do que eu, Lisa. Que faleceu dia 1 de Julho de 2010.

TB – Visitavam-na aqui em Lisboa, recebia os seus Pais?

KLDF – Olha, ela visitou-me nove meses antes de falecer, mais a minha sobrinha, filha dela...

TB – Recebia-os cá com frequências, nesses anos 1970, aqui em Lisboa...

KLDF – Não, não. Poucas vezes. Eu e o Zé, sobretudo os dois, íamos mais ou menos uma vez por ano à Suécia.

TB – Vi que o Prof. David-Ferreira era apreciador de Ingmar Bergman, e em relação à cultura escandináva, o que é que ele aprendeu? O que é que a Karen lhe introduziu?

KLDF – [risos] Não... Tenho impressão que não fui eu...

TB – É um homem curioso...

KLDF – Sim sim sim. Ele não era muito dado por aquele tipo de filmes. Ingmar Bergman, é muito pesado... Mas apreciava a qualidade do realizador.

TB – Ia lhe perguntar qual foi o primeiro posto de trabalho aqui em Lisboa, mas já me respondeu: trabalhou então sempre como assistente do David-Ferreira aqui no IGC.

KLDF – Sim sim. Ali mais uma vez começámos de zero. Zero mesmo, a varrer o chão.

TB – Montaram dois, na verdade, aqui em Lisboa... Foi o do IHE / Santa Maria, na Faculdade, e depois este do IGC.

KLDF – Depois o do Instituto. 196...

JPDF – Mas em 1966 tiveram um ano em Lisboa?

KLDF – Tivemos no Jardim Botânico, em que deixaram um espaço para nós fazermos o trabalho administrativo, fazer as encomendas, fazer os ficheiros...

TB – Isso porque o Fernando Peres Gomes tinha omitido que o Instituto ainda estava atrasado...

JPDF – E a Simone de Oliveira era vossa colega, não é?

KLDF – Isso foi na Histologia, ela era afilhada do Prof. Morato, a cantora...

TB – Sim sim

KLDF – Mas depois ela não deu foi para estudar [risos] Queria era cantar!

TB – E diga-me uma coisa: as relações com o Fernando Peres Gomes, recuperaram ou eles ficaram chateados com essa...

KLDF – Não, coitado, ele não tinha culpa... aquilo não ia avançando... Não, não, ficaram bem. Tão bem que...

JPDF – Todos os anos passavam o Natal...

KLDF – O Natal, na nossa casa, e o Ano Novo na casa deles. Todos os anos.

JPDF – Tens de contar a história do bacalhau

KLDF – [risos] Tivemos uma... não sei quem inventou... A partir de uma certa altura, todos os anos tinhamos de arranjar prendas à volta do assunto do bacalhau: bacalhau fresco, seco, cortado em postas...

TB – Não podiam repetir então?

KLDF – Pasteis de bacalhau, receitas de bacalhau, Bordalo Pinheiro, figuras de bacalhau [risos] Aí uma vez cozi uma posta de bacalhau e pús aquela água que tem um cheiro horrível num frasco de perfume [risos]

JPDF – Essência de bacalhau!

KLDF – Essência, exatamente, chamei assim... [risos]

TB – Ninguém usou, espero [risos]

KLDF – [risos]

TB – De facto foram muitas viagens, muitas estadias... fora

KLDF – Foi muito bom.

TB – Depois imagino que depois dos Estados Unidos aquela questão que falávamos à pouco das relações hierárquicas e formais na Lisboa dos anos 1960...

KLDF – Ali não havia nada disto... nada.

TB – Quando voltaram, como lidaram com isso? É que uma pessoa quando conhece o que gosta às vezes é difícil regressar...

KLDF – É... Nos Estados Unidos, porém, ainda havia muito racismo. Naquela altura...

TB – Pois apanharam uma fase turbulenta da história dos Estados Unidos...

KLDF – É, é... Um dia, fomos a Wilmington, comprar diamantes...

TB – Para o microscópio?

KLDF – Para usar como faca, para os cortes... que era muito melhor, era é extremamente caro, mas era muito melhor que o vidro. E então nós tinhamos nesta viagem connosco o técnico principal, de laboratório, um senhor de cor... Chamava-se Ben. Então chegou a uma certa altura que o meu marido disse: “- Ben, está com apetite? Temos que ir comer alguma coisa, tá bem?”. Parámos em frente a um restaurante e depois o Ben disse: “- Desculpe senhor Doutor mas eu fico aqui à espera”. “Não senhor, nem pensar”, disse o meu marido. Então explicou, que não queria arriscar chegar na entrada e ser recusado, por causa da cor. E depois nós achámos outra maneira.

TB – Que coisa, que história...

KLDF – Sim...

TB – Isso deve ter sido muito desagradável...

KLDF – Para nós era chocante...

TB – Claro, claro...

JPDF – E não contaste da Baia dos Porcos! Da guerra atómica...

TB – Esses episódios da Guerra Fria...

KLDF – Claro, tá bem... Nós estávamos lá sim, seguiamos isto no fim do dia por Televisão, com o Walter Cronkite, já ouvi falar?

TB – Sim sim, o pivot de televisão...

KLDF – Grande jornalistas...

TB – E comunicador...

KLDF – Muito competente. E nós vimos o assassinato do Oswaldo, o senhor que supostamente matou o Kennedy. Pela Polícia... A mulher era russa comunista... Mas parece que nunca se sabou a saber exatamente...

JPDF – Nós fomos ao funeral do Kennedy...

KLDF – Fomos sim.

TB – Deve ter sido muito dramático presenciar esses acontecimentos.

KLDF – Foi foi...

JPDF – Há um documento na base de dados que é as instruções que eles recebiam para encontrarem refugios atómicos, com as instruções exatas para onde eles deviam ir na eventualidade de um conflito nuclear. Não te lembras?

KLDF – Sim sim.

TB – Então, esses episódios da Guerra Fria...

KLDF – E o Martin Luther King, que foi morto também, nós estávamos lá...

TB – Seguiam a atualidade política de então atentamente?

KLDF – Sim! Pela televisão, era uma época muito quente, não é.

TB – Pois... A Karin acompanhou a carreira do David-Ferreira e vi que assinaram artigos também conjuntamente...

KLDF – Sim...

TB – Como é que descreveria a relação do Prof. David-Ferreira com o trabalho, qual era a intensidade com ele lidava com o trabalho, era uma pessoa que conseguia desligar do trabalho?

KLDF – Não! [risos]

TB – Andava sempre com o trabalho para trás e para diante... Saia do laboratório e relaxa, enfim...

KLDF – O meu marido era um ‘workaholic’ [risos] Não era uma pessoa muito dedicada à família, não posso dizer. Era trabalho em frente de tudo. Muitas vezes chegava aqui às 20.30. Eu saia às 17h, porque o Zé era pequeno...

TB – Tinha de o ir buscar à escola, essas coisas?

KLDF – Não, o Peres Gomes vivia aqui em baixo e tinha duas filhas (infelizmente já faleceram), e tínhamos um contrato com um chofer de taxi, que ia buscar os nossos filhos. Aqui no Saint Judice, onde andavam os três...

TB – E em relação às amizades e ao círculos social do David-Ferreira...

KLDF – Praticamente nulo.

TB – Mas ele conhecia muita gente...

KLDF – Tinha uns amigos de infância, que ele encontrava de vez em quando em Lisboa...

JPDF – Na Ondina...

KLDF – Na Ondina, uma pasteleria...

JPDF – Ao pé da casa onde ele cresceu...

TB – Ao pé do Liceu Camões?

KLDF – Sim, colegas de curso, mas era raro.

TB – Fora do trabalho não havia um grupo que se juntava, jantavam... Quem são as pessoasque tiveram assim mais presentes?

KLDF – Realmente, teve um grande amigo, um cientista sueco, Arvid Maunsbach. Nos encontramos a primeira vez em 1956, em Estocolmo, numa reunião de Microscopia Electrónica. Simpatizaram muito. E além disso havia lá um cientista jovem, russo... A única coisa que queria era beber Coca-Cola [risos] Então, aquele Arvid Maunsbach o meu marido convidou e veio várias vezes aqui fazer curso.

TB – E ainda vem a Lisboa?

KLDF – Não, ele agora está muito doente...

TB – Ainda está vivo então?

KLDF – Está, mas doente do coração.

TB – Talvez possamos fazer um depoimento...

KLDF – Este foi o único grande amigo íntimo que o meu marido teve, do meu conhecimento...

JPDF – Depois tinha uma actividade social porque recebia muitos cientistas, amigos que eram do trabalho...

TB – Mas eram mais do contexto do trabalho...

JPDF – Não tinha tempo...

KLDF – Quer dizer, nunca fomentava amizades, não. Não tinha tempo...

TB – Não tinha tempo... Dedicado ao trabalho.

KLDF – Vivíamos um bocadinho como num gheto, porque ele isolava-se. Sim, o Zé, como é único filho, eu tentava sempre ter a casa aberta, para ele trazer os amigos, para lanchar... Gostava muito de o ver cá. Eu tinha sempre uns bons queijos...

TB – Como é que via a relação do Prof. David-Ferreira a política, sobretudo aquele período em que ainda apanharam o Estado Novo... Ele assumia posições políticas?

KLDF – Nunca tomou parte do Partido Comunista. Mas ele era bem de esquerda, desde o MUD... Desde muito jovem...

TB – E ele teve alguma filiação partidária, sobretudo no pós-25 de Abril?

KLDF – Não... Era socialista, sempre votou socialista...

TB – Nunca se inscreveu no Partido?

KLDF – Não, do que eu sei, não... Ia comprar os livros proibidos à Livraria Barata...

JPDF – Conhecemos o Sr. Barata. Um lugar muito pequenino, escuro, o Sr. Barata lá ao fundo, e depois tinha os livros escondidos. Era uma coisa muito interessante...

TB – Como é que ele viveu o período revolucionário?

KLDF – ah, meu deus! Foi um dia de manhã. Tu viste qualquer coisa, o quê?

TB – A minha Avó dizia que não conhecia ninguém que não tivesse ‘entrado em órbita’! [risos]

JPDF – Sim, eu fui para o laboratório e depois fui com o Pai para Lisboa...

KLDF – Ouvimos uma coisa no rádio... sim, que eles cantavam, os revolucionários, anunciavam que tinha havido um golpe...

Fomos para o laboratório e depois de uma hora ou duas se dizia que os mais comunistas tinha ido para casa, cheios de medo [risos] Durante todo este episódio ninguém trabalhava. Nós tinhamos um livro onde anotávamos todas as colheitas e ficou vazio durante meses, porque o ambiente era de tal maneira que ninguém conseguia trabalhar.

TB – Mas fecharam o laboratório? Ou dava para continuar...

KLDF – Não, dava. [risos] Uma vez um estudante ia entrar para o nosso laboratório e o meu marido abriu-lhe a porta, e o estudante disse: “Então senhor Professor, a guardar-me este emprego”... Quando iamos conversar com alguém da ‘nossa cor’, nós iamos para dentro da sala do microscópio, colocar o microscópio a trabalhar, ‘a bomba’, para que os outros não pudesse ouvir... Havia um ambiente de cortar à faca... Uma coisa horrível...

TB – Alguém foi saneado lá no IGC?

KLDF – Sim sim.

JPDF – O Peres Gomes?

KLDF – Foi, sim... Mandaram cartas anónimas, à mulher dele, a dizer que ele tinha amantes. Aí foi de tal maneira que ele sentiu aquilo que pediu demissão. O que ele fez mal porque ele poderia ter pedido uma sabática. Até o Presidente da Fundação, o Azeredo, lhe tinha dito... Não aguentou mais, coitado...

TB – E depois não voltou mais para o IGC?

KLDF – Não, foi para os laboratórios de marca... Isto também coincidiu com a filha mais velha tinha ido para a Guiné a trabalhar em voluntariado e começou a se drogar... E a mulher sofria de asma... Enfim, teve montes de problemas e não aguentou aquele ambiente de trabalho...

TB – Então, ele era associado como pessoa do regime? Na altura...

KLDF – Não. Eles acusavam na altura, mas não. Ele era o quê, PSD. Não era mais à direita do que isso... Mas na altura se você não era comunista era fascista. [risos]

TB – Foi depois do 25 de Abril que o Prof. David-Ferreira voltou ao ensino, não foi?

KLDF – Sim, foi foi. Sobretudo porque o Prof. Morato foi saneado.

TB – Foi substitui-lo então?

KLDF – Sim.

TB – Ele foi contratado em 1975 e chega a catedrático em 1979. E mudou a dinâmica dele de trabalho? Pronto, tinha que dar aulas, é outro tipo de compromisso...

KLDF – Não, ele aceitou muito bem. Ele gostava imenso. Meu marido era um excelente professor. Gostava mais de ensinar do que de fazer investigação. Nitidamente... Nunca dava uma aula exactamente igual à da semana passada. Mantinha-se atualizado e introduzia coisas novas.

TB – E bom comunicador também...

KLDF – Era, era...

JPDF – Ele dava aulas a mil pessoas sem microfone...

TB – Tinha boa projecção de voz...

KLDF – É, em 1974-75... 1200 alunos, ele tinha em Histologia. Conseguiu dividi-los em grupo e institui uma coisa que se chamava ‘Mini-congresso’...

TB – Para incentivar os alunos...

KLDF – Tinham de fazer uma exposição oral e prática também, com cartazes. Funcionou lindamente. Depois houve uns professores que copiaram.

TB – Pode dizer-se então que ele descobriu a vocação de professor só mais a partir dessa altura dos anos 1970? Antes estava mais dedicado à investigação...

KLDF – Nos anos 1950, como assistente de histologia tinha obrigação de dar aulas. Ele gostava muito. Aliás, ele foi para o IHE ainda quando estava lá o Prof. Celestino.

JPDF – A convite...

TB – Esteve lá dois anos...

KLDF – Foi aprendendo...

TB – Nunca deu aulas nos Estados Unidos ou em Paris?

KLDF – Não.

TB – Depois teve aquele período de lançamento do IHC e depois do IGC, também não deu aulas nessa fase?

KLDF – Não.

JPDF – Davam é cursos de pós-graduação aqui no IGC.

KLDF – É... exactamente.

JPDF – E no Brasil...

KLDF – Era cursos de um mês de duração. Muito frequentados pelos alunos internacionais.

TB – A propósito do Brasil, fale-nos um bocadinho do Brasil? Acompanhou o seu marido?

KLDF – Sim, sim. Fomos lá dar um curso no Rio de Janeiro, 1972. Parece que foi...

TB – Foi a primeira vez em 1972?

KLDF – Foi...

JPDF – Mas foi o de Biofísica?

KLDF – Chamava-se Praia Vermelha...

TB – Na Urca...

JPDF – Era o Instituto de Biofísica.

KLDF – Foi o Prof. Mário Machado. Conseguimos dinheiro para comprar um equipamento. Tinham um microcópio. Era de ultramicrotomo. Era outro aparelho. E demos ali um curso...

TB – Estiveram lá um mês?

KLDF – Tenho impressão que foi... Depois fomos outras vezes. Algumas vezes fomos com o Arvid Maunsbach. Também colaborou. E também, como se chama, o José António, o Tozé, José António Cidadão. Também foi algumas vezes ao Brasil.

TB – Tirando o Prof. Arvid Maunsbach, quais eram os professores mais próximos do Prof. David-Ferreira? Ao longo... Dos portugueses... O Peres Gomes... Dos discípulos...

KLDF – O Peres Gomes, sim. Havia uma senhora bióloga chamada Lucinda Mata, estritamente profissional.

TB – E a Prof. Carmo, mais discípula...

KLDF – ah sim, isto foi a grande descoberta do meu marido. Era sempre a menina que queria um esclarecimento nas aulas: “- professor, explique melhor, não percebi bem...” E ele apostou nela e deu certo.

TB – Ele apostou noutras pessoas? Além da Prof.ª Carmo, alguém que tenha notado que ele despositava esperanças...

KLDF – Com certeza há muitas pessoas, muitos estagiários...

TB – É uma lista imensa, que temos reunido...

JPDF – Tens de ir às pessoas e perguntar...

TB – Prezada Karin, muito obrigado pela disponibilidade, acho que conseguimos várias coisas que são episódios engraçados para explorar no livro.

KLDF – Nada.